Uma das principais causas do caráter singularmente vulgar de quase toda literatura contemporânea é, indubitavelmente, a decadência da mentira, considerada como arte, como ciência e como prazer social. Os antigos historiadores nos apresentavam ficções deliciosas em forma de fatos; o romancista moderno nos apresenta fatos estúpidos à guisa de ficções.
As pessoas falam levianamente do “mentiroso nato”, da mesma maneira que do poeta nato. Mas em ambos os casos se equivocam. A mentira e a poesia são artes – artes que, como observou Platão, não deixam de ter relações mútuas e que requerem o estudo mais atento, o fervor mais desinteressado.
Mais de um rapaz estréia na vida com o dom natural do exagero, que, se alentado por um ambiente simpático e congenial, poderia chegar a ser algo de verdadeiramente grande e maravilhoso. Mas, em regra geral, não chega esse rapaz a nada, ou adquire costumes indolentes de exatidão ou se dedica a frequentar o trato de pessoas de idade e bem informadas. Duas coisas que são igualmente fatais para a sua imaginação (sê-lo-iam para qualquer um) e assim, dentro de muito pouco tempo, manifesta uma faculdade mórbida e malsã de dizer a verdade; começa a verificar todas as assertivas feitas em sua presença, não vacila em contradizer as pessoas que são muito mais moças do que ele e, com frequência, acaba escrevendo romances tão parecidos com a vida que ninguém acaba acreditando mais na sua probabilidade.
Oscar Wilde, citado por Alexandre Soares Silva





