Para Joseph Campbell, que foi encontrado embriagado e satisfeito e nu na adega de Jung, a função essencial de todas as mitologias é mística: reconciliar a consciência individual – eu, talvez você – com o universo que a antecede e talvez prescinda dela.
Como reconciliar a alma com a vertigem que é o mundo? De que forma aplacar o trauma que é ser filho do universo, sendo que nosso imponderável pai ao mesmo tempo nos protege e ignora? Como conciliar a experiência individual com o mistério da realidade que nos gera e sobrevive à nós?
As mitologias mais antigas promovem essa reconciliação da forma mais crua (e talvez mais sincera): esses ritos circulares afirmam – dizem sim – ao mistério do universo em ritos que copiam e celebram o caráter selvagem, implacável e fortuito da realidade. São religiões que celebram sacrifícios sangrentos, por vezes vezes humanos, diante dos olhos horrorizados de uma comunidade inteira, pedindo que você diga sim – não à injustiça ou à morte, mas à irredutível complexidade da experiência humana. “Se você não é capaz de afirmar [a desconcertante experiência do ritual]”, lembra Campbell, “não é capaz de afirmar a vida, porque a vida é exatamente isso”. Essas mitologias não fingem saber como o incessante universo funciona, mas celebram seu doloroso mistério de forma incessante.
Outras religiões, mais idealistas, contornaram essa crueza apelando para a estratégia oposta: ao invés de afirmarem o mistério do universo, elas negam que o universo seja que parece ser. Algumas manifestações do budismo, por exemplo, negam enfaticamente que a realidade corresponda à realidade; tudo é ilusão, e feliz de quem é capaz de viver à parte das exigências mentirosas desse universo ilusório.
As religiões lineares, por sua vez, adicionam um elemento ainda mais ambicioso e idealista à fórmula. Por um lado, elas recusam-se a afirmar, com as religiões circulares, o caráter arbitrário e inapreensível do universo. O judaísmo, o zoroastrismo, o cristianismo e o islamismo negam enfaticamente que o universo tenha sido sempre o cego leviatã que experimentamos hoje. Suas mitologias e seu vocabulário afirmam que o universo era originalmente justo, acolhedor e bom, e que a presente condição é resultado de uma intervenção infeliz (e talvez não planejada) de um elemento indesejado. A violência e a tragédia não são o fluxo natural das coisas: são o conflito no enredo gerado por um antagonista que, se tudo der certo, acabará desaparecendo.
Nesse otimismo pueril reside a singularidade dessa abordagem. As religiões históricas não apenas recusam-se a afirmar a natureza violenta do universo; elas pregam que cabe ao homem participar, através da conduta individual, do processo de restauração da ordem original. O destino de cada homem é o de salvador do mundo: somos nossa própria equipe de resgate.
Afirmação, negação e reparação – para Campbell, importa menos o mecanismo particular da mitologia do que sua função mística: possibilitar ao homem reconciliar-se com (come to terms with) a vertiginosa realidade que o engole e mata. Quer seja afirmando, negando ou buscando reparar a natureza terrível do universo, o homem encontra seu lugar e sua paz.
Durante milênios as estratégias de negação e reparação foram consideradas, quase que universalmente, mais sofisticadas do que a alternativa. Porém na transição do século XIX para o XX, com o trágico passamento de Deus e a invasão da Ásia pela religião capitalista materialista, a espiritualidade idealista acabou perdendo o trono de sua longa primazia.
O renovado interesse contemporâneo nas antiqüíssimas religiões circulares e nas manifestações da Deusa pode ser traçado diretamente à morte dessa espiritualidade idealista, que julgava saber sem qualquer traço de dúvida como o universo funciona. Os ritos circulares celebram os ciclos e portanto o mistério; afirmam o mistério e a vertigem do universo, ao invés de negá-los.
Temos hoje em dia, naturalmente, uma infinidade de mitologias seculares – manifestas em todas as formas de arte – que, em comum com os ritos circulares, recorrem todas à afirmação do mistério implacável e avassalador do universo. Não ocorreria a ninguém, em dias esclarecidos como os nossos, a ingenuidade de negá-lo ou a pretensão de repará-lo.
Este documento faz parte da série
Os ritos circulares
- Os ritos circulares
- A espada e a roda de fiar
- O divisor de águas
- O credo narrativo dos judeus
- 3 maneiras de reconciliar-se com o universo



rubens osorio
O que me incomoda é a última frase ”…em dias esclarecidos como os nossos…”. Quem disse que somos esclarecidos? Quem pode ter a pretensão (ou ingenuidade) de dizer que hoje somos mais esclarecidos que há cem, mil, 5 mil anos?
hernan
Até ou especialmente a Física reconhece o Mistério. É a Ciência dobrando-se ao inexplicável, nem que seja apenas por hora.
Yancey, citando Einstein, disse que este apenas gostaria de saber uma coisa: se o Universo é um lugar amistoso.