É sabido que certo personagem de Dostoiévski argumentou que “sem Deus não existe moralidade” – isto é, um ateu convicto não teria qualquer motivo real para sustentar uma postura de correção moral. Segundo essa linha de pensamento o homem sem fé em Deus, desprovido de cadeias adequadas para refrear as suas inclinações, tenderia irremediavelmente a chafurdar na imoralidade. O ateu sentir-se-ia imediatamente livre para adulterar, roubar, mentir, matar, canibalizar, prostituir-se e prostituir – e faria tudo isso e muito mais sem qualquer freio ou constrangimento.
Da crença em Deus dependeria então (quase como defendeu Plínio Salgado) toda a defesa da virtude, da castidade, do heroísmo, da delicadeza de sentimentos, da integridade individual e do pudor coletivo.
Como confirma a postura de muitos ateus declarados, em tudo tão ou mais íntegros e gente boa quanto muitos religiosos, parece seguro afirmar que o autor russo estava errado. Pessoas sem Deus parecem de fato sustentar vidas íntegras – a não ser que, como não é inconcebível, os ateus estejam na verdade muito menos “sem Deus” do que os crentes gostariam de pensar.
De qualquer forma, nunca simpatizei com esse argumento “sem Deus não haveria moralidade”. Além de me parecer racionalista demais, a defesa deixa a impressão de que a moralidade é por si mesma coisa mais admirável do que Deus – como se a existência de Deus precisasse da moralidade para ser justificada.
Finalmente, no entanto, o inevitável aconteceu: um ateu mobilizou o argumento inverso para atacar a fé. Segundo George M. Felis, professor de filosofia no Georgia Perimeter College, a moralidade não é inconcebível sem Deus; pelo contrário, ela é inconcebível com ele.
Sejamos brutalmente honestos. Descrever a fé como “a falência da razão” é, na melhor das hipóteses, meia-verdade.
Há alguns que afirmam que suas convicções religiosas estão fundamentadas apenas na razão e em evidências palpáveis, mas nunca encontrei eu mesmo criatura tão rara. A mais sagaz argumentação jesuítica que busque justificar a religião racionalmente não deixará o componente “fé” inteiramente de lado [...]. Por “fé”, neste contexto, quero dizer (e crentes honestos também) acreditar em alguma coisa porque se escolhe acreditar nela, sem levar-se em conta a ausência de evidência/razões para se acreditar.
Se as crenças de alguém não podem ser justificadas, e se as ações de uma pessoa são moldadas e justificadas pelas suas crenças, então algumas ações não podem ser justificadas.
A fé não é apenas a falência da razão: a fé é a deliberada abdicação da razão. A fé não é um erro na mesma linha de um erro de lógica. Não é simplesmente um lapso que não leva em conta uma evidência que deveria ser levada em consideração. A fé é a declaração de que a razão é muito boa em determinadas áreas, mas que sua eficácia termina aqui onde o crente afirma que ela termina. E nenhum argumento pode ser concebivelmente dado para que não se apliquem os critérios da razão em um dado assunto, porque o argumento em si deve aderir aos critérios racionais [...].
Já ouvi gente dizer coisas assim:
– Não é algo racional. Você tem de sentir.
– Crer não é questão de raciocínio ou de argumentação. Você não tem como argumentar sobre Deus porque Deus está além de qualquer argumentação [...].
O motivo pelo qual isso é tão importante não é simplesmente porque gente que abraça a fé acabará tendo crenças mal-formadas. A razão não é apenas normativa no sentido mínimo de que há estruturas dentro das quais ela deve operar ou não será mais razão. Há também um componente ético na razão, porque as crenças de uma pessoa estão intimamente ligadas às suas ações [...].
Se a pessoa abre mão da razão na formação das suas crenças, ela abre mão do único acesso à verdade que temos. Os seres humanos não tem qualquer capacidade perceptual para discernir a verdade – do modo como somos, por exemplo, imediatamente capazes de discernir cor e forma. O mais perto que podemos chegar da verdade é justificando nossas crenças. A fé não é justificação, é a suspensão de todos os critérios de justificação. A fé declara que determinadas crenças – essas fundamentais, bem no centro da minha visão de mundo e que moldam o modo como eu vejo as coisas – não precisam ser de forma alguma justificadas.
Se as crenças de alguém não podem ser justificadas, e se as ações de uma pessoa são moldadas e justificadas pelas suas crenças, então algumas ações não podem ser justificadas.
Há um componente ético na razão.
Aqueles que vivem pela fé não são intelectualmente inferiores. Pode-se até dizer que requer-se um certo brilhantismo, ou pelo menos extraordinária flexibilidade mental, para entregar-se à ginástica mental que exige aplicar-se a razão à maior parte das áreas da vida e suspendê-la por completo em outras áreas. Não se trata portanto de questão de intelecto. E dizer que a fé é a falência da razão ou a abdicação da razão é apenas dar um nome a ela, não explicar o que há de errado com ela. Creio que algo mais forte pode ser dito.
A fé é uma falha moral. A abdicação da razão é a abdicação da justificação. Quando as pessoas deixam de tentar justificar as suas ações no mundo de forma racional – quando decidem agir, ao invés disso, pela fé – elas podem muito bem fazer qualquer coisa e chamar isso de correto e bom.
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Temor e fé



JOINCANTO
O Dr. Francis Schaeffer, no seu livro “A Morte da Razão”, diz que nenhum esforço humano moral ou religioso, humanista ou autônomo pode ajudar o homem para a salvação. Acredito contudo que a fé não é incompatível com a razão. Até porque a verdadeira razão está do lado de Deus.
Abraços.
Volney Faustini
E ae Brabo … que c acha de me dar uma canja no Kerigma on Line – fazendo um parangolê de alguns posts seus e dando um arremate em como vc lida com a pósmodernidade …
k tal …
abs
Ivan Volcov
A fé referida pela personagem de Dostoiéviski deve ter sido aquela que é expressa como temor pelo saber de um dia ter que prestar contas a Deus pelo que se faz e pelo que se deixa de fazer. Trata-se de uma crença correta, mas é uma definição incompleta do que seja a fé cristã.
Nós cristãos já experimentamos muitas definições do que seja fé. Em nossa história, de fé em fé, passamos por todo tipo de injustiça clerical e política, fomos de genocídios e escravidão a saques e confiscos, de pirataria e dominação a guerras e etnocídios. De fé em fé, graças ao progresso tecnológico e econômico, chegamos hoje a uma não menos cínica definição para fé. Hoje a fé pregada nas igrejas e motivo das mais fervorosas orações do fiéis é a fé do tudo possuir e do tudo consumir. Chegamos a esta maturidade da fé certos de que Deus não é alguém que se deva temer. Finalmente adquirimos a mais vil convicção de que a fé é o instrumento divino que temos para manipular Deus. Quando éramos crianças ingênuas, temíamos a Deus. Agora somos esclarecidos arrogantes, Deus nos serve.
Quem tinha a fé citada por Dostoiéviski, temia a Deus. Quem tem a fé que desenvolvemos serve-se Dele e, por que não, do próximo. Outros, que não tem fé alguma, vêem o próximo e sabem que ele não tem a quem recorrer não há Deus para socorrê-lo , por isso eles o acolhem, se irmanam com ele. Aqueles que hoje não têm fé, como aqueles da antiga fé dos tempos de Dostoiévski, temem: temem morrer sem ter deixado uma história digna, temem partir sem nunca terem sido amados, temem ser esquecidos, temem que a única vida que tem por fim tenha sido vã. Temem o vazio do seu fim inevitável e temem deixar para trás outra coisa que não seja o vazio. Temem, como não há céu nem inferno, que nunca tenha existido virtude alguma. Sabem que na morte não terão nada, nem a própria lembrança do bem que fizeram, por isso temem deixar a existência sem ter feito bem algum.
Restam a Deus, em nossos dias, para fazer a sua vontade, os ateus. Deixem as pedras terem o privilégio de fazer o bem e evitar o mal sem qualquer interesse por recompensas futuras, já que os cristãos estão muito ocupados com a segurança de sua ortodoxia de privilégios, presentes e futuros.
Você, ainda hoje, tem a fé da personagem de Dostoiévski? Por minha fé, eu lhe asseguro que um dia você não terá mais o que temer. Você outro tem a ambição de tudo ter e a pretensão de nada sofrer, e escolheu dar a isto o nome de fé? Viva o tempo que lhe resta, desfrute enquanto pode. Antes do que você pensa você receberá a sua justa recompensa e não terá mais nada a perder. Biblicamente falando – falo da minha fé -, a todos caberá receber o que não esperam, isto para alguns é graça, para outros será justiça.
Quanto aos ateus, aqueles que não se contentam com nossas definições de fé, ou com as imagens que pintamos de Deus, deixem-nos em paz. Deixem-nos fazer o bem sem esperar nada em troca. Deus faz o mesmo.