17 de Junho de 2006

A morte

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Sonhos

Sonhei na noite de quinta para sexta-feira que havia sido assassinado. Morri com um único tiro de trabuco no peito, pela mão de um homem triste que matou comigo outras duas pessoas, e no sonho a morte era indolor e silenciosa e vi de imediato a futilidade e a prepotência da minha tentativa de proteger da morte (como havia feito, sem sucesso) os que estavam comigo.

Logo em seguida, como nos créditos finais de um filme, o assassino desapareceu tela acima e começou a rolar um festivo clipe de música: uma multidão sempre crescente avançava pelas ruas centrais de uma grande cidade, descendo de aindames e subindo de estações de metrô, reunindo-se em grupos cada vez maiores e cantando incessantemente sob uma mesma vigorosa cadência, celebrando em perpétuo clímax uma unânime e não-vista vitória. A reviravolta está em que foi-me concedido saber que a música (talvez inédita na vida real) era de autoria do assassino; Deus ou destino exigiam que eu me dobrasse à ironia que era ser eliminado pelas mãos de quem criara música tão bonita e tão rigorosamente celebratória, e na morte e no sonho cantei e, balançando incredulamente a cabeça, sorri.



4 Comentários a respeito de "A morte"

Manuel Anastácio

Um sonho amargamente poético e belo. Cheio de uma estranha resignação que também costumava ter em alguns dos meus pesadelos, ainda que sem esta complexidade de argumento.



Jo Lorib

Talvez o segredo não esteja nos sonhos, mas no que se faz antes de dormir.
Abraços desde São Paulo



Luiz Henrique Mello

Seu sonho recebeu uma boa ajuda do ilustrador literato. Os meus sonhos, por exemplo, são confusos e o bandido sempre ganha, como se fosse filme brasileiro.



hernan

Jung explica…



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