Paulo Brabo, 21 de novembro de 2006

A criação de Adão

Estocado em Goiabas Roubadas

ADÃO: A criação de Adão

Quando final­mente o assen­ti­mento dos anjos foi dado à criação do homem, Deus disse a Gabriel:

– Vá e me traga poeira dos quatro cantos da terra. Criarei o homem a partir dela.

Gabriel foi cumprir a ordem do Senhor, mas a terra o repeliu, recusando-se a deixar que ele juntasse poeira dela. Gabriel repreendeu:

– Por quê, Terra, você não cede à voz do Senhor, que fundou-a sobre as águas sem recorrer a escoras ou pilares?

A terra respondeu:

– Estou destinada a ser amal­di­ço­ada, e amal­di­ço­ada por causa do homem1. Se o próprio Deus não vier tirar a poeira de mim, não será qualquer outro a fazê-lo.

Quando ouviu isso Deus estendeu sua mão, pegou poeira do chão e criou o primeiro homem a partir dela. Pro­po­si­tal­mente esse pó foi tirado dos quatro cantos da terra, para que se um homem do oriente morresse no ocidente, ou um homem do ocidente morresse no oriente, a terra não se recusasse a receber o morto, dizendo para que voltasse ao lugar de onde havia sido tirado. Quando acontece de um homem morrer, e no local em que é enterrado, ali retorna ele à terra da qual foi gerado. A poeira era além disso de várias cores: vermelha, negra, branca e verde – vermelha para o sangue, negra para as entranhas, branca para os ossos e veias e verde para a pele pálida.

Neste momento a Torá inter­fe­riu, dirigindo-se a Deus:

– Ó, Senhor do mundo! O mundo é teu, e podes fazer dele o que parecer bom a teus olhos. Porém o homem que estás agora criando será parco em dias e pleno de conflito e de pecado. Se não é teu propósito ter lon­ga­ni­mi­dade e paciência para com ele, melhor seria não chamá-lo á existência.

Deus respondeu:

– É por acaso que sou chamado de longânimo e mise­ri­cor­di­oso2?

A graça e a ternura de Deus revelaram-se de forma par­ti­cu­lar no fato dele ter retirado um punhado de poeira do lugar onde mais tarde se ergueria um altar, dizendo:

– Farei o homem a partir deste lugar de recon­ci­li­a­ção, para que ele possa perdurar.

Photo by Iain R
Escultura: Ron Mueck

1 Gênesis 3:17

2 Êxodo 34:5,6

Lendas dos Judeus é uma com­pi­la­ção de lendas judaicas reco­lhi­das das fontes originais do midrash (par­ti­cu­lar­mente o Talmude) pelo tal­mu­dista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. Meu livro mais recente, que você deve desejar comprar, é As divinas gerações. Esta é a Bacia das Almas, mas hoje em dia escrevo antes de tudo na Forja Universal.


 

Paulo Brabo Goiabas Roubadas ,

ADÃO: A criação de Adão

Quando final­mente o assen­ti­mento dos anjos foi dado à criação do homem, Deus disse a Gabriel:

– Vá e me traga poeira dos quatro cantos da terra. Criarei o homem a partir dela.

Gabriel foi cumprir a ordem do Senhor, mas a terra o repeliu, recusando-se a deixar que ele juntasse poeira dela. Gabriel repreendeu:

– Por quê, Terra, você não cede à voz do Senhor, que fundou-a sobre as águas sem recorrer a escoras ou pilares?

A terra respondeu:

– Estou destinada a ser amal­di­ço­ada, e amal­di­ço­ada por causa do homem1. Se o próprio Deus não vier tirar a poeira de mim, não será qualquer outro a fazê-lo.

Quando ouviu isso Deus estendeu sua mão, pegou poeira do chão e criou o primeiro homem a partir dela. Pro­po­si­tal­mente esse pó foi tirado dos quatro cantos da terra, para que se um homem do oriente morresse no ocidente, ou um homem do ocidente morresse no oriente, a terra não se recusasse a receber o morto, dizendo para que voltasse ao lugar de onde havia sido tirado. Quando acontece de um homem morrer, e no local em que é enterrado, ali retorna ele à terra da qual foi gerado. A poeira era além disso de várias cores: vermelha, negra, branca e verde – vermelha para o sangue, negra para as entranhas, branca para os ossos e veias e verde para a pele pálida.

Neste momento a Torá inter­fe­riu, dirigindo-se a Deus:

– Ó, Senhor do mundo! O mundo é teu, e podes fazer dele o que parecer bom a teus olhos. Porém o homem que estás agora criando será parco em dias e pleno de conflito e de pecado. Se não é teu propósito ter lon­ga­ni­mi­dade e paciência para com ele, melhor seria não chamá-lo á existência.

Deus respondeu:

– É por acaso que sou chamado de longânimo e mise­ri­cor­di­oso2?

A graça e a ternura de Deus revelaram-se de forma par­ti­cu­lar no fato dele ter retirado um punhado de poeira do lugar onde mais tarde se ergueria um altar, dizendo:

– Farei o homem a partir deste lugar de recon­ci­li­a­ção, para que ele possa perdurar.

Photo by Iain R
Escultura: Ron Mueck

1 Gênesis 3:17

2 Êxodo 34:5,6

Lendas dos Judeus é uma com­pi­la­ção de lendas judaicas reco­lhi­das das fontes originais do midrash (par­ti­cu­lar­mente o Talmude) pelo tal­mu­dista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

Paulo Brabo @saobrabo

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