28 de Novembro de 2006

A força do leão

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

Os filósofos do país de que estou falando leram O Ramo Dourado de Frazer e concluíram que a ciência é a mais insidiosa e inatural das superstições. O homem primitivo cria enxergar alguma relação secreta e invisível entre matar um leão ou vestir sua pele e herdar sua força; da mesma forma crêem os cientistas existir uma relação direta e rigorosa entre o pressionar do interruptor e o acender da lâmpada, entre a aplicação da vacina e a produção dos anticorpos, entre a passagem do tempo e a luz das estrelas. Porém quem pode afirmar, sem recorrer à superstição ou à metáfora, haver alguma relação verdadeira entre uma coisa e outra? O cientista dirá que se pode provar empiricamente, isto é, pela experiência, que, mantidas as demais condições do sistema, a mesma receita produzirá sempre o mesmo bolo, e que essa teimosa coincidência comprova a relação mágica que ele acredita existir. Não será isso, ponderaram nossos filósofos, incorrer em magia simpática e petição de princípio? De que modo, em qual universo, pode-se conceber a terrível abstração que seria “manter-se as condições do sistema”? Os selvagens estão em posição ideológica mais confortável: para comprovar empiricamente a relação entre a força do homem a força do leão bastava, é claro, matar o leão.



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