A primeira e mais persistente imperfeição a tentar roubar o brilho da originalidade de Jesus como apresentado nos evangelhos foi o gnosticismo. Decalcado sem sutileza da visão de mundo das religiões de mistério, o gnosticismo crê, essencialmente, que a salvação está condicionada ao acesso a um conhecimento secreto – a gnose – através do qual o iniciado nos mistérios da religião pode conectar-se à divindade e beneficiar-se dela.
Alguns crêem que o Apóstolo escreveu a maior parte de suas cartas para combater o alastramento da mancha gnóstica no seio virgem da igreja primitiva; outros juram de pé junto que Paulo não estava ele mesmo imune à sua influência, e que muitas de suas passagens e argumentos promovem ou pressupõem a visão de mundo gnóstica.
Certo é que nenhum outro conceito tem permeado tão unanimemente e por tanto tempo a mentalidade cristã de todas as tendências e estirpes do que a confiança tipicamente gnóstica na supremacia ou na necessidade de um conhecimento secreto – isto é, específico – como condição para a salvação. Com o tempo, naturalmente, o gnosticismo foi demonizado com este nome; entre os cristãos o conhecimento secreto passou a ser chamado e idolatrado como crença correta – ou ortodoxia, que é como se diz em grego.
Só a ortodoxia salva.
A relação dos cristãos com a ortodoxia é primordialmente idolátrica. Se pressionados, cristãos de todos os matizes acabarão concordando que não é uma religião particular que beneficia o adorador, mas algum aspecto da bondade divina expresso na vida, morte e/ou ressurreição de Jesus. Na prática, no entanto, todos tentarão convencê-lo de que para beneficiar-se desse privilégio gratuito é necessário abraçar determinado conjunto muito específico de noções a respeito de Deus, da vida e da salvação. A esse conjunto de “crenças corretas”, que nenhuma facção cristã tem em comum com a outra, é que se dá o nome fortuito de ortodoxia.
A paixão com que os cristãos defendem seus pontos de vista uns contra os outros reflete com precisão a extensão de sua ortodoxolatria. Jesus é muito bonzinho e tal – mas só a ortodoxia salva, e ninguém vem a Jesus se não for por ela.
Ortodoxolatria – ou gnosticismo cristão – é a crença praticamente universal (entre os cristãos) de que para beneficiar-se do favor de Jesus é preciso sancionar uma série racional e muito específica de assertivas a respeito de como Deus funciona. Ser cristão não é, segundo essa visão, uma postura pessoal de confiança no cacife de Jesus; não é questão de posicionamento moral, psicológico ou espiritual. Para os partidários da nova gnose ser cristão é assunto da cabeça e da razão; depende da consistência do nosso discernimento intelectual, demonstrada pela filiação ao rol apropriado de afirmações teológicas – em detrimento, naturalmente, de todas as outras.
É por sermos todos ortodoxólatras que entre a leitura deste parágrafo e do anterior uma igreja em algum lugar se dividiu e se criaram duas – cada uma acenando com sua própria versão da gnose, o conhecimento apropriado que tem poder para salvar. Gente que sentava-se no mesmo banco para cultuar estará a partir deste momento separada pelo abismo de sua fé inabalável na necessidade da crença correta. Terão discordado irreparavelmente sobre algum ponto crucial da sã doutrina: se mulher tem direito a pregar, se Jesus visitou o inferno, se milagres acontecem, se o arrebatamento vem antes ou depois do milênio, se o Espírito é derramado em uma ou duas prestações, se Jesus ressuscitou, se um homem pode dormir abraçado a outro; se cristão pode se divorciar, abortar, assistir televisão, cortar o cabelo, tomar cerveja, ouvir Raul Seixas, ler ficção científica, usar camisinha, suicidar; se é certo usar crucifixo, votar em comunista, acender uma vela, comprar a prestação, pagar o dízimo, fazer o sinal da cruz, chorar aos pés de uma estátua, jogar na loteria, batizar criança, fazer sexo antes, durante e depois do casamento. As combinações são incontáveis, e cada facção proporá sua versão particular da gnose. Uma única coisa todos os grupos apresentarão em comum: a fé subjacente e implacável na ortodoxia, o paradigma que pressupõe a supremacia e a necessidade de uma única posição doutrinária/teológica/ideológica formal e a conseqüente demonização das outras. Como dizia Borges, interessa-lhes menos Deus do que refutar os que o negam na sua versão.
Essa confiança nos benefícios inerentes de uma apreensão intelectual adequada dos mecanismos de Deus não poderia estar mais distante da postura de Jesus, para quem apenas comparações podem produzir um vislumbre da natureza do Reino e – mais importante – todos os homens podem beneficiar-se da postura cavalheiresca de Deus, independentemente do acesso a qualquer conhecimento secreto ou específico. A inescapável graça de Deus, segundo Jesus, está pronta a agir em favor não apenas dos pecadores – o que deveria parecer por si mesmo admirável – mas também dos incompetentes, dos deficientes, dos tolos, dos insensatos, dos imaturos. A verdade foi escondida, garante Jesus, dos doutos e estudados e revelada aos mais parvos dos discípulos. Para entrar no Reino é necessário que nos tornemos “como crianças” – condição que não denota, ao contrário do que se pensa, um atestado de inocência, mas de incompetência. Para beneficiar-se do Reino é preciso ser incapaz. Requer-se não ter noção do que está acontecendo e não ter noção de como parar o processo aparentemente irreversível do qual fazemos parte. É preciso ser capaz de baixar a bola e delegar o controle e a compreensão do que está acontecendo a outro. É preciso ter uma vaga idéia, não certeza. Fé, não crenças. Confiança na suficiência do cavalheirismo de Deus, não no mérito arbitrário da ortodoxia.
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hernan
Que delícia!
Estou repassando.
Obrigado.
rubens pires de lima osorio
Oh, my God! Cara quem te ensinou a escrever assim?
Este texto é insuperável.
As diferentes doutrinas cristãs deviam servir para abrir canais de diálogo, de reflexão, formas de aprofundar a fé; deviam abarcar, abraçar, abranger, incluir, comunizar (?).
Mas não.
Servem para excluir, dividir, irrefletir, isolar, superficializar a fé.
Deixamos de ser povo e passamos a ser partido, patota, panela, gueto, gangue.
Pobres cristãos ! ! !
Lou
Ontem a noite fui à uma Igreja onde sempre que chegava era convidado a dar uma palavra, ainda que fosse uma saudação. Agora abraçaram uma doutrina que obriga todos a passarem por um encontro e, só então, são considerados salvos ou convertidos. Sendo assim, só poderei saudar a Igreja depois de passar pelo tal encontro.
Edson Dorneles
É meu caro pensador, somos adoradores de idéias, obcecados pelo conhecimento que produzimos e não temos a vergonha de chamar que foi revelado.
Você pode me ajudar a compreender o que jesus quis dizer quando disse “errais não conhecendo as Escrituras…” e “são elas que de mim testificam e nelas vocês têm a vida eterna”?
Credo quia absurdum.
Edson Dorneles
Mestre, de omni re scibili et quibusdam aliis, a verdade é uma pedra, e é uma Pessoa.
rubens pires de lima osorio
Pensando bem, a pior ortodoxia é aquela criada para contrapor-se à “ortodoxia vigente, que tanto mal faz à Igreja”. Isto é, a criação de novas doutrinas por acharem que as existentes são erradas, falhas, insuficientes, rígidas demais, muito frouxas, pouco enfáticas, excessivamente exclusivistas, etc, etc, etc…
hernan
Círculo vicioso!
Ebeneser Nogueira
Rubem Alves chama esse culto à Ortodoxia de “Protestantismo da Reta Doutrina”.
Fazia tempo que eu não lia um texto tão inteligente.
marta
Maravilhoso este texto! Amei por demais.
geraldo amorim filho
O ser humano não sabe viver sem ter como se apegar em algo que lhe sirva de amuleto ou muleta. Justamente as coisas que CRISTO retirar, mas a condição de confronto com a verdade e consigo próprio deixa o homem sem referenciais e ele procura a ortodoxia.
Cristiano
‘’Sapientíssimo’’.
Como sois mais sábios, por nada saberem.
Como sois ‘’abertos’’, e os demais ‘’ortodoxamente’’ fechados; sim eu me fecho na sã doutrina, e abraço a divina pessoa, Ela me abraçou primeiro, sendo eu um pecador. Ela vos abraça apesar dos vãos sofismas.
Em sua SOBERANA GRAÇA nos acolhe.
E reina, e sabe, e levanta mestres, muitos dos quais por amor e bondade do Pai, tiveram vidas de devoção visceral, o que para meninos ‘’sofisticados ‘’ de hoje são mera ‘’ORTODOXOLATRIA’’.
E hoje, na minha parca digitação e erudição me vejo indignado convosco e seus sarcásticos asseclas, ao mesmo tempo que sei que se confessamos o Cordeiro irmãos somos por seu sangue.
E próximo o aniversário da Reforma brado a ti ó Brabo, SOLI DEO GLORIA!!!
hernan
Cristiano, eu quisera que o próprio dono do barraco respondesse, mas ele deve estar ocupado com coisas seculares como desenhar São Nicolau.
Sei que Cristo é o “um só mediador entre Deus e o homens”. Mas diga-me se a “sã doutrina” (assim entre aspas), ou ortodoxia – o que dá no mesmo – é único mediador entre os homens e Cristo.
Cristiano
Caro Hernan,
Creio que o Reto Caminho e a própria essência é uma Pessoa, e por isso abraço a todos os que crêem como irmãos (Jo.1:12), porém creio como Aníbal Pereira Reis que “o Cristianismo é o amor vivenciado a Jesus Cristo. Amor fundamentado em convicções. Convicções estruturadas em doutrina”. Por isso eu não tenho problemas com a ortodoxia (Tito 2.1), que me leva a adorá-LO. A corruptela dela eu também abomino.
Sobre o dualismo de coisas “seculares” e religiosas, eu não vejo tal distinção (1Cor.10:31).
Pedro Jorge
Se pelo menos a ortodoxia nos levasse a fazer as coisas “certas”… Mas não: ela nos impele somente a deixar de fazer as “erradas”. Ser cristão fica sendo, em suma, medíocre como aquele jogador de futebol esforçado da várzea, que NÃO bebe, NÃO fuma e NÃO joga.
Diogo
Bálsamo! Esta é a palavra que me veio à mente após ler este texto… e não poderia ser outra. Depois de anos em busca da “sã doutrina”, e em meio a incessáveis bombardeios calvinistas, pentecostais e neo-pentencostais, percebi que havia me desviado da Essência… Estava sempre absorto em tantas polêmicas, tantos argumentos, tantos mistérios, pouco respeito e muita birra… que por um pouco não esqueci O que realmente importa. E agora… o que encontro senão um bálsamo? Muito obrigado!
Antonio Polo
Então para os cristãos fugirem do agnosticismo só lhes restou uma saída, crerem na gnose.
Darlan Machado
Uma saudade imensa me invadiu o coração ao ler o seu texto, amigo. Sentia-me obrigado, como Rubem Alves, Boff e tantos outros (respeitando as devidas proporções de importância e significação, é óbvio) a abandonar o convívio, as idéias e, até mesmo, as lembranças da bela experiência cristã. Fui considerado e serei ad infinitum herege por não acreditar e não compactuar com a ortodoxia. Impedido de conviver. Parafraseando Rubem Alves, todos os pecados as comunidades cristãs perdoam, mas os que pensam diferente, os hereges, são uma ameaça inaceitável e merecem, peremptoriamente, serem excomungados (vide “Dogmatismo e Tolerância”, de R.A). O que me fez voltar a ler, pensar sobre essas coisas, a sentir saudades depois de tantos anos? Uma “Nota de Esclarecimento” emitida hoje num jornal desta cidade, Fortaleza, que versa sobre a desvinculação da Igreja Betesda de Fortaleza da Igreja Betesda do Ricardo Gondim “por doutrinas, pensamentos e filosofias serem incompatíveis com a Palavra de Deus” que o referido pastor têm sido simpatizante.
Aqui estou agora, extasiado e desafiado a continuar…
guido
Falando no Gondim! Eu o amo e espero volte a escrever no seu site logo, sem dar muita importância a quem nao concordar com ele.
Um abraçao no Ricardo!!!!!!!!
denise
Caro Paulo Brabo,
Amei e amei!!!
denise
Wladimy De Morais
Concordo em termos. Esta coisa que no ocidente chama-se cristianismo não tem nada haver com o cristianismo que vemos exposto Novo Testamento. Vejo tudo isto como um enorme mercado, onde as ovelhas do Senhor Jesus estão sendo maltratadas. Breve Ele virá com o seu azorague tratar com esses mercadores. Breve postarei mais comentários.
Roger
Na Alemanha posso beber minha cerveja e ir à igreja evangélica. Primeiro conflito resolvido.
A questão da liberdade do pensamento dispensa comentários, só perdemos para a Grécia e Brasil em filosofar. A diferença é que como crente é produto escasso, aqui, ninguém “não está nem aí” com o que o outro pensa, o importante é que se pensam, logo existem. Meu segundo problema com o meio Evangélico foi resolvido. Fumar já havia parado antes de sair do Brasil.
Como nem tudo é lucro, sinto falta destes debates apaixonados… nem fazia idéia que estava rolando este aí, talvez porque aqui sou poupado do lado ortodoxo. Achava que nomes como Yancey e Gondim eram unanimidades. Afinal nada mais Bíblico que um Deus pessoal. E nada menos cristão do que um Deus objeto. Visível, tocável, revelável, mas ainda assim pessoa e não objeto.
Acho que o problema é que pegam Jd 1:3 e querem interpretar que fé ali significa este conhecimento secreto, e se esquecem do conceito de Hb 11, ou seja uma certeza que vem não de um conhecimento teórico, dogmático, mas de um relacionamento pessoal.
Me deu vontade de largar tudo aqui e voltar para o front!