EMBORA EU NÃO TENHA DITO CLARAMENTE, há algo sobre o assunto que o leitor de O Código Da Vinci poderia ter facilmente diagnosticado: muito genericamente falando, as religiões circulares são femininas, as lineares masculinas.
Como eu ia dizendo, as religiões circulares definem-se pela sua reverência aos ciclos da natureza; celebram o circular, o cíclico, todos os aspectos da existência que oferecem a segurança de voltar sempre ao lugar de origem: o ciclo sem fim da abertura e da conclusão de O Rei Leão. E às mulheres cabem tipicamente os ciclos da reprodução, da menstruação, da produção de leite; o cuidar de filhos depois netos depois bisnetos.
As religiões lineares, em contraste, definem-se pela sua crença na singularidade do momento histórico; rejeitam a supremacia dos ciclos e enxergam a existência como um implacável avanço, fundamentado tanto na peculiaridade do passado quanto na segurança do futuro: é o povo de Israel recebendo no Sinai as tábuas da aliança, depois de ter escapado do Egito (passado) e rumando à Terra Prometida (futuro). E aos homens, como se sabe, pertencem tipicamente as guerras, os avanços amorosos e territoriais, as alianças, a retórica, a política.
Essa conclusão é talvez inevitável porque, vistos como arquétipos1 , as mulheres são tradicionalmente circulares e os homens lineares. Às mulheres pertencem o útero, a circular gravidez, a roda de fiar. Ao homem pertencem o pênis, a espada, a participação casual na fecundação.
Em conseqüência as religiões circulares, eminentemente femininas, tendem a ser matriarcais, enquanto que as lineares, eminentemente masculinas, tendem a ser patriarcais. As religiões circulares são sedentárias e caseiras, as lineares irriquietas e nômades. As circulares são místicas, as lineares teológicas. As circulares buscam a doce familiaridade da partilha©, as lineares o risco das regras exigentes do jogo©. As circulares acolhem os ciclos em seu ventre, as lineares penetram o futuro com a sua espada.

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1 Arquétipo. Literalmente, “padrão original”, “protótipo a partir do qual se fazem cópias”. Na psicologia de Jung, um arquétipo é uma “tipo genérico”, um carimbo universavelmente aplicável que resulta do amálgama de inúmeras experiências típicas da longa série de ancestrais que nos antecederam. São padrões de caráter universais originários do inconsciente coletivo e constituem o alicerce da mitologia, religião, lenda e contos de fadas. Segundo Jung, os mitos são a linguagem dos arquétipos, e por isso nos mitos se pode contemplar a história da humanidade com mais acerto do que na história acadêmica.
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julian
Strangely. I saw the thumbnail of the first picture and saw a woman with a large wolf puppet, not unlike the photo I just sent to you before visiting here. This will mean nothing to anyone else of course. And maybe it’s just I’m going a little mad.
Luiz que esqueceu de assinar
Estava lendo e comecei a pensar em diagrama da vida, da mulher circular e do homem linear. Muito interessante. Quero ler mais e pensar nisso. Obrigado Paulo.
Luiz Henrique Mello
Desculpe, esqueci de assinar. O anonimo ai sou eu, seu amigo pateta.