da série EM SEIS PASSOS QUE FARIA JESUS
Como vivo dizendo, ser cristão tornou-se insulto adequado para todo tipo de conduta, menos na escandalosa acepção original: a de quem assume a trilha de Jesus em sua espiral voluntária e redentora à desintegração e à morte – e quem sabe, à glória, mas por essa única via. Aprendemos a sensatamente desbastar todo o conteúdo subversivo da mensagem de Jesus (da forma como fazemos, naturalmente, com profetas menos consagrados, de Sócrates a Nietzsche), até o ponto em que o que Jesus disse e fez não represente qualquer interferência na nossa pretensão de sermos seguidores dele.
A fim de remediar essa situação, meu desejo é fazer como o ateu da parábola e resgatar para o público contemporâneo o contéudo ideológico do bem-intencionado mas cabeça-dura rabi que os cristãos garantem ser o messias dos judeus, que os judeus negam ser o messias e o único Filho de Deus e que os muçulmanos afirmam ser profeta incompreendido do único Deus, que não tem filhos.
Este, senhoras e senhoras, é o primeiro capítulo de um Novíssimo Manual de Conduta do seguidor de Jesus, a ser lançado em breve para todo Brasil pelo Scriptorium do Monastério de São Brabo, em laboriosas cópias manuscritas. Resolvi chamá-lo de Em Seis Passos Que Faria Jesus, por motivos que se não ficaram evidentes ainda ficarão.
Você quer ser como Jesus? Seguindo esses seis passos muito simples você alcançará rejeição imediata na terra e consagração a médio prazo no céu. A pressa é sua.
PRIMEIRO PASSO:
VIVA A INTOLERÂNCIA RELIGIOSA CONTRA OS RELIGIOSOS
A intolerância religiosa tem de ser tão antiga quanto a própria idéia de religião, mas é duvidoso mérito dos cristãos (e a partir de agora usa a palavra na pior acepção do termo, e também a única) ter refinado o conceito associando a alternativa à escravidão, à tortura e à morte em larga escala. O cristianismo foi a primeira religião da história a ganhar verdadeiro peso cultural através da conversão – ao contrário das pacíficas religiões anteriores, das quais restam algumas, e que preferiam apostar a eventual consagração no milenar e lentíssimo método de transmissão e reelaboração de pai para filho.
O cristianismo histórico foi desde o início, exatamente como nos nossos dias, empreendimento de curto prazo, indústria de resultados. Jesus passou de ilustre desconhecido a único Deus do vertiginoso Império Romano em meros 300 anos – menos que um piscar de olhos em termos históricos. Não é de estranhar que pelo menos metade dessa conversão nominal do mundo tenha sido adquirida na ponta da espada. A fim de salvar os incréus era necessário não tolerar a sacrílega religião deles: os cristãos entenderam o imediatismo do Ide e saíram pelo mundo fazendo inimigos, ostracizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito. Essa dupla paixão pelos resultados e paixão pela publicidade deixam claro que o cristianismo histórico não é o menos eloqüente antecessor do convulsivo capitalismo contemporâneo.
Essa implacável visão de mundo, da expansão numérica e comercial como missão divina, determinou toda a história do ocidente, inclusive a sangrenta colonização das Américas. Em 1454 o Papa Nicolau V resume essa postura geral na sua Bula Romanus Pontifex, em que concede ao rei Afonso de Portugal (e a seu príncipe D. Henrique, que daria forma final à nau oceânica portuguesa e assim o chute inicial às Grandes Navegações), uma singela série de privilégios materiais associados à sua pureza de coração:
”(…) concedemos ao dito rei Afonso a plena e livre faculdade, entre outras, de invadir, conquistar e subjugar quaisquer sarracenos e pagãos, inimigos de Cristo, suas terras e bens, a todos reduzir à servidão e tudo aplicar em utilidade própria e dos seus descendentes (…)”
Nenhuma manifestação do cristianismo institucional dos nossos dias difere, em qualquer sentido importante, da inclinação geral do parágrafo acima. Os filhos do Rei permanecem reclamando seus direitos, absolutamente convencidos da primazia da sua condição. Os religiosos cristãos chafurdam em seus merecimentos, e oram descaradamente para extrair alguma prosperidade dos inimigos de Cristo ou reduzi-los à servidão – o que for mais imediato ou der mais prazer (e é naturalmente graças aos cristãos que cremos que essas duas últimas coisas andam juntas).
Por alguma razão que Cristo não teria como entender, os que hoje se consideram cristãos são os que se consideram religiosos. E, dentro da mesma lógica ignorante dos fatos, os que não se submetem à religião são inimigos de Cristo.
Talvez baste para você pensar e agir assim, mas se você quer ser de fato como Cristo é absolutamente necessário dar o primeiro e louquíssimo passo na direção de Deus e para longe da religião. Porque Jesus, como deixam abundantemente claro os evangelhos, promovia e aplicava consistentemente uma forma muito particular de intolerância religiosa: a intolerância contra os religiosos.
Jesus, que comia com estelionatários, bebia com agiotas e era amigão de prostitutas, tolerava aparentemente tudo em todos. “Eu não condeno você”, ele ousou blasfemar aos ouvidos da mulher adúltera. O rabi puxava conversa com divorciadas promíscuas, tocava leprosos de que todos desviavam o olhar e dormia nas camas rendadas de inimigos do povo. O sujeito conseguiu o feito inédito de sustentar a fama de homem de Deus ao mesmo tempo em que abraçava os puxadores de fumo, traficantes, travestis e aidéticos do seu tempo.
Mas havia um limite para a sacanagem que ele podia engolir. A única classe de pessoas que fazia Jesus perder a paciência e a compostura era, formidavelmente, a dos religiosos. Aquele que mostrou-se disposto a acolher sem qualquer transição um criminoso no seu paraíso não tinha uma única palavra de tolerância para os devotos, os carolas, os piedosos, os santinhos. Esses despertavam a sua ira, e para ser como Jesus é necessário – por difícil que possa parecer – que despertem também a sua.
Para demonstrar de forma conveniente a implacável intolerância de Jesus para com os religiosos seriam necessários quatro evangelhos. Deve bastar, no entanto, o relato da homérica lavada que levou um fariseu imprudente que convidou Jesus para jantar. Fique pelo menos a lição: se não quer ser como ele, pelo menos não convide Jesus para jantar.
Enquanto ele ainda estava falando, um fariseu pediu que Jesus fosse jantar com ele. Ele entrou na casa do fariseu e reclinou-se à mesa para comer.
O fariseu ficou surpreso ao ver que ele não havia lavado as mãos antes da refeição.
Vocês, fariseus o Senhor disse a ele, limpam a parte de fora dos copos e dos pratos, mas por dentro estão cheios de cobiça e perversidade. Loucos! Aquele que fez o exterior não foi o mesmo que fez o interior? Dêem como esmola o que vocês têm no interior dos pratos, e para sua surpresa tudo será puro para vocês. Mas ai de vocês, fariseus, que dão a décima parte até da hortelã, da arruda e de toda espécie de hortaliças, mas passam longe do veredito e do amor de Deus. O certo era que fizessem uma coisa sem deixar de fazer a outra. Ai de vocês, fariseus que amam os lugares mais importantes da sinagoga, e amam ser cumprimentados nas praças. Ai de vocês, estudiosos da lei e fariseus! Impostores! Vocês são como sepulturas não marcadas, sobre as quais as pessoas andam sem saber.
Neste ponto um perito na Lei que estava presente disse:
Mestre, quando o senhor diz isso também está nos ofendendo.
Mas ele disse:
Ai de vocês também, peritos na Lei! Vocês sobrecarregam as pessoas com cargas difíceis de se levar, mas vocês mesmos não mexem sequer um dedo para carregá-las. Ai de vocês, que constróem mausoléus para os profetas, quando foram os pais de vocês que os mataram. Fazendo isso vocês confessam que estão de acordo com o que os seus pais fizeram: eles mataram os profetas, vocês constróem sepulturas para eles. É por isso que a sabedoria de Deus diz: Eu enviarei a vocês profetas e apóstolos; alguns deles vocês matarão, outros vocês irão perseguir. Para que dessa geração seja requerido o sangue de todos os profetas derramado desde que foram lançadas as bases do universo: do sangue de Abel até o sangue de Zacarias, que foi morto entre o altar e a casa de Deus. Eu afirmo a vocês que isso será exigido desta geração. Ai de vocês, peritos na Lei! Vocês negaram às pessoas o acesso à chave do conhecimento; vocês mesmos não entraram, e impediram os que estavam entrando (Lucas 11:37-52).
É preciso ainda ressaltar que a religiosa intolerância de Jesus para com os religiosos em nenhum momento esteve voltada para o que chamaríamos hoje de pagãos. A Jerusalém do tempo de Jesus era cidade ocupada pelos romanos, apinhada de sacrílegos templos, estátuas, estádios, quartéis, teatros e banhos públicos que os judeus piedosos só faziam condenar. Incrivelmente, não chegou até nós nenhuma palavra de condenação de Jesus contra essas barbaridades; pelo contrário, que Jesus estava favoravelmente familiarizado com a cultura romana fica claro, por exemplo, no uso natural e muito apropriado que ele faz do termo hipócrita (ator, mascarado, canastrão), emprestado do teatro, forma de arte que os judeus de boa estirpe ao mesmo tempo desconheciam e abominavam.
O desconcertante é que, ao mesmo tempo em que tolerava os pagãos (talvez porque eles mesmos eram muito tolerantes), Jesus batia de frente contra os que afirmavam terem o monopólio de acesso ao Verdadeiro Deus©. Jesus reconhecia que o vasto e inclassificável Deus das escrituras hebraicas era também o seu, mas ao mesmo tempo asseverava que os sacerdotes, fariseus e intérpretes que pretendiam tê-lo seqüestrado para si, fechando-o dentro de um sistema religioso estanque, confortável e opressor, não tinham a mínima idéia de com quem e de quem estavam falando.
O primeiro passo para fazermos no nosso tempo o que Jesus fez no dele é, incrivelmente, abrir mão de qualquer palavra de condenação contra os ateus, os feiticeiros, os satanistas, os liberais, os wiccans, os macumbeiros, os budistas, os hindus, os animistas – agnósticos e pagãos de todos os matizes. O alvo da nossa intolerância deve ser outro, o alvo que foi também o de Jesus: os que passeiam pelo mundo crendo ter o aval inequívoco e a credencial indelével do Verdadeiro Deus©. Aqueles que, nas palavras de Paulo, estão “persuadidos de serem guias dos cegos, luz dos que se encontram em trevas, instrutores de ignorantes, mestres de crianças, tendo na lei a forma da sabedoria e da verdade” – mas que “ensinam os outros sem ensinarem a si mesmos”.
Nós.
Quando apenas esses nos fizerem perder toda a paciência e a compostura; quando apenas esses nos levarem a abrir a boca em imprecações e maldição, estaremos sendo como Jesus.
Este documento faz parte da série
Em seis passos que faria Jesus
- PRIMEIRO PASSO: Viva a intolerância contra os religiosos
- SEGUNDO PASSO: Faça o que os outros não esperam
- TERCEIRO PASSO: Desfrute sem possuir
- QUARTO PASSO: Viva inteiramente inserido no seu mundo
- QUINTO PASSO: Permaneça disponível para o momento
- SEXTO PASSO: Sensualize a sua espiritualidade
- Em Seis Passos: O LIVRO

estanislau
Quando entrei na bacia, há quase um ano atrás, pensava eu que iria encontrar exatamente o que encontro hoje; alguém com os mesmos pensamentos que eu a respeito de Cristo e das religiões que se dizem cristãs. pois que esse, é, há muito em minha vida o tema que a impulsiona. entretanto, naquela ocasião da minha entrada, não foi o que encontrei, cheguei por um momento a achar que havia encontrado o contrário. porém, observando que os artigos eram evidentemente de bom gosto, e que o dono da bacia era um “cara legal”, apesar de “brabo”, e que havia, além de tudo isso, “algo que me detinha um pouco mais”, permaneci – evidente que com a permisão imprudente do dono -, até esse momento sublime, onde, já de algum tempo, venho lendo o que esperava a respeito do tema que me fascina, e com a idéia com a qual comungo. costumo eu dizer que não conheci até hoje nenhum cristão, apesar de conhecer muitos que se dizem cristãos. ainda não vi aquele que vai e vende tudo o que tem e doa aos necessitados, vejo sim, o inverso. “facílimo seria por fim a todos os religiosos que se dizem cristãos; é só querer que sigam verdadeiramente a cristo em verdade”. que disponham de tudo como fizeram os “verdadeiros cristãos” para exemplo. que abram mão da família como fizeram os apóstolos, enfim… de tudo o mais, inclusive da própria vida com assim o fizeram esses também. mas, dirão esses hipócritas, isso foi naqueles tempos, hoje é diferente, rsrs. nesse momento até esquecem o que sabem; que Deus não muda, que é o mesmo de ontem e de sempre.
Lou Mello
Onde eu assino?
hernan
Ó São Brabo, de quem sou devoto. Ajudai-me. Tenho guardado essas coisas desde minha mocidade, mas há ainda um religioso a quem tolero. Dizei-me como resistí-lo face-a-face, pois ele é repreensível.
O seu nome tenho vergonha de revelar, pois ele sou eu.
bete
…como é difícil me desvencilhar deste fariseu que clama dentro do meu deserto… mas eu não perco a esperança, e é por isso que continuo mergulhada de cabeça na bacia. e que venham os demais passos.
Farah
Paulo… Paulo… com vc disse, e isso não é novidade nenhuma, para os muçulmanos Jesus (pbuh) é o profeta de Deus, incompreendido.
Se ele tivesse sido compreendido, a conjectura é a de que provavelmente o Islam (no sentido pleno da palavra) teria sido estabelecido por Jesus (pbuh). Ao que parece dentro do teu racíocinio a mensagem de tolêrancia e respeito ao próximo como igual diante do Criador, o qual também somos ao fazermos parte Dele e termos o destino final de como extensões que somos, nos religarmos a Ele, claramente precisou ser reenviada.
E foi…
Paulo Brabo
Farah, é meu costume detonar uma religião de cada vez, mas posso adiantar algumas coisas da minha posição sobre a sua posição. Em primeiro lugar, você mais do que ninguém sabe que não creio que Jesus veio fundar um religião – e que portanto não tenho como enxergar mérito algum em quem veio claramente fundar outra. Não creio que Jesus, nos nossos dias, demonstraria maior tolerância aos fundamentalistas muçulmanos do que aos cristãos. Sua intolerância contra os religiosos seria generosa o bastante para abracar todos os filhos de Abraão©.
Também não creio que, embora permaneça inédita e não-aplicada, a mensagem de Jesus precise ser reenviada ou reelaborada a fim de tornar-se mais palatável ou praticável. De certa forma Jesus foi muito bem compreendido, tanto que trataram de eliminá-lo – não só da existência, mas criando interpretações não-controversas e pasteurizadas para amansar a contundência do seu ensino.
Finalmente, você sabe que não encontro no ensino de Maomé absolutamente nada da singularidade do pensamento de Jesus. O Deus do Islam é uma divindade sensata que ama os bons, premia os justos e castiga os pecadores. O Deus de Jesus, por outro lado, não se dá ao respeito: absolutamente singular em sua insensatez (aquilo que os cristãos chama de graça), esse Deus ama de paixão os pecadores, é impaciente para com os bons e enche de dúvidas os justos. O Deus do Islam exige submissão e renúncia; o Deus de Jesus se define por elas. Que vença o menor.
Pacificador
Percebo um recrudescimento do fundamentalismo cristão, que age muito igual ao islâmico.
O lendário pêndulo oscila para a direita com renovado vigor fascista. A sua velha agenda ideológica é servida diluída na sopa moralista da sexualidade vitoriana, na cruzada hipócrita pela democracia e na busca da verdade ortodoxa do cânon oficial da religião oficial.
Vale citar Karen Armstrong em sua análise do avivamento fundamentalista no judaísmo, cristianismo e islamismo:
Não podemos ser religiosos como nossos ancestrais no mundo conservador pré-moderno, quando os mitos e os rituais da fé ajudavam os devotos a aceitar limitações inerentes à civilização agrária.
Estamos voltados para o futuro, e o racionalismo do mundo moderno dificulta-nos o entendimento das velhas formas de espiritualidade. Não somos diferentes de Newton, um dos primeiros ocidentais inteiramente imbuídos do espírito científico, que achava impossível compreender a mitologia.
Por mais que procuremos abraçar a religião convencional, tendemos naturalmente a ver a verdade como factual, histórica e empírica. Muitos de nós, se convenceram de que, para levar a fé a sério, precisavam ter a prova de que seus mitos são históricos e capazes de funcionar na prática com toda a eficiência que a modernidade espera.
Ao longo do século XX um número crescente de indivíduos, sobretudo na Europa Ocidental, abandonou a religião. Para quem acredita que os a razão pode conduzir à verdade essa é uma posição correta e honesta. O logos racional, como os cientistas seriam os primeiros a insistir, não pode abordar questões que transcendem a investigação empírica. Confrontada com os horrores genocidas de nosso século, a razão nada tem a dizer.
Existe, pois, um vácuo no centro da cultura moderna, e os ocidentais o sentiram já no primeiro estágio de sua revolução científica. Pascal apavorou-se com o vazio do cosmo; Descartes viu o ser humano como o único habitante vivo de um universo inerte; Hobbes imaginou Deus retirando-se do mundo; e Nietzsche proclamou a morte de deus: a humanidade perdera o rumo e corria atabalhoadamente para um nada infinito.
Outros, porém, superaram a perda da fé e se libertaram das restrições que a religião sempre impôs. Sartre assinalou o buraco em forma de Deus na consciência humana, mas assegurou que ainda tínhamos o dever de rejeitar a divindade que nos negava a liberdade. Albert Camus (1913-60) acreditava que ao rejeitar Deus, poderíamos concentrar toda a nossa atenção e todo o nosso amor na humanidade. Outros colocaram sua fé nos ideais do Iluminismo e anseiam por um futuro em que seremos mais racionais e tolerantes; em lugar de um Deus distante e imaginário, veneram a sagrada liberdade do indivíduo. Muitos, porém, ainda querem ser religiosos e tentam desenvolver novas formas de fé. O fundamentalismo é apenas um desses experimentos religiosos modernos…
(Karen Armstrong em “Em Nome de Deus” – Companhia das Letras)
Farah
Paulo eu aqui humildemente peço a vc uma segunda leitura do que escrevi.
Eu já fiz uns três textos analisando o que escrevi à luz da tua leitura.
Não fiquei satisfeito com os desdobramentos que a resposta ou comentario que escrevi poderia suscitar, e não mandei. Então peço que vc leia novamente e reflita por alguns minutos, por que não vejo divergência nos nossos pensamentos.
Paulo Brabo
Farah, reli – e sabia de antemão que não precisaria reler para encontrar grande similaridade de pensamento e de postura geral entre nós dois. Encontramos talvez diferentes metáforas ou vocabulário para explicar uma mesma coisa, mas a chave do nosso entendimento está na cautela do seu “Islam no sentido pleno da palavra” e do meu “a mensagem de Jesus permanece inédita”. Não sem algum orgulho, deixamos claro que entendemos a essência da nossa religião mais do que a multidão nominal – e é provável que estejamos certos até nisso.
Por outro lado, creio não ser necessário encontrarmos similaridade de fiigrana entre nossas teologias oficiais – não exijo ortodoxia de cristãos, não vejo razão porque procurá-la em quem não declara sê-lo (mesmo que demonstre mais humildade e renúncia cristã do que eu). Para levantar um único exemplo: no que me diz respeito, a necessidade de uma postura de tolerância para com o próximo está mais ligada à postura cavalheiresca do próprio Deus (”…Deus ama de paixão os pecadores, é impaciente para com os bons e enche de dúvidas os justos”) do que a nossa possível identidade com ele (”…fazermos parte Dele… como extensões que somos”) – e nisso sou mais patriarcal e menos místico. Minha impressão é que somos extensões de Deus, por assim dizer, apenas na medida em que o imitamos.
Vejo nesse e em outros pontos alguma divergência entre nossos pensamentos, mas não vejo como nossa relação um com o outro possa ser afetada por isso. A divergência que houver entre nós por certo não estará na religião que nos recusamos a abraçar, ou no nome que escolhemos dar a Deus. Desde o primeiro contato exercemos a tolerância mútua que nossa postura pessoal com relação à divindade insiste ser necessária. Se é que não ficou ainda claro, meu respeito e meu amor por você não nasce da ausência de divergência entre nossas posições. Você é você e isso já é inteiramente irresistível, para mim ou para o Deus sob todos os nomes.
hernan
Farah,
Acredito que a mensagem foi enviada desde tempos imemoriais, e continua ser reenviada até hoje através de pessoas como você e o Brabo.
Acredito que o Livro dos Atos dos Apóstolos – que pretende ser o registro da continuação das coisas que Jesus começou a fazer e ensinar – não teve ainda sua escrita terminada. Aquilo era só o começo e o princípio das dores.