30 de Março de 2006

A narrativa divina

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Fé e Crença

QUANDO OUVIRAM pela primeira vez a palavra da Lei nos Dez Mandamentos, conta a velha história rabínica, os israelitas desfaleceram. Suas almas os deixaram. A palavra então retornou a Deus e bradou:

– Ah, Soberano do Universo, tu vives eternamente e tua Lei vive eternamente. Mas enviaste-me a mortos. Estão todos mortos!

Por essa razão Deus teve misercórdia e tornou sua palavra mais palatável. Essa história traz duas lições. Primeiro que a palavra de Deus é poderosa. É sua própria identidade, e “quem pode resistir à sua presença?” Em segundo lugar, para tornar sua palavra-presença mais palatável, Deus encontrou uma solução: recontou-a sob a forma de histórias.

Por quê? Haverá nas histórias algo que por sua própria natureza expressa os caminhos e a mente de Deus mais do que qualquer outra expressão? Será porque a narrativa é uma incontrolável “energia de conhecimento” que liga uma pessoa a outra, uma geração a outra e em última instância todos a Deus? Será na verdade a história – falada, escrita, encenada, pintada, esculpida, desenhada, cantada – um eco da nossa origem, um elo-tradição que nos liga a nossos começos, uma ressonância de alguma realidade ancestral?

William J. Bausch, Storytelling: Imagination and Faith

Leia também:
A comprovação da arte – J. R. R. Tolkien
Mito e metáfora – Joseph Campbell

 

Este documento faz parte da série

Teologia narrativa

  1. A narrativa divina
  2. Narrativa versus teologia
  3. Perto dos lábios, longe do coração


2 Comentários a respeito de "A narrativa divina"

Rubens Osorio

Cara, meu, justamente qndo decido finalmente “por a cara pra bater” publicando alguns rascunhos biográficos num humilde blog, em parte incentivado pelo brilhantismo de suas publicações aqui na Bacia, vc me vem com esta história cheia de magia sobre as histórias… Muito legal. Me deu + um incentivo a continuar rascunhando… seja o que Deus quiser.



hernan

Nem sempre foi assim, mas hoje admira-me a fixação de alguns grupos pela letra e literalidade da “palavra de Deus”. O pior é que essa teologia, pelo lado evangélico, originou opositores presos ao mesmo princípio. Os grupos detratores procuram refutar a Bíblia apontando seus erros e as óbvias inconsistências e contradições da literalidade. Ambos os grupos não percebem que estão construíndo um debate vazio, fundamentado na caducidade da letra. Alguém precisa bater o martelo e acabar com isso sob as solenes afirmações: “a letra mata…” e “as palavras que vos digo são espírito…”



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