DA SÉRIE MÚSICA QUE VOCÊ NÃO OUVIRIA
SE NÃO FOSSE AQUI
Outro dia meu compadre cearense Arievaldo Viana reclamou que não falo mais sobre cultura nordestina, como se não me importasse mais com ela.
O engenhoso fidalgo não sabe do que está falando. O nordeste está tão entranhado em mim que metade das músicas que ouço são de veia nordestina.
Como prova irrefutável apresento esta estranha pérola, chupada do primeiro álbum (2001) do peculiaríssimo grupo de música nordestina életrônica liderado pelo paraibano Totonho e completado pelos anônimos Cabra.
O disco se chama, como costuma acontecer, Totonho e os Cabra e a música é Cabra Pentium – um inusitado e pós-moderno tecno-repente com toques de música experimental. Seu refrão anuncia sensatamente:
A lambedeira lambeu o Zé. Cadê o cabra? Deu no pé.
“Cabra” é, como se sabe, nordestinês para “cara, sujeito, peão”. “Mundiça” é “gentalha, ralé, povaréu”. Já “lambedeira” é o nome que se dá na Paraíba à letal peixeira de dezoito polegadas, feita no jeito para acabar noite de forró em confusão e derramamento de sangue (“peixeira”, por sua vez, é como se diz em brasileiro “facão, faca grande”).
Gosto da música toda, mas especialmente de quando informam o Misael que quebraram o pote. Impossível não dançar sozinho com as mãos nas costas como faz o Arievaldo.
CABRA PENTIUM
Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.
Ouvi que nas bandas da Rússia, Europa, África e Japão
Tem cabra de todo jeito, cabra que fala alemão
Trava-línguas esquisitos de tudo quanto é nação
A lambedeira lambeu o Zé, lambeu o Zé, lambeu o Zé
Cadê o cabra? Deu no pé, deu no pé, deu no pé.
Quantos cabras tem no mundo, se toda mundiça é cabra?
Mestiço, mulato, negro, branco azedo endiabrado
Pra cada cabra de peia nasce um cabra safado
A lambedeira lambeu o Zé, lambeu o Zé, lambeu o Zé
Cadê o cabra? Deu no pé, deu no pé, deu no pé.
Uma denominação pra tratar teus companheiros
Pronome de tratamento pra santo ou cangaceiro
Que se cria no sertão e se exporta pro estrangeiro
A lambedeira lambeu o Zé, lambeu o Zé, lambeu o Zé
Cadê o cabra? Deu no pé, deu no pé, deu no pé.
Ei, Misael! Quebraro o pote! Ei, Misael! Quebraro o pote!
Ei, Misael! Quebraro o pote:
Judite não tem sorte, Judite não tem sorte!
A lambedeira lambeu o Zé, lambeu o Zé, lambeu o Zé
Cadê o cabra? Deu no pé, deu no pé, deu no pé.
Todo mundo aqui presente foi pego nessa tocaia
Armadilha, emboscada feita por Totonho e os Cabra
Você são nossos reféns de repente e emboladas.
* * *
Mais música ressonante de Totonho e os Cabra à sua disposição aqui.




