05 de Março de 2006

A grande ruptura

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Pense comigo

Newton e Galileu se consideravam filósofos, não cientistas. Na antiga Grécia, a música era considerada um ramo da matemática. Leonardo Da Vinci especulava com o mesmo entusiasmo sobre a mecânica, a biologia, a linguagem e a arte.

Durante milênios ciência e filosofia – que hoje vemos como terrenos opostos e quase incompatíveis – andaram de mãos dadas. Artistas, filósofos e cientistas dedicavam-se à busca de um “conhecimento” que não tinha fronteiras estabelecidas ou compartimentos estanques. Ciências exatas, ciências biológicas e humanidades eram consideradas porções interrelacionadas de uma ampla filosofia que abarcava todos os aspectos do funcionamento do universo.

A música era considerada um ramo da matemática.

Então, em algum momento do início da era moderna, houve a grande ruptura.

A filosofia foi para um lado, a ciência para o outro. Hoje em moram em casas separadas e não se falam há cerca de dois séculos. Segundo a sentença da modernidade tudo que existe é o mundo material a ciência é a verdadeira medida da realidade – e a filosofia se ressente até hoje desse julgamento.

Seu rancor é ainda mais amargo porque a ciência roubou muitos de seus conceitos da filosofia: a teoria atômica originou-se das especulações dos epicureus; a crença de que todos os fenômenos podem ser explicados por causas naturais, de Lucrécio e Bacon e Descartes; o conceito de massa como a relação entre pontos de massa (teoria da relatividade especial), de Leibniz.

Hoje, de comum acordo, não se fala mais nisso.

O físico nuclear age como se nada devesse ou pudesse ensinar ao neurologista, o neurologista ao fotógrafo, o fotógrafo ao analista demográfico, o analista demográfico ao engenheiro mecânico. Há inclusive, por exemplo, neurologistas que dedicam tempo à fotografia, ou historiadores que envenenam motores de carro nas horas vagas, mas mesmo esses acreditam que suas áreas de interesse são independentes e incompatíveis. A grande ruptura fendeu as pessoas até mesmo por dentro.

No fim das contas, o que selou essa ruptura entre ciência e filosofia – entre ciência e humanidades – foi o Positivismo de Augusto Comte, que afirmava que o progresso humano era governado por três estágios de desenvolvimento: o estágio intuitivo da religião, o estágio especulativo da filosofia e o estágio racional-empírico da ciência – que era o píncaro da glória e a última bolacha do pacote.

A grande ruptura fendeu as pessoas até mesmo por dentro.

Mas o Positivismo acreditava em coisas que hoje achamos improváveis, como Ordem e Progresso. Na visão de mundo pós-moderna nada é tão simples. Filosofia e ciência podem muito bem descobrir que têm muito em comum, e que a chave do conhecimento passa tranquilamente pelas duas portas.

Enquanto a ciência se esforça pra ser um sujeito normal e fazer tudo igual, a filosofia, do seu lado, aprendendo a ser louco.

Pode não ter sido tempo perdido.

Leia também:
O infortúnio da especialização



Um comentário a respeito de "A grande ruptura"

Luiz Henrique Mello

Talvez os argumentos da ciência tenham se tornado mais contundentes, enquanto a filosofia se fragmentou. Nietzche não se dizia filósofo e gastou páginas de seus escritos avacalhando filósofos, sem falar na bronca que ele tinha dos teólogos. Mas, é muito bom conhecer a filosofia. Como dizia meu amigo Zenon (o nome não é por acaso) os gregos escreveram tudo (a filosofia).



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