– Como ela é?
O merceeiro acenou com a mão num gesto vago.
– Velha – ele disse. – Tem estado na família por um longo tempo.
Ele aceitou um níquel de um garotinho, ajudou-o a tirar a embalagem de um picolé e disse:
– Porque vocês não telefonam pro velho Sam Fielding? Aposto que ele iria gostar de levá-los até lá.
Havia apenas um trem por dia saindo da cidade. Se nos demorássemos o bastante para olhar a casa Fielding não poderíamos partir até o dia seguinte; eu hesitei, e o merceeiro disse:
– Não vai fazer mal dar uma olhada, de qualquer forma.
Saí e coloquei a cabeça pela janela para dentro do carro onde meu marido estava esperando com nossos anfitrião e anfitriã.
– Já ouviram falar de uma casa chamada casa Fielding?
– A casa Fielding? – disse nossa anfitriã, e nosso anfitrião disse:
– E o que vocês iriam querer com aquilo?
– Qual é o problema com ela?
– Bem – disse nossa anfitriã, – ela deve ter uns cem anos, acho.
– Um milhão – disse nosso anfitrião. – Ela é…
Ele gesticulou desconsoladamente.
– Tem esses pilares brancos enormes na frente – disse ele.
– Tem uma casa atrás dos pilares? – perguntou meu marido. – Porque se tiver, e se tem encanamento e uma fornalha central e quartos e eles alugarem pra nós, nós vamos morar nela.
A residência Fielding era uma casa muito antiga a cerca de um quilômetro da cidade. Era a mais velha da vizinhança e a terceira mais antiga do município. Tínhamos passado por ela várias vezes, percebemos com um choque, quando saíamos de carro com a Sra. Black e o Sr. Miller e o Sr. Faber para olhar outras casas. Tinha sido construída – pesquisei nos registros da cidade logo depois que nos mudamos, quando estava tentando inutilmente acertar-me pessoalmente com a casa – perto de 1820 por um médico chamado Ogilvie, que estabeleceu-a como casa senhorial no centro de uma grande fazenda. A revitalização do clássico estava naqueles dias em voga no condado, e o Doutor Ogilvie projetou sua casa, presumivelmente, tomando como modelo um templo grego secundário: ergueu quatro colossais pilares brancos na frente, puxou alas em ambos os lados e então, com o verdadeiro senso de economia da Nova Inglaterra, deixou a casa com apenas um quarto de profundidade por trás de sua impressionante fachada. Quando a família Ogilvie gradualmente desapareceu ou mudou-se, como aconteceu pouco depois que a casa foi construída, a propriedade passou para as mãos de uma família chamada Cortland, que vendeu a maior parte da fazenda e transformou o depósito de madeira do Doutor Ogilvie numa cozinha de verão. Os Cortland acabaram vendendo a casa para uma família chamada Fielding, que rapidamente comprou de volta toda a terra ao redor, agora já um tanto ocupada por casas, alugou as casas, instalou uma serraria no rio que cruzara a fazenda do Doutor Ogilvie e contratou arrendatários e empregados. Os registros da cidade davam a entender que o Fielding original havia sido trabalhador rural do Doutor Ogilvie, e a família sem dúvida já estava com um olho na propriedade mesmo então. À medida que a cidade se desenvolvia os Fielding iam ficando mais ricos, e com o tempo a geração final de Fieldings autênticos morreu, um após o outro, e a propriedade inteira passou para três primos, todos os quais viviam em casas rigorosamente modernas em cidades vizinhas, vivendo formosamente dos lucros da serraria.
Quando a casa senhorial foi colocada para alugar foi como se uma parte vital da cidade tivesse deslizado imperceptivelmente para dentro do rio, e uma grande frieza surgiu entre os herdeiros Fielding e os Batlett, proprietários da segunda casa mais antiga da cidade. Mesmo durante os períodos mais severos de falta de moradia, com a serraria funcionando a todo vapor dia e noite, a velha casa senhorial no topo da colina permaneceu vazia, seus pilares brancos arqueando e sua entrada de veículos asfixiada com folhas mortas ou aplainada com neve intocada. Quando fomos vê-la pela primeira vez a casa parecia levemente ridícula, e até mesmo as cercas em ambos os lados e ao longo da fachada inclinavam-se um pouco para longe, sem chegar de fato a renunciar à casa, como se a deplorassem secretamente e apesar disso quisessem apresentar uma vanguarda unificada para o mundo exterior. Sam Fielding era o único dos primos Fielding a reter o nome da família e assim havia-se aparentemente concluído que era ele a escolha lógica para nos mostrar a casa. Era um velhinho pacato com o discurso lento do ponderado natural de Vermont; ele ficou em pé conosco ao pé do gramado e ele e meu marido e eu fitamos em silêncio os pilares lá no alto, as alas esparramadas, o cata-vento de ferro que nos encarava silenciosamente em retribuição.
– É isso aí – disse o Sr. Fielding sem deixar qualquer dúvida. – Eu gostaria de poder dar algum uso a ela.
Ele desviou o olhar rapidamente, como se quisesse evitar o olhar acusativo da casa.
– Uma casa boa – acrescentou.
– Ela parece tão… – hesitei – imponente.
– Imponente – concordou o Sr. Fielding. Ele recusou um cigarro do meu marido e pegou um dos seus próprios cigarros; eram da mesma marca, mas eram dele.
– Vou dar uma limpada nela – ele disse, acenando em direção à casa.
– Podemos entrar? – eu perguntei. – Se estivéssemos interessados na casa iríamos querer olhar o interior.
– A porta está aberta – disse o Sr. Fielding.
Ele recusou um cigarro do meu marido e pegou um dos seus próprios cigarros; eram da mesma marca, mas eram dele.
Hesitamos, meu marido e eu. O Sr. Fielding acomodou-se confortavelmente num toco de árvore e cruzou as pernas.
– A porta está aberta – ele disse de novo.
Juntos, meu marido e eu percorremos o trajeto até a porta da frente, evitando bem a tempo o degrau quebrado que levava à varanda. Uma vez entre os pilares a percepção da casa caiu sobre nós repentinamente; aqui estava uma casa, ao contrário dos paliativos temporários que eram as McCafferys e Exeters. Meu marido experimentou a porta da frente hesitantemente, e ela abriu por completo. Cuidadosamente, tomando cuidado com tábuas de piso quebradas, adentramos uma ampla sala sombreada pelos pilares e com uma escada colonial reta, adorável, ao fundo; em algum lugar à nossa direita havia um tapete inundado com rosas vermelhas e um harmônio, debaixo de retratos escuros que pareciam inclinar-se um pouco para a frente para nos observar, surpresos. Entramos numa cozinha onde um monumental fogão de ferro trabalhado ameaçava cair sobre nós, e na cozinha havia uma mesa grossa de poeira e sobre ela uma xícara empoeirada e um prato com duas antiqüíssimas e endurecidas rosquinhas fritas. Havia uma cadeira puxada para fora da mesa.
– Estou arrependida de que tenhamos ficado – eu disse ao meu marido com seriedade, minhas mãos tremendo enquanto olhava para as duas repulsivas rosquinhas. – Nós interrompemos o almoço deles, vamos sair agora mesmo.
– Se não fosse a única casa da cidade… – ele disse, mas seguiu-me rapidamente para o lado de fora.
O Sr. Fielding ergueu-se para vir ao nosso encontro ao retornarmos por entre os pilares, e quando estávamos perto ele disse:
– Está vindo mau tempo. Neva antes do amanhecer.
Ele escoltou-nos solenemente até a estação, discorrendo sobre o tempo, e quando nosso trem veio ele comentou:
– Vou dar uma ajeitada nela, então, antes que vocês venham na primavera.
– Diga-me – eu disse, – há quanto tempo ninguém entra naquela casa?
– Não desde que o velho morreu – ele disse. – Quatro anos, estou calculando que seja.
– Nem para arrumá-la? – insisti. – Examinar as coisas dele, alguma coisa assim?
– Nunca achei de verdade que fosse alugar – disse ele, pensativamente. – Não fazia sentido apressar as coisas.
Ele acenou gentilmente quando embarcamos no trem. Durante a maior parte das duas semanas seguintes eu me apeguei firmemente à impraticável convicção de que não me importava que fosse a última casa da cidade, ou até mesmo do mundo; não me importava se tivesse de morar na praça: eu não iria viver numa casa com duas rosquinhas petrificadas. Na semana seguinte, entretanto, recebemos uma carta do Sr. Fielding dizendo que a casa estava sendo reformada, e será que achávamos que era muito o aluguel de cinqüenta dólares por mês?
– Você parece que assumiu a casa – eu disse, injustamente, ao meu marido.
– Provavelmente é porque entramos nela – ele disse. – Como ninguém nunca entrou, deve configurar-se como uma espécie de contrato.
Uma semana mais tarde recebemos outra carta do Sr. Fielding, dizendo que a casa já estava pronta para nós, exceto pelo exterior, que seria pintado quando o tempo abrisse. Como não havíamos respondido a sua carta anterior ele havia concluído que o aluguel devia estar caro demais, e será que podíamos arcar com quarenta dólares?
Um forte sentimento de culpa impeliu meu marido a responder imediatamente dizendo que cinqüenta dólares por mês estava ótimo.
– Antes que ele acabe nos dando – – ele me falou.
– Mas eu não vou… – eu disse, percebendo, é claro, que ia.
Cheguei de trem, um dia depois do meu marido. Trouxe comigo um loucamente entusiasmado Laurie, e Jannie num moisés; e todo o tempo no trem, esmagada entre Laurie e a cesta do bebê e as malas e os sanduíches, fiquei imaginando se havia ocorrido a alguém levar embora a mesa da cozinha e as rosquinhas. Meu marido havia prometido que se não conseguíssemos de fato suportar podíamos tentar mais uma vez procurar alguma coisa na cidade. O Sr. Fielding estava com meu marido para nos receber na estação, e quando vi o Sr. Fielding a nítida sensação da casa voltou novamente sobre mim, e senti-me pronta para dar as costas e voltar na mesma hora. Ele sorriu animadamente para mim, disse “tarde, meu jovem” a Laurie, e fitou gravemente o bebê por minuto; ela observou-o de volta, e ele então acenou com a cabeça para mim e disse tranqüilizadoramente:
– Dei uma ajeitada nela.
Entendi o que ele queria dizer quando vi a casa. Ela havia sido literalmente lixada de cima a baixo, até a madeira das paredes. O Sr. Fielding havia colocado um novo papel de parede, esplêndido e com grandes e belíssimas estampas, as janelas haviam sido lavadas, os pilares endireitados, o degrau quebrado consertado, e um animado homem estava na cozinha colocando os toques finais na reluzente pintura branca das novas prateleiras; havia um fogão elétrico novo em folha e uma geladeira nova, o assoalho havia sido consertado e envernizado, e um ninho de vespas havia sido removido do pilar mais exterior, à direita. O gramado estava nesse momento começando a mostrar algum verde, e Laurie correu por entre os pilares, tocando cada um e então, gritando, correu a subir e descer as escadas internas. Em sua cesta Jannie sorria, olhando para o céu acima das árvores.
– Está linda – eu disse ao Sr. Fielding, quase em lágrimas. – Achei que iria estar como antes.
– Estava precisando de alguma reforma – concordou o Sr. Fielding.
Ele então indicou com a cabeça o novo forno da cozinha e disse:
– Fez bem pra esse lugar velho.
Naquele momento nosso caminhão de mudança estava chegando, e três sujeitos musculosos e bronzeados, que haviam parecido tão naturais carregando nossa mobília para fora do apartamento, tornaram-se abruptamente incongruentes carregando nossas pequenas cadeiras e mesas por entre os pilares.
– Coloquei mais algum encanamento também – disse o Sr. Fielding, e partiu.
No decorrer da primeira semana, mais ou menos, nada parecia estar se encaixando. Nossa mobília, que havia sido mais do que adequada para um apartamento na cidade, ficava aqui diluída demais por entre os ressonantes aposentos da casa, e tivemos de preencher o espaço com mesas e cadeiras avulsas compradas do Sr. Fielding e de lojas de segunda mão da região. A casa havia crescido enormemente, fiquei sabendo depois, em relação ao projeto original do Dr. Ogilvie. Os Cortland havia acrescentado uma cozinha de verão, mas os Fielding haviam acrescentado sem parar, de modo que o aposento que havia sido a cozinha de verão, por exemplo, e havia estado ligado originamente à parte de trás da casa, estava agora bem no meio, enfiado entre aposentos maiores e mais robustos, e não era mais cozinha de modo algum mas apenas um quartinho escuro que era às vezes difícil de encontrar. Tínhamos apenas três camas e seis quartos, então o Sr. Fielding nos vendeu, por cinqüenta centavos, uma cama que havia sido apenas recentemente tirada da casa e colocada num dos espaçosos celeiros. Tentamos comprar o harmônio mas os Fielding haviam-no vendido a um antiqüário; o que de fato compramos foi o tapete com as rosas, já que era o único que caberia no vasto deserto da sala; abrimos mão, unanimemente, da velha mesa da cozinha. Todas essas coisas, as que haviam estado na casa antes, e as coisas que haviam estado em casas antigas similares e conheciam os seus hábitos, acabaram ocupando naturalmente boas posições nos aposentos, como que agarrando os melhores lugares antes que a mobília da cidade se amontoasse. Não importa o quanto tentássemos posicionar nossas excessivamente estofadas cadeiras em ambos os lados da lareira da sala de estar, uma velha cadeira de balanço de madeira que o Sr. Fielding havia nos dado insistia em preencher o centro do tapete da lareira – e nem com a melhor das intenções dispunha-se a ser trocada de lugar. Um velho armário alto com gavetas, que havia sido contemporâneo da cadeira de balanço, embora vindo de um celeiro do outro lado da cidade, assumiu o canto da sala de estar perto da cadeira de balanço, e os dois passaram a viver em silencioso companheirismo.
Depois de umas poucas vãs tentativas de impor nossa própria ordem inflexível nas coisas, com o conseqüente efeito desconjuntado e gritante desarmonia que nos davam arrepios de aflição, rendemo-nos à velha mobília e deixamos as coisas se assentarem onde desejassem. Uma certa irritação persistiu em determinado ponto da sala de jantar, um lugar que se recusava a acolher a mesa ou o aparador e criou um alarmante depressão no chão quando tentei colocar o rádio ali, até que descobri, completamente por acidente, que aquele lugar estava acostumado a uma escrivaninha e não sentiu-se à vontade até que eu saí e achei um esguio balcão de escrever e coloquei um tinteiro de latão em cima.
Havia a porta de um sotão que preferia ficar trancada, e trancava-se sozinha não importa quem estivesse lá dentro; havia outra porta que pairava por costume ligeiramente entreaberta, embora se fechasse de bom grado por algum tempo quando alguma ocasião especial o exigisse. Tínhamos cinco sotãos, descobrimos, construídos em direção e sobre e juntos uns dos outros; um guardava morcegos e esse fechamos por completo; outro, iluminado e alegre a despeito de sua única janelinha, gostava de ser local de tráfego e tornou-se, sem nenhuma decisão consciente nossa, lugar de armazenar as coisas temporariamente, coisas que mudavam de lugar com regularidade, como trenós e pás de neve e rastilhos e redes de dormir. O porão era cruzado por um velho varal, e depois que o varal que eu havia posto no quintal dos fundos caiu pela terceira vez resignei-me e coloquei um novo cordão de varal no porão, e as roupas secavam ali rápida e viçosamente. Abastecemos o depósito de lenha, já que tínhamos quatro lareiras, e meu marido descobriu um estranho prazer em partir madeira, e o som de um machado no depósito de lenha ecoava agradavelmente pela cozinha. Um quarto de dormir escolheu as crianças, porque era grande e iluminado e ostentava inconfundíveis marcações de altura numa parede e parecia não importar-se nem um pouco quando marcas de crayon surgiram no papel de parede e tinta foi derramada no assoalho. Colocamos estantes de livros no quartinho escuro do andar de baixo, e depois da segunda semana meu marido chegou ao ponto em conseguia encontrá-lo nove vezes em cada dez tentativas.
Era uma boa velha casa, no fim das contas. Nossos gatos dormiam na cadeira de balanço; nossos amigos vinham nos visitar. Acabamos nos acostumando a fazer compras em determinados armazéns e compramos queijo da vizinhança e achamos um médico e um cachorro; Laurie foi matriculado na escola maternal da comunidade e aprendeu, como eu havia feito, a identificar a casa dizendo “é a velha casa Fielding; aquela com os pilares”. Perto do fim do nosso primeiro ano o pintor apareceu para fazer o exterior da casa, e pintou-a de branco com detalhes em verde, as cores com que havia sido sempre pintada anteriormente; efetivamente duvido que o pintor possuísse outras cores de tinta.
– Não tem mais muitas casas como esta hoje em dia – ele me disse, sorrindo benignamente para mim do alto da sua escada. – Não se acham mais casas construídas como essa.
Olhei da varanda da frente para dentro, pelo vidro da porta da frente, vendo o perfil esguio da escadaria e as cortinas claras da sala de jantar.
– É uma boa velha casa – eu disse.
– Dá sempre pra saber pelos gatos – disse o pintor, enigmaticamente.
Descobri que, enquanto na cidade eu havia permanecido sempre ocupada demais para fazer qualquer coisa que fosse, eu me encontrava agora fazendo coisas exquisitas como pão de mel e salada de repolho. Laurie deu início a um jardim rudimentar nos fundos e Jannie deu seu primeiro passo na sala de jantar. Certa ocasião deixei os dois com o vizinho da casa ao lado e fui para a cidade grande numa feroz viagem de compras de dois dias; quando vagueei pela nossa antiga vizinhança e fiquei em pé em frente ao nosso velho edifício de apartamentos, só consegui pensar o quão pequeno e sujo ele parecia.
– Nenhum pilar por aqui – disse a mim mesma com profunda satisfação, e tive vontade de escrever ao nosso antigo senhorio e contar a ele.
Então, a casa era velha quando a encontramos, e barulhenta quando entramos, e levou bem pouco tempo para que a deixássemos repleta. Nossos filhos trouxeram para dentro amigos e cavalos de balanço e pincéis de pintura, nós trouxemos nossos amigos e pequenas comodidades essenciais. Aprendi a fazer massa de torta crocante – embora não tenha, receio, o toque de uma torteira nata. Gente da cidade começou a vir passar os finais de semana quando o tempo estava bom.
Jannie falou por um longo tempo de uma voz distante na casa que cantava à noite para ela, e colocamos a árvore de Natal no canto da sala de estar, de onde as luzes brilhavam à noite por entre os pilares; varremos as folhas do gramado da frente e descemos de trenó colina abaixo. Passamos a falar com desprezo dos “da cidade”.
Eu, como já disse, nunca encontrei um modo de vida preferível; seu único defeito – sem contar o trabalho exaustivo e as odiosas massas crocantes de torta que recusam-se a dourar – é que ele se estende indefinidamente sem, ao que parece, mudança significativa alguma. Fico observando os meus vizinhos e a mim parece que eles estão satisfeitos em meramente subsistir, registrando e empregando cada dia mas nem de longe distingüindo um dia do outro; embora esse seja obviamente o melhor modo de passar o tempo, ele dá, creio, espaço para pouca ou nenhuma empolgação. Mesmo um grande acontecimento (como nosso furacão, ou a vez que tivemos uma inundação, ou aquela nevasca terrívelmente forte quando ficamos sem eletricidade por três dias) tende a tornar-se, no dia seguinte, apenas um marco mnemônico – “foi dois dias, eu me recordo, antes do furacão, porque tínhamos todas aquelas framboesas para preparar…” – e até mesmo a última trombeta do apocalipse não irá, receio, causar impacto muito maior na nossa comunidade (”…bem, deixa eu ver, que aquela corneta tocou mesmo foi perto das três da tarde, eu me lembro daquele dia porque foi o dia em que eu ia pregar as tábuas naquele portão dali e, veja, já se passaram umas seis semanas desde aquela corneta velha, e tá ali o portão do mesmo jeito…”). Quando penso no assunto, só consigo lembrar do ano em que Laurie nasceu porque eu estava esperando para comprar um novo casaco de inverno.
Shirley Jackson, Life among the savages, 1953
Minha vida entre os selvagens
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