Deus
Fé e Crença
Deus é amizade.
Elredo de Rievaulx (1110-1167)
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Manuscritos estocados em Outubro do Anno 2006 de Nosso Senhor
30 de Outubro de 2006
A saga incompleta do grito WilhelmPormenorNa maioria das vezes, por razões técnicas, os efeitos sonoros de cinema (tiros, passos, explosões, estilhaçar de vidros) são gravados depois do filme e adicionados a cada cena na edição final. Por razões de economia, muitos efeitos sonoros foram reaproveitados de um filme para o outro pelos engenheiros de som. Alguns sons foram utilizados tantas vezes que acabaram integrando para quem lida com isso uma mitologia; esses efeitos continuam a ser aplicados em filmes contemporâneos, não por razões técnicas ou de economia, mas pelo mero prazer da referência interna, da piada que apenas uns poucos iniciados serão capaz de capturar. É o caso, em particular, do grito Wilhelm, gravado em 1951 para um faroeste com Gary Cooper e reutilizado dezenas de vezes depois – em filmes tão diversos quanto Nasce Uma Estrela (1954), Os Boinas-Verdes (1968), Guerra nas Estrelas (1977), Os Caçadores da Arca Perdida (1981), A Bela e a Fera (1991), Toy Story (1995), Piratas do Caribe (2003) e Madagascar (2005). Lista de filmes com o grito Wilhelm (132 títulos, e contando) A compilação abaixo, obra de Pablo Hidalgo, registra algumas das infames aparições do grito Wilhelm em filmes de Hollywood. Muitas de minhas obsessões de celulóide aparecem aqui, incluindo as formigas gigantes de Them! Uma versão de alta resolução da mesma compilação (Quicktime movie, 48 MB) 28 de Outubro de 2006
Dê-me um monoteísmo e moverei o mundoFé e Crença, História, Politica
A forma da religião de um estado Na competição dos deuses estatais com as religiões de mistério no mundo romano de dois mil anos atrás, o cristianismo entrou como contendente tardio e azarão inconteste. Tratava-se, considere, de uma facção impopular de uma religião que já era por si mesma bastante impopular, o judaísmo. Que esse partido controverso tenha se tornado em pouco mais de 300 anos a religião oficial do mais ambicioso e bem-sucedido império do planeta e da história – e que duraria depois disso mais mil anos – é mistério com variáveis demais para se deslindar. Verdade é que quando pediu a seus discípulos que contra qualquer oposição anunciassem sua boa nova “até os confins da terra”, Jesus parecia não estar prevendo que em três séculos essa pregação contaria com patrocínio dos cofres do Império, o aval nominal do Imperador e a proteção dos mesmos exércitos que o pregaram na cruz. É natural que, como toda religião de estado, o cristianismo (tendo perdido qualquer relação mais do que nominal com o ensino de Jesus) foi abraçado como ferramenta política. Dito de outra forma, a nova doutrina não teria sido abraçada se não se mostrasse de alguma forma vantajosa para os seus patrocinadores. A questão está em determinar o que no cristianismo fez com que ele parecesse politicamente mais atraente para o Império do que os deuses do Olimpo ou as exuberantes religiões de mistério. Parte importante da resposta está na própria noção de império. O Império Romano, instituído meras três décadas antes de Cristo, era ele mesmo uma novidade quando a o cristianismo despontou como opção no mercado espiritual. Por cinco séculos de definição Roma tinha sido a sede de uma enorme e bem-sucedida República parlamentar, governada democraticamente por um senado. A noção de monarquia, embora viesse ganhando adeptos depois da trajetória brilhante de Alexandre, o Grande, era considerada importação indesejável do oriente; os romanos viam a si mesmos como filhos da democracia, e os proponentes do jogo do Império tiveram de recorrer a todo tipo de artifício a fim de legitimizar a sua posição. “A ascensão do império promoveu o crescimento do monoteísmo devido à relação íntima entre a forma de religião e a forma de governo”.A primeira providência, temporária, foi associar a nova forma de governo à velha religião. “Em 13 a.C. Augusto assumiu o título de Pontifex Maximus, sumo-pontífice, o que concedeu a ele uma aura de santidade e provou-se tão eficaz que os imperadores subseqüentes, tanto pagãos quanto cristãos, o retiveram”, conta S. Angus em sua obra sobre as religiões de mistério. A segunda providência, definitiva, foi abandonar o politeísmo parlamentar dos deuses do Olimpo e escolher uma religião que refletisse adequadamente a nova forma de governo. Embora outras religiões de mistério estivessem fundamentadas no monoteísmo, o cristianismo acabou sendo a escolha da vez, talvez pela vantagem adicional da associação: da mesma forma que um homem, Jesus, representara legitimamente Deus na terra, o mesmo se poderia esperar do Pontifex Maximus. Estava feita a estercada: o cristianismo acabou dando certo da forma errada. Jesus alcançou a glória que repudiara no seu ensino e a associação política de que fugira por toda sua vida. Explica Angus:
“A ascensão do império promoveu o crescimento do monoteísmo devido à relação íntima entre a forma de religião e a forma de governo. Um governante supremo sobre a terra tornava natural e inevitável que os homens cressem num único Ser Supremo no universo”. Dê-me um monoteísmo e moverei o mundo – lição da história que nenhum político posterior deu-se ao luxo de esquecer. * * *Pela mesma razão, aprenda comigo, o capitalismo é a incontestada religião estatal dos nossos dias: não teria sido abraçada se não se mostrasse vantajosa para os seus patrocinadores. Não é injusto, portanto, que o ponto culminante da produção e do consumo anual girem ao redor do aniversário de Cristo. Não é injusto que o capitalismo se aproprie das ruínas de São Nicolau para erigir sobre elas o altar de Papai Noel. Os símbolos da velha religião são sempre utilizados para legitimar a nova, e é o novo monoteísmo que move o mundo. Não saia de casa sem ele.
Leia também: 27 de Outubro de 2006
A história do presente e o julgamento do futuroPense comigoJá pensei mais de uma vez em iniciar um blog chamado História do Presente, que consistiria de ensaios sobre história contemporânea escritos de uma perspectiva artificialmente distanciada – tentando antecipar como nossa época será descrita e interpretada daqui a, digamos, duzentos anos. A historiografia tradicional julga a história do presente imprudente de se escrever, pela excelente razão que vivemos no presente e falta-nos a necessária perspectiva histórica para entender o que está acontecendo e apontar de que forma os eventos contemporâneos se encaixam no futuro imediato e no passado recente. O presente permanece um ponto cego nos nossos esforços de interpretar a História; podemos com alguma acurácia prever o futuro pela leitura do passado, mas ao presente é-nos vedado atribuir qualquer significado. Essa postura parte naturalmente do pressuposto, considerado ultrapassado por muitos, de que a história pode ser interpretada – no sentido isento da coisa. O consenso contemporâneo parece ser que toda percepção da História, em todas as épocas, é construção posterior – ou seja, os livros de História revelam sempre mais sobre a nossa época do que sobre o passado. Essa terrível conclusão (ela mesma relativamente recente na história) acabou gerando o surgimento inevitável de disciplinas novas, como o estudo histórico da interpretação da História – e por conseguinte a história do estudo histórico da interpretação da História, levando-nos cada vez mais para longe dos fatos e diminuindo inexoravelmente nossa fé na possibilidade deles. Em compensação (e paradoxalmente), essa nossa falta de isenção parece garantir que a história do presente esteja sendo continuamente escrita naquilo que escrevemos sobre o passado. * * *Estou particularmente interessado em saber o quanto podemos antecipar do modo como seremos julgados pelos habitantes do futuro. Seremos considerados especialmente promíscuos? Materialistas? Distraídos? Pretensiosos? Incoerentes? Obtusos? Coniventes por certo, mas com o quê? Nossas boas intenções se desfarão em nada quando nossa hipocrisia for revelada, mas por qual transgressão coletiva seremos lembrados? Opinei recentemente, a partir de uma reflexão do Lou, que nossa irresponsabilidade para com o meio ambiente será provavelmente considerada o crime por excelência do nosso século. Prevejo que pelo esgotamento irreversível dos recursos da Terra seremos julgados com a mesma convicção unânime com que condenamos hoje a Inquisição e os nazistas. Nossas discussões mais caras serão julgadas irrelevantes, incompatíveis ou mera cortina de fumaça para o atordoante crime que estamos encobrindo. Mas digo isso do meu ponto cego no presente, e daqui não consigo enxergar o quanto do futuro podemos ainda salvar.
25 de Outubro de 2006
O homem e o mundoGoiabas RoubadasADÃO: O homem e o mundo Com dez frases Deus criou o mundo, embora uma única frase tivesse bastado. Deus queria deixar claro quão severa será a punição aplicada sobre os perversos, que destróem o mundo criado através de até dez frases, e quão agradável a recompensa destinada aos justos, que preservam o mundo através de até dez frases. O mundo foi feito para o homem, embora tenha sido a última de suas criaturas a chegar. Isso foi proposital, porque o homem deveria encontrar todas as coisas prontas para si. Deus foi o anfitrião que preparou pratos finos, pôs a mesa e em seguida conduziu o convidado ao seu lugar. Ao mesmo tempo, a aparição tardia do homem sobre a terra deve ser vista como uma admoestação à humildade. Que o homem se guarde do orgulho, para não ter de ouvir a provocação de que o pernilongo é mais velho do que ele. “Por causa de Israel, criarei o mundo”.Porém o homem é mais do que mera imagem do mundo. Ele alia em si mesmo qualidades do céu e da terra. De quatro ele faz lembrar os anjos, de quatro faz lembrar os animais. Sua capacidade de se expressar, seu intelecto judicioso, sua postura ereta, o fulgor do seu olhar – tudo isso faz dele um anjo. Por outro lado ele come e bebe, expele dejetos do corpo, reproduz-se e morre, como as feras do campo. Foi por isso que Deus disse antes da criação do homem: – Os seres celestiais não se reproduzem, mas são imortais; os seres da terra se reproduzem, mas morrem. Criarei o homem a fim de unir os dois, de modo a que quando ele pecar, quando comportar-se como animal, a morte o acometerá; mas se abster-se de pecar, viverá para sempre. Deus convocou todos os seres do céu e da terra para contribuírem na criação do homem, e ele mesmo tomou parte nela. Por essa razão todos esses amam o homem, e se ele viesse a pecar mostrar-se-iam interessados na sua preservação. O mundo inteiro, naturalmente, foi criado para o homem piedoso, temente a Deus, que Israel produz com a oportuna condução da lei de Deus revelada a ela. Portanto Israel é que foi levado em consideração quando o homem foi feito. Todas as outras criaturas foram instruídas a alterarem sua natureza se em algum momento do curso da história Israel precisasse de ajuda. Ao mar foi ordenado que se dividisse diante de Moisés, e ao céu que desse ouvidos às palavras do líder; o sol e a lua foram instados a pararem sob o comando de Josué, os corvos a alimentarem Elias, o fogo a poupar os três jovens na fornalha, o leão a não causar dano a Daniel, o peixe a cuspir Jonas e o céu a abrir-se para Ezequiel. Em sua humildade, Deus consultou os anjos, antes da criação do mundo, a respeito de sua intenção de criar o homem. Ele disse: – Por causa de Israel, criarei o mundo. Farei divisão entre luz e trevas, da mesma forma que no futuro farei por Israel no Egito: densas trevas cobrirão a terra, e os filhos de Israel terão luz em suas habitações; farei separação entre as águas abaixo do firmamento e as águas acima do firmamento, da mesma forma que farei por Israel: dividirei as águas para ele na travessia do Mar Vermelho; no terceiro dia criarei as plantas, e farei da mesma forma por Israel: produzirei para ele o maná no deserto; criarei os grandes luminares para dividirem o dia e a noite, e farei o mesmo por Israel: irei diante dele como uma coluna de nuvem durante o dia e como uma coluna de fogo durante a noite; criarei as aves do céu e os peixes do mar, e farei o mesmo por Israel: trarei para ele codornizes do mar; da mesma forma que soprarei o fôlego da vida nas narinas do homem, farei por Israel: darei a ele a Torá, a árvore da vida. Lendas dos judeus
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os arquivos dA Bacia das Almas estocados em Outubro 2006.
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