Manuscritos estocados em Novembro do Anno 2006 de Nosso Senhor
18 de Novembro de 2006

O desenraizamento dos santos

Fé e Crença

Para ser profeta é preciso ser santo, e os santos verdadeiros são um terrível embaraço, fastio e enfado. A singularidade da sua postura não tem, por um lado, como não ser interpretada como presunção; por outro, não tem como não ser presunção. Sua lucidez, que poderia talvez fazer bem a seres consistentes como anjos ou demônios, é veneno mortal para quem a tem e para os que são a contragosto submetidos a ela. Não fomos feitos para vislumbrar a verdade; quanto mais sermos expostos diretamente a ela; quanto mais em nós mesmos. Deus nos livre da santidade: a verdade é um espelho que mata.

A fim de escapar de ser destruído pela presunção inerente à sua condição – aquilo que Paulo chama de “excelência das suas revelações” – o santo sente intuitivamente que os caminhos legítimos que lhe restam são a anulação e a autodepreciação ou o hermetismo. Ser digno da lucidez de Deus requerá constante patrulhamento interior, a fim de adiar a morte que essa lucidez exige e pressupõe. Deus oferece aos verdadeiros santos dois destinos, não ser nada ou não ser compreendido. Se tudo der certo, caberá ao santo o esquecimento; se der errado, a fama e a simultânea incompreensão. De uma maneira ou de outra o santo experimenta antecipadamente a aniquilação da frustração, e é nesse sentido indistinguível de Deus.

O verdadeiro santo é o que floresce em incessante agonia: gente miserável como Nietzsche, como Kierkegaard, como Fernando Pessoa, como Tolstói. Os méritos de santos radiantes, vitoriosos e incontornáveis, como Chesterton, são imediatamente cancelados em seu bom-mocismo e proselitismo.

“É necessário desenraizar-se”.

Simone Weil (1909-1943) foi uma mulher insuportável, idealista, ativista, engajada, asceta, iluminada e francesa. E também uma santa. Para escândalo dos pais abastados, recusou-se aos cinco anos a comer açúcar, porque ouviu que os soldados no front estavam privados dele. Pela mesma razão abandonou a carreira confortável de professora e foi trabalhar durante a Depressão entre gente operária numa fábrica da Renault, recusando-se a comer mais do que a ração dos proletários e participando ativamente de todos os piquetes e greves com que acenavam as lutas de classe. Problemas de saúde obrigaram-na a deixar a fábrica, mas ele aproveitou a deixa para juntar-se à causa dos radicais republicanos na sangrenta Guerra Civil da Espanha, jurando ao mesmo tempo jamais usar a arma que lhe colocariam nas mãos.

Simone Weil entregou-se quase que casualmente ao cristianismo, através de uma antiquada experiência mística – no momento em que, atormentada por uma implacável enxaqueca e recitando um poema de George Herbert, ouvia um canto gregoriano na Abadia de Solesmes.

Weil havia experimentado a “união mística”, e jamais abandonaria depois disso o abraço de Jesus. Porém, santa como era (e certamente por essa razão), recusou até o fim todas as facilidades e respostas fáceis providas pelo cristianismo institucional. Simone Weil, que amava contradições e paradoxos e os mitos de todas as culturas, permaneceria até o fim uma santa secular.

Mais até mesmo do que Dietrich Bonhoeffer, Weil parece ter compreendido o tremendo distanciamento e alienação que uma era pós-religiosa exigiria de um louco que ousasse neste mundo louco perseguir a loucura de seguir Jesus. O novo santo, propuseram Weil e Bonhoeffer em vidas e vocabulários distintos, teria abrir mão do conforto de todos os rótulos, até mesmo do que lhe seria mais caro, o do próprio cristianismo.

Em seu prefácio a Waiting for God, Leslie A. Fiedler explica assim essa terrível posição:

Associar-se ao contexto de uma religião particular, sentia ela, teria por um lado exposto Weil ao que ela chamava de “patriotismo eclesiástico”, com a conseqüente cegueira para as falhas do seu próprio grupo e as virtudes dos outros; por outro, teria separado Weil da condição dos seres comuns aqui embaixo, que permanecemos todos “alienados, sem raízes, em exílio”. O mais terrível dos crimes é colaborar com o desenraizamento de outras pessoas num mundo já por si mesmo alienado; porém a maior das virtudes é desenraizar-se por amor ao próximo e a Deus. “É necessário desenraizar-se,” escreve Weil. “Corte a árvore, faça dela uma cruz e carregue-a para sempre”.

* * *

Nietzsche dizia que os cristãos de hoje, depois de dois mil anos de conforto, haviam se tornado incapazes de apreender o tremendo paradoxo que tinha sido, nos primeiros séculos da nossa era, conceber algo como “Deus na cruz” (talvez tenha sido por compaixão a essa gente que Nietzsche recriou o paradoxo com o seu conhecido “Deus morreu” – e ele acrescenta, desnecessariamente, com uma devoção de beata: “nós o matamos”).

Ler Simone Weil é deparar-se com os paradoxos do cristianismo em linguagem horrivelmente lúcida, sem maneirismos e sem disfarces. Nietzsche fingia crer que a moral cristã é impensável; Weil corrige essa generosidade, e esclarece que tudo no cristianismo é rigorosamente impensável e terrível e vertiginoso e paradoxal.

“Precisávamos da Encarnação para impedir que essa superioridade se tornasse um escândalo”.

Um único exemplo deverá por enquanto bastar para emblemar o que quero dizer. Weil anota: “O sofrimento é superioridade do homem em relação Deus. Precisávamos da Encarnação para impedir que essa superioridade se tornasse um escândalo”.

O sofrimento é superioridade do homem em relação a Deus.

Weil cria (com os místicos medievais judeus, que talvez nunca tenha lido) que para dar espaço para o universo que tencionava criar Deus se recolhera, se diminuíra, retirara-se do universo para que o universo pudesse existir. As implicações dessa iniciativa eram, como em tudo que Deus coloca a mão, terríveis e impensáveis. Os paradoxos! Se Deus se recolheu, a soma de Deus mais o universo mais todas as suas criaturas é ainda menor do que Deus. Se o sofrimento é superioridade do homem em relação a Deus, somos deuses a quem Deus concedeu (paradoxalmente) um privilégio que ele mesmo nunca conheceu – ou não conhecera em plenitude – antes de Jesus. Semelhantemente, ele nos convida a que sejamos pequenos deuses que o imitem naquilo que ele, Deus, recusou-se a fazer: apegar-se à superioridade da sua condição.

Mais do que isso: apenas a renúncia, o altruísmo, a abstenção, são neste mundo atos verdadeiramente criativos – em que espelham o retraimento, o desenraizamento criativo de Deus. Nossa obsessão com a auto-afirmação, justamente ao contrário do que parecia sugerir Nietzsche, é que é essencialmente redundante e niilista.

* * *

Meu amigo Ricardo Gondim, depois de me consultar sobre que autor me interessava e eu não tinha ainda lido, mandou-me três livros de Weil de presente. Simone Weil, que teve poucos amigos, anotou certa vez no seu diário: “nunca busque a amizade… nunca se permita sequer sonhar com a amizade… a amizade é um milagre!”

Eu, que tenho sido constantemente interrompido, embriagado, inteiramente nocauteado e pejado pela bem-aventurança da amizade, não encontro o que dizer para contrariá-la.

Leia também:
QUARTO PASSO: Viva inteiramente inserido no seu mundo

18 de Novembro de 2006

O dia em que faremos contato

Fé e Crença

É, casualmente, hoje.

“A data do encontro é amanhã, sábado, dia 18 de novembro. O horário é 17h30 (horário de Brasília).”

“O primeiro contato ufológico dos seres terráqueos que estão isolados da convivência com as demais civilizações cósmicas há tanto tempo, ocorrerá entre os meses de novembro de 2006 até o mês de abril de 2007.”

“Há apenas 10 minutos (17/11/06 – 11:15h MS) me ligou novamente o Rogério de Almeida Freitas, o Jan Val Ellam, para me dar aquele restante 0,1% de certeza que ficou devendo. Ele disse claramente que hoje ele já tem a confirmação de que o fato ocorrerá amanhã, às 17h30 (hora de Brasília).”

“O que está pra ocorrer depende exclusivamente da insistência amorosa do Mestre Jesus em amar as suas ovelhas terráqueas e como ele prometeu, ele aqui voltará e a sua volta é financiada pelo seu próprio amor, pela sua própria insistência amorosa com todos nós.”

As profecias de Jan Val Ellam (Rogério de Almeida Freitas)
http://atlancampogrande.blogspot.com

Lembre que você leu primeiro na Bacia.

Esta postagem se autodestruirá às 17h30, horário de Brasília, porque quando tivermos feito contato elas não serão mais necessárias (as três: a Bacia, a postagem e, especialmente, Brasília).

17 de Novembro de 2006

O coelho do mal e o homem nu

Ilustração, Manuscritos

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Um homem estava tomando banho sem roupa numa piscina coberta quando entrou um coelhinho do mal, vestido de gângster, com charuto aceso e isqueiro aceso na mão.

– Que letra é essa? – exigiu o coelho.

– Que letra? – perguntou o homem, saindo da piscina.

– Responde logo se não te taco fogo – disse o coelhinho.

16 de Novembro de 2006

Tudo na mesma noite

Sonhos

Estava com alguns amigos (não me lembro quais) numa cidade não muito grande, talvez em Santa Catarina. Entramos animadamente, eu por último, num prédio baixo junto da praça central; não recordo se o edifício abrigava uma rodoviária, um mercado municipal, uma prefeitura, um clube. Uma placa ou cartaz anunciava que alguém havia improvisado um museu de alguma coisa (não recordo o quê) na Sala 00 (a placa mencionava também as Salas 01 e 02). Eu quis ver o museu: deixei que meus amigos seguissem adiante e entrei no corredor à esquerda: a Sala 00 era a primeira (à esquerda). A porta estava aberta; alguém havia feito um caminho muito estreito que levava ao interior do museu, definido à direita por cadeiras e à esquerda por cones de trânsito. Para entrar era preciso acompanhar de lado esse caminho numa curva acentuada para a direita; o restante da sala, onde deveria estar o museu propriamente dito, estava oculto por duas ou três divisórias. O caminho era muito estreito, e quando tentei avançar acabei empurrando algumas das cadeiras, que derrubaram por sua vez as divisórias. Isso revelou que na sala, que era muito pequena, não parecia haver museu algum. Uma burocrata de meia-idade, sentada atrás de uma mesa no fim do caminho de cadeiras e cones, deu-me uma bronca porque eu havia atrapalhado a sessão inaugural de fotografias. Duas ou três moças, vestidas como cheerleaders norte-americanas, pareciam compartilhar da frustração dela. Ajudei alguém a reerguer os tapumes e saí dali.

* * *

No corredor encontrei meu boné, que havia aparentemente deixado cair antes de entrar no museu. Aninhado no interior do boné alguém havia deixado um recém-nascido com uma cabeça enorme, comprida no sentido horizontal. Tirei o nenê do boné e tomei-o no colo, na tentativa de fazê-lo parar de chorar. Eu estava agora (sem qualquer transição), na velha casa de madeira de minha vó Vergínia; eu tentava contar a minha mãe como havia encontrado o bebê, mas ela estava no telefone e fez sinal que eu esperasse. Caminhei embalando o bebê pela casa; sua cabeça parecia estar voltando ao normal. Perguntei se ele estava com fome e ele respondeu que sim. Achei monstruoso um bebê tão jovem ter respondido; olhei para ele e, em tom de acusação, choque ou revelação, disse: “Você agora está parecendo mais um pássaro do que um nenê, não é?” Ele olhou-me com perversidade e ressentimento, abriu as asas brancas e saiu voando pela janela.

* * *

Aparentemente não relacionado ao anterior:

Chego à casa térrea onde moro [no sonho], depois de dormir duas noites fora. É noite, e vindo da sala pelo corredor vejo que as luzes dos quartos estão acesas. Isso é inconcebível, por isso corrijo o sonho para que estejam apagadas.

* * *

Aparentemente não relacionado aos anteriores:

Falta pouco para o sol se pôr e estou dirigindo na estrada de terra que liga o Monastério à rodovia. Percebo, no alto de um morro, que as cores da tarde estão maravilhosamente saturadas. Algum efeito atmosférico está tingindo a paisagem de matizes indescritivelmente pungentes. O sol está brincando de Photoshop. Uma luminosa bruma azul-violeta desce do céu e tinge as árvores e colinas de azul turquesa, uma neblina verde-limão sobe da terra e tinge de um verde impossível casas e campinas. Arrependo-me na hora de não ter trazido minha câmera para registrar aquele momento. Termino de descer a curva e lembro que trouxe, sim, a câmera: está ali no banco do passageiro. Para o carro e dou a ré a fim de voltar ao alto do morro e capturar a paisagem como eu a tinha visto. Quando chego ao topo, no momento seguinte, já está escuro.

* * *

Aparentemente não relacionado aos anteriores:

Estou mostrando a minha irmã Alice um trecho do filme que [no sonho] inspirou Steven Spielberg, dez anos depois daquilo, a filmar E.T., O Extra-Terrestre. Plano americano da lateral de uma kombi estacionada numa campina com a porta lateral aberta: um menino de dez anos aproxima-se e senta-se no chão da kombi. Ele inclina-se para a frente e começa a mexer com um objeto que está fora do nosso campo de visão, mas que aparece por alguns momentos quando o menino o revira com uma vareta. É um modelo de plástico de um boneco marrom com uma cabeça enorme, coroada (ao contrário de E.T.) por quatro chifres. Comento com minha irmã que a cabeça e os chifres são tão proeminentes na figura que, virado de cabeça para baixo, o boneco poderia ser usado como cadeira.

(na noite de 14 para 15 de novembro de 2006)

15 de Novembro de 2006

O homem como peregrino

Goiabas Roubadas, História

Samuel Purchas (1577-1626) foi um clérigo inglês a quem ocorreu certo dia escrever a história das grandes explorações e navegações, dos prístinos tempos bíblicos até os dias de animado comércio internacional do século XVII.

Ambicioso, Purchas compilou fontes antigas, registros da Companhia das Índias Orientais e inúmeros relatos de viajantes e descobridores (muitos dos quais herdara por sua vez de Richard Hakluyt, cujas Voyages serviram de referência para Shakespeare). Mais ou menos ao gosto do seu tempo, interpolou, comentou e acrescentou, não fazendo ao mesmo tempo muita questão de distinguir fato de lenda; juntou por fim seus próprios comentários, apartes e especulações filosóficas e teológicas.

O resultado, publicado em 4 volumes, é uma vertigem que parece ter saído da pena laboriosa de Umberto Eco nos momentos em que imita Borges: o redundante, pomposo, elucubrante – numa palavra, delicioso – Purchas his Pilgrimes, contayning a History of the World in Sea Voyages and Lande Travells, by Englishmen and others.

O primeiro volume, de que já roubei um emaranhado parágrafo aqui, é um que eu adoraria ter tempo para traduzir – e comentar. O primeiro capítulo é dedicado ao que Purchas julga ser a primeira grande navegação da história, o comércio de Salomão com a terra de Ofir, mencionado em 1 Reis 9:28, 10:11 e 22:48. Há infindas conjecturas sobre a localização perdida da misteriosa Ofir; longas discussões sobre a relação tipológica entre Cristo e Salomão; uma extensa apologia da navegação comercial, associando-a diretamente à ordem de Gênesis que o homem domine sobre terra e mar.

O segundo capítulo – A vida do homem como peregrinação. As peregrinações de Cristo e a primeira Circundução do mundo então habitado ou habitável pelos santos Apóstolos e primeiros plantadores do Evangelho – é quase tão saborosamente especulativo e (como todo texto que cede à devoção) talvez mais presunçoso. Alguns parágrafos servirão de introdução ao seu meandroso raciocínio. Purchas parte de uma idéia comum no seu tempo, a do homem como microcosmo ou mundo em miniatura, mas quer ser ele mesmo descobridor de novas associações entre idéias antigas:

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Este documento faz parte da série

As Peregrinações de Purchas

  1. Os serviços do Mar
  2. O homem como peregrino
  3. O INTERIOR PAGÃO: Mapa do Mundo Cristão (1607)
  4. Sem ver os brâmanes