ADÃO: A alma do homem
O cuidado com que Deus moldou cada detalhe do corpo do homem nada é em comparação com sua solicitude na criação da alma humana. A alma do homem foi criada no primeiro dia, pois é o espírito de Deus movendo-se sobre a face das águas. Assim, ao invés de ser o último, o homem é na verdade a primeira obra da criação.
O espírito, ou, para chamá-lo pelo seu nome usual, a alma do homem, possui cinco poderes diferentes. Através de um deles ela escapa do corpo todas as noites, sobe até o céu e ali busca nova vida para o homem.
A alma do homem foi criada no primeiro dia, pois é o espírito de Deus movendo-se sobre a face das águas.
Com a alma de Adão foram criadas as almas de todas gerações de homens. Estão elas armazenadas num prontuário no sétimo dos céus, de onde são retiradas à medida em que são necessárias para cada corpo humano.
A alma e o corpo do homem são unidas da seguinte forma: quando uma mulher concebe, o Anjo da Noite, Lailah, carrega o esperma até a presença de Deus, e Deus decreta que sorte de ser humano sairá dali – se será homem ou mulher, forte ou fraco, rico ou pobre, bonito ou feio, alto ou baixo, magro ou gordo, e quais serão todas as suas outras qualidades. Apenas a piedade e a impiedade são deixadas sob a determinação do próprio homem. Deus estão faz um sinal para o anjo responsável pelas almas e diz:
– Traga-me aquela alma assim-e-assim, que está escondida no Paraíso, cujo nome é assim-e-assim, e cuja forma é assim-e-assim.
O anjo traz a alma designada, que faz uma reverência quando entra na presença de Deus, e prostra-se diante dele. Naquele momento Deus dá a ordem:
– Entre nesse esperma.
A alma abre sua boca e implora:
– Ah, Senhor do mundo, estou muito satisfeita com o mundo em que tenho vivido desde o dia em que me chamaste à existência. Por que desejas agora que eu entre nesse esperma impuro, eu que sou santa e pura, e parte da tua glória?
Deus a consola:
– O mundo em que farei você entrar é melhor do que o mundo em que você tem vivido; quando criei você, foi apenas com esse propósito.
A alma é então forçada a entrar contra à vontade no esperma, e o anjo carrega-a de volta para o útero da mãe. Dois anjos são especificados para cuidarem que a alma não saia dele, nem caia fora dele, e uma luz é colocada acima dela, através da qual a alma pode ver de uma extremidade à outra do mundo.
De manhã um anjo a carrega ao Paraíso e mostra a ela os justos, ali assentados em sua glória, com coroas sobre suas cabeças. O anjo então diz à alma:
– Sabe quem são esses?
Ela responde que não, e o anjo prossegue:
– Esses que você contempla foram formados, como você, no útero da mãe deles. Quando entraram no mundo esses guardaram a Torá de Deus e seus mandamentos, e foram por isso tornados participantes da bem-aventurança de que você os vê agora desfrutar. Saiba que você irá também um dia deixar o mundo lá embaixo, e que se guardar a Torá de Deus será achada digna de sentar-se com esses piedosos. Se não, estará condenada ao outro lugar.
De noite o anjo leva a alma ao inferno, e mostra os pecadores a quem os Anjos da Destruição estão castigando com açoites de fogo. Os pecadores estão todos bradando: “Ai de nós! Ai de nós!”, mas nenhuma misericórdia é concedida a eles. O anjo pergunta como antes:
– Sabe quem são esses?
Como antes a resposta é negativa, e o anjo continua:
– Esses que são consumidos pelo fogo foram criados como você. Quando colocados no mundo eles não guardaram a Torá de Deus e seus mandamentos, e vieram por isso para esta desgraça que você os vê sofrer. Saiba que seu destino também é deixar o mundo. Seja justa, portanto, e não perversa, para que possa ganhar o mundo futuro.
Do mesmo modo que foi formada contra a vontade, você agora nascerá contra a vontade.
Entre a manhã e a noite o anjo carrega a alma de um lugar a outro, mostrando onde ela vai viver e onde vai morrer, o lugar em que será enterrada, e leva-a pelo mundo todo, apontando os justos e os pecadores e todas as coisas. De noite ele a recoloca no útero da mãe, onde ela permanece por nove meses.
Quando chega a hora de emergir do útero para o mundo, o mesmo anjo dirige-se à alma:
– Chegou a hora de você sair para o mundo.
A alma objeta:
– Por que você me quer fazer sair para o mundo?
O anjo responde:
– Saiba que, do mesmo modo que foi formada contra a vontade, você agora nascerá contra a vontade, e contra a vontade morrerá, e contra a vontade prestará contas diante do Rei dos reis, o Santo, bendito seja ele.
A alma está ainda relutante em deixar o seu lugar. O anjo faz um carinho com os dedos nos lábios do nenê, apaga a luz à sua cabeça e a traz para o mundo contra a vontade. Imediatamente a criança esquece tudo que sua alma viu e aprendeu, e vem ao mundo chorando, por ter perdido um lugar de refúgio e segurança e descanso.
Quando chega a hora do homem deixar este mundo o mesmo anjo aparece e pergunta:
– Você me reconhece?
O homem responde:
– Sim, mas por que você veio até mim hoje, e não outro dia?
O anjo diz:
– Para tirá-lo deste mundo, pois a hora da partida chegou.
O homem cai no choro, e sua voz alcança as extremidades do mundo, porém nenhuma criatura ouve a sua voz, com exceção do galo. O homem protesta:
– De dois mundos você me tirou, e para este mundo você me trouxe.
Mas o anjo lembra:
– Eu não lhe disse que você foi formado contra a vontade, nasceu contra a vontade e contra a vontade morreria? Agora, contra a vontade, você terá de prestar contas de si mesmo diante do Santo, bendito seja ele.

Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.
Este documento faz parte da série
Lendas dos judeus
- As primeiras coisas criadas
- O alfabeto
- O primeiro dia
- O segundo dia
- O terceiro dia
- O quarto dia
- O quinto dia
- O sexto dia
- O sexto dia, continuação
- Todas as coisas louvam ao Senhor
- O homem e o mundo
- Os anjos e a criação do homem
- A criação de Adão
- A alma do homem
- O homem ideal
- A queda de Satanás
- A mulher
- Adão e Eva no Paraíso
- A queda do homem
- A punição
- O sábado no céu
- O arrependimento de Adão
- O livro de Raziel
- A doença de Adão
- Eva narra a história da queda
- A morte de Adão
- A morte de Eva
- O nascimento de Caim
- Fratricídio
- A punição de Caim
- Os habitantes das sete terras
- Os descendentes de Caim
- Os descendentes de Adão e Lilith
- Sete e seus descendentes
- Enos
- A queda dos anjos
- Enoque, governante e mestre
- A ascensão de Enoque
- O traslado de Enoque
- Matusalém
- O nascimento de Noé
- A punição dos anjos caídos

Lou Mello
Eu sempre desconfiei de ter uma ascendência judaica. Como eles podem me descrever sem nunca ter me conhecido?
hernan
Que heresia deliciosa!
Interessa-me saber quando foram originalmente escritas as lendas, se antes ou depois de Cristo etc.
Paulo Brabo
Ainda tenho de traduzir a introdução que o próprio Ginnzberg fez para a sua obra, mas posso adiantar que Lendas é essencialmente uma compilação parafraseada da Aggadah – a porção não legal do Talmude que contém ditados, folclore, homilias, narrativas e parábolas.
Ginzberg parece ter usado também material de outras fontes de literatura rabínica, incluindo textos apócrifos, pseudo-apócrifos e até mesmo literatura cristã primitiva. A maior parte das lendas foi compilada por escrito no Talmude em períodos posteriores a Cristo, mas uma boa porção dessas tradições deve precedê-lo.
Especialmente curioso, como ainda pretendo comentar, é que a maior parte dessas histórias não consiste estritamente falando de lendas, mas de midrash: interpretações muito livres – e com um método muito peculiar – de textos da Bíblia Hebraica. Lembre-me de falar sobre essa tradição e seu curioso método outro dia.