– Num berço de palhas dormia Jesus – canta a voz insegura do garotinho de três anos, capturada na velha fita cassete.
A minha voz.
Em comum com os romanos e bárbaros, posso ter também adotado o cristianismo cedo demais. Versões disneyficadas da vida de Jesus foram impressas em mim muito antes que eu pudesse conceber Jesus como o homem completo e complexo que espreita nas páginas do Novo Testamento.
Em retrospecto, eu estava pronto para admitir Jesus como Deus muito antes de ser capaz de reconhecê-lo como pessoa notável, divulgador de idéias incomuns, proponente de improvável estilo de vida. Pensar em Jesus como Deus logo cedo foi, para mim, parte fundamental estratégia de anular qualquer coisa que ele tivesse dito, feito e exigido.
Afinal de contas o sujeito era Deus; maior contraste entre ele e os homens não poderia haver. Nada que dizia respeito a ele poderia vir jamais a dizer respeito a mim. Aceitando Jesus como Deus eu havia, paradoxalmente, sido imunizado contra suas palavras e suas idéias e sua vida e seu exemplo – contra a sua pessoa.
A divindade de Jesus permanecia, no entanto, coisa ligada à religião que eu professava, e não a qualquer convicção pessoal. Era a “crença correta”, requisito para que eu me mantivesse sensatamente ligado à religião dos meus pais sem causar maiores problemas a eles e a mim.
Quando encontrei-me finalmente, depois de evitá-lo por muitos anos e de todas as formas, aos pés do Jesus homem; quando senti-me definitivamente esmagado pela singularidade do seu pensamento, de suas demandas e sua conduta; quando vi-me diante do personagem complexo e inclassificável, do caráter puro, espertíssimo e irascível, do homem inteiramente terno, intransigente, flexível e irrefreável; somente então a possibilidade daquele sujeito ser realmente Deus cruzou minha mente e meu coração.
Descobri que não havia ninguém que eu admirasse mais do que o louco crucificado, e pela primeira vez sua vida pesava para mim tanto quanto sua morte.
Somente alguém que ousou ser e provar-se tão formidavelmente homem tinha cacife – intuí num momento vertiginoso – para afirmar-se Deus.
* * *
A despeito dessa nova paixão pelo esquivo Jesus que viveu, morreu e – se tudo der certo – ressuscitou há dois mil anos, o mecanismo de racionalização é tão forte dentro de mim quanto jamais foi. Mais do que nunca, na verdade, sinto agora que preciso me proteger da terrível influência gravitacional do sujeito que me dispus a seguir – caso contrário, eu sei, ele vai exigir tudo de mim.
Eu sei como Jesus pensa.
Se ele permanecer exigindo tudo de mim existe a chance, embora remota, de eu me tornar a sombra do homem que ele foi. Ele sabe que essa é na verdade a minha única chance, mas nós dois sabemos que eu farei tudo para evitá-la.
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- Verificaram o assoalho, embaixo dos tapetes?
- Sem dúvida. Tiramos todos os tapetes e examinamos as tábuas do assoalho com o microscópio.
- E o papel das paredes?
- Também.
- Deram uma busca no porão?
- Demos.
- Então – disse eu – os senhores se enganaram, pois a carta não está na casa, como o senhor supõe.
- Temo que o senhor tenha razão quanto a isso – concordou o delegado. – E agora, Dupin, o que é que aconselharia fazer?
- Uma nova e completa investigação no edifício.
- Isso é inteiramente inútil. Não estou tão certo de que respiro como de que a carta não está no hotel.
- Não tenho melhor conselho para dar-lhe – disse Dupin.
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A racionalização é o nosso meio de permanecer a salvo da verdade, e sua ferramenta mais engenhosa é a familiaridade.
Jesus, que era malandro o bastante para saber o quanto somos malandros, deixou patente não ignorar a existência desses mecanismos. Ele alertou mais de uma vez que, patifes como somos, faríamos qualquer coisa para evitar o confronto com a verdade – até mesmo nos habituarmos irremediavelmente a ela.
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Por cinco vezes, no quinto capítulo do evangelho de Mateus, o rabi de Nazaré recorre à mesma estrutura de argumentação, que começa com “Vocês ouviram o que foi dito…” e é completada com “eu porém digo a vocês…”
Vocês ouviram o que foi dito aos antigos: não cometa homicídio, e qualquer um que comete assassinato está sujeito a julgamento. Eu porém digo a vocês que qualquer pessoa que sem razão ficar com raiva do seu semelhante está sujeita a julgamento. Qualquer um que disser ao seu semelhante: raca/seu inútil, está sujeito ao supremo tribunal. Qualquer um que disser: seu louco, está sujeito ao fogo do inferno (vv.21,22).
Vocês ouviram o que foi dito aos antigos: não cometa adultério. Eu porém digo a vocês que qualquer homem que olha para uma mulher com o fim de desejá-la já adulterou com ela no seu íntimo (vv.27,28).
O leitor pode muito bem ficar com a impressão que Jesus está contrastando um ensino ultrapassado e anterior (“vocês ouviram o que foi dito”) com a sua nova e mais esclarecida doutrina (“mas eu digo a vocês”).
Ele, porém, era mais sutil do que isso.
Jesus está, entre outras coisas e à sua maneira codificada, denunciando e expondo a nossa tendência de reduzir um delicado desafio moral a uma fórmula simplória que nos permita contornar a complexidade do problema.
Você pensa que está seguro se não cair no adultério nu e cru; crê que está a salvo se resistir bravamente à tentação de abrir com um machado a cabeça de quem o incomoda. Jesus exige que você pense duas vezes. O rabi não está, e havia acabado de enfatizar isso, substituindo um mandamento por outro, supostamente mais requintado e melhor formulado.
Não pensem que eu vim invalidar a Lei ou os Profetas. Eu não vim desfazê-los, vim levá-los ao seu cumprimento completo. É como eu estou dizendo: até que o céu e a terra desapareçam, nem a menor letra ou vírgula serão tirados da Lei, sem que tudo aconteça (vv.17,18).
Jesus não tem qualquer pretensão de promulgar uma nova lei. Ao contrário; ele está argumentando furiosamente que, quando o reduzimos a uma fórmula com a qual sentimos que podemos conviver, demonstramos que não entendemos o mandamento na primeira vez.
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A preocupação em denunciar o nosso viciado apego a sistemas e fórmulas aparece constantemente no ministério de Jesus. O Filho do Homem gasta grande parte do horário nobre dos evangelhos escrutinando e questionando nossa propensão a racionalizar os mandamentos de modo a não sermos afetados por eles.
Vocês são muito hábeis em rejeitar o mandamento de Deus para obedecer a sua tradição (Marcos 7:9).
Vocês dão a décima parte até da hortelã, do endro e do cominho, mas deixam de lado o mais importante da Lei, como a justiça, o altruísmo e a fidelidade (Mateus 23:23).
Impostores! Vocês limpam a parte de fora dos copos e dos pratos, mas por dentro estão cheios de cobiças e desmandos! Fariseu cego! Limpe primeiro a parte de dentro do copo e do prato, e a parte de fora ficará limpa! (Mateus 23:25,26).
No ardor de suas denúncias Jesus ecoava a pregação dos profetas que, gerações antes, mostravam-se já enojados com a obsessão religiosa de Israel e pediam uma purificação interior:
Agradar-se-á o Senhor de milhares de carneiros, de dez mil ribeiros de óleo? Deverei oferecer o meu filho mais velho pela minha transgressão, o fruto do meu corpo pelo pecado da minha alma? Ele já lhe deixou claro, homem, o que é bom e o que o Senhor requer de você: que pratique a integridade, ame a misericórdia e conduza-se humildemente com o seu Deus (Miquéias:6:7,8).
São lições terríveis em suas implicações: a religiosidade pode embriagar ao ponto da cegueira completa; podemos nos habituar a uma noção virtuosa sem nos deixarmos transformar por ela; o mandamento não interiorizado não apenas não nos ajuda: ele nos engana e nos mata.
Para desalento dos que o ouviam, Jesus voltava vez após outra ao seu tema: esconder a Palavra no coração não é sabê-la de cor. Não é nem ao menos estar familiarizado com ela.
Deus quer homens, não robôs.
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Não é de admirar que os primeiros ouvintes de Jesus se sentissem tentados a racionalizar o que estavam ouvindo de modo a não serem afetados por aquilo. Não é de admirar que queiramos fazer o mesmo.
A alternativa era impensável. Se a religiosidade não oferece garantias; se para entrarmos no reino do céu nossa integridade pessoal deve ultrapassar a dos mais escancarados carolas; se obedecer religiosamente os mandamentos não basta; se a nossa obsessão em perseguir os sistemas mais sensatos e estabelecidos de religião pode representar a nossa destruição – que perspectiva resta a um homem de Deus?
Nossa única chance, Jesus se esforçava para nos acordar, é abraçar a alternativa.
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O paradoxo que sobrevive há dois mil anos é que a porção mais revolucionária da mensagem de Jesus permanece ignorada, intocada até, por aqueles de nós que afirmamos sermos seus seguidores. Na experiência cristã histórica esta porção essencial da boa nova jaz escondida entre sucessivas camadas de boas intenções e de respeitável procedimento religioso.
O paradoxal é que essa mensagem oculta diz respeito justamente às armadilhas das boas intenções e do respeitável procedimento religioso.
Ela pede que abramos mão dos dois.
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- Há um jogo de enigmas – replicou ele – que se faz sobre um mapa. Um dos jogadores pede ao outro que encontre determinada palavra, um nome de cidade, rio, estado ou império, qualquer palavra, em suma, compreendida na extensão variegada e intrincada do mapa. Um novato no jogo geralmente procura embaraçar seus adversários indicando nomes impressos com as letras menores; mas os acostumados ao jogo escolhem palavras que se estendem, em caracteres grandes, de um lado a outro do mapa. Estes últimos, como acontece com os cartazes excessivamente grandes encontrados nas ruas, escapam à observação justamente por serem demasiado evidentes, e aqui o esquecimento material é precisamente análogo à desatenção moral que faz com que o intelecto deixe passar despercebidas considerações demasiado palpáveis, demasiado patentes.
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Como se esconde uma cidade edificada sobre um monte?
No conto A Carta Roubada, de Edgar Allan Poe, uma equipe de investigadores da polícia revista exaustivamente, em duas ocasiões diferentes, os aposentos de determinado ministro em busca de um documento importante que ele havia furtado – e, apesar de sua atenção aos detalhes, fracassam em encontrá-lo. Isso porque o ladrão, para ocultar a carta, deixou-a inteiramente à vista – repousando inocentemente sobre a escrivaninha, onde qualquer um poderia tê-la encontrado.
É, evidentemente, a nossa história: por estar tão diante dos seus olhos, os responsáveis por salvaguardar a mensagem deixam de atentar para ela. É a minha história: depois de passar a vida buscando uma revelação adicional, descubro que ela não é necessária.
É por isso que afirmei e reafirmo que meu raciocínio não traz nenhuma revelação importante. A carta está sobre a mesa. Qualquer um pode abrir, ler e entender.
A revelação está no que quero pedir que você esqueça.
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A verdade poderá nos libertar, se formos capazes de garimpá-la de toneladas de ruído e desinformação. Como Paulo ousou fazer, será preciso considerar todo acessório como esterco, do contrário não estaremos fazendo justiça ao brilho da pérola. Não seremos, na verdade, capazes de enxergar o seu brilho. É preciso ver todo o resto como esterco, do contrário não teremos coragem de jogá-lo fora.
E quando tudo for jogado fora, o que restar não é pouco. É, naturalmente, infinitamente mais do que foi para o lixo.
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- Sim, realmente; mas por outro lado, não é nem uma coisa nem outra. O fato é que todos nós ficamos muito intrigados, pois embora tão simples, o caso escapa inteiramente à nossa compreensão.
- Talvez seja a própria simplicidade do caso que os desorienta – disse meu amigo.
- Ora que tolice – exclamou o delegado, rindo cordialmente.
- Talvez o mistério seja um pouco simples demais.
- Oh, Deus do céu! Quem já ouviu tal coisa?
- Um pouco evidente demais.
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Apesar de todo o drama e da nossa hesitação histórica em abraçá-la, a mensagem oculta do Reino não tem nada de terrível.
Pode ser até chamada com justiça de boa nova.
A carta roubada
- A carta roubada
- A carta roubada, 2




