Manuscritos estocados em Setembro do Anno 2006 de Nosso Senhor
20 de Setembro de 2006
Conta-me por e-mail a Débora Viana, de Pernambuco, que chegou à Bacia graças a um texto meu que encontrou – improbabilidade das improbabilidades – na prova de português do concurso do Tribunal Regional do Trabalho do seu estado.
Achei num primeiro momento que teria de ter havido alguma confusão, mas sempre esqueço que o fim do universo é a permutação, ou seja, a improbabilidade. O texto está de fato lá, nas cinco variações da prova para Analista Judiciário (Área Judiciária) do TRIBUNAL REGIONAL DO TRABALHO DA 6ª REGIÃO, de setembro de 2006.
Está aí a Fundação Carlos Chagas que não me deixa mentir sozinho. Qualquer um dos cinco primeiros links da página remetem a um arquivo pdf com as 12 páginas da prova; a Bacia é mencionada de passagem na página 4.
Você pode querer mesmo tentar responder às perguntas referentes ao texto (“depreende-se pela perspectiva assumida pelo autor que individuação…” ou “as normas de concordância estão plenamente respeitadas na frase…”); eu não ouso. Não estou nem mais certo de que meu “salvo engano” quer dizer mesmo “sem qualquer hesitação”, como achava na primeira leitura de uma das perguntas. Tenho até receio de consultar os gabaritos.
Clique aqui para ver a página inteira.
Scribd
De maior interesse para mim é que o anônimo elaborador da prova acho necessário adaptar o texto antes de considerá-lo universal o bastante para ser usado no teste. O texto utilizado, como terá percebido o leitor impenintente, é uma adaptação compassiva de quatro ou cinco parágrafos do documento que leva, aqui na Bacia, o nome de O bicho. Está certo, o elaborador pode ter julgado acertadamente que “Individuação” fica mais classudo. Ele achou ainda por bem consertar outras coisinhas, especialmente no último parágrafo, onde na versão da prova fica especialmente conspícua a ausência do termo “pecado”.
Porém o espírito da coisa, salvo engano, está todo aí.
* * *
NOTA DE RODAPÉ: Depreende-se pela perspectiva assumida pelo autor que ele está agradecido à Débora pela oportuna notificação.

19 de Setembro de 2006
Pintada com a versão gratuita do software de pintura Artrage. Clique para ampliar.

17 de Setembro de 2006
ATUALIZAÇÃO (SEGUNDA 18, 09h30). Funcionando.
ATUALIZAÇÃO (SEGUNDA 18, 08h30). O Blog do Biga parece estar neste momento fora do ar; naturalmente, agora que falei nele.
* * *
Assim que me deparei com o blog do Biga eu sabia que tinha de ser uma fraude. Um rapaz de doze anos de idade não podia escrever melhor do que eu com vinte – ou talvez 38. Agora nem me importo mais: se o Biga é mesmo um menino prodígio ou uma criação de Luís Fernando Veríssimo, já me conformei em ser superado pelos dois. O universo, cujo fim é a variedade (como dizia Borges), não prescindiria nem de um nem de outro.
Com um blog com meia dúzia de artigos, o Biga (que chama-se Gabriel e tem doze anos, não sei se já mencionei isso) já é um fenômeno da internet – pelo menos no que me diz respeito.
Pare tudo e leia o blog do Biga. Agora. Recomendo particularmente os dois artigos sobre os Jogos Indígenas realizados na sua cidade. Trechos:
A semana passada foi toda de preparativos, por parte dos organizadores, para a minha cidade, Conceição do Araguaia, sul do Pará, ser a sede dos jogos indígenas. O 3º jogos indígenas. Meu Deus, eu nem sabia que índio jogava. Meu Deus, eu nem sabia que ainda existia índio, além dos livros e imagens antigas da tv. Meu Deus estou emocionado, vou ver índio. Índio, índio mesmo, aqueles caras que os livros dizem ter sido os primeiros habitantes do Brasil. Que, quando os caras que descobriram o Brasil chegaram aqui encontraram eles (índios) curtindo água de coco e tudo mais e aí Pedro Álvares Cabral e sua turma sacanearam os coitados dando uns presentinhos bem do estilo 1,99 pra comprar a confiança e a amizade deles e botar os coitados pra trabalharem de graça e depois roubarem as terras deles. Sinto-me obrigado a dizer que essa relação entre eles era chamada de escambo (viva a professora Clara, de história, aprendi isso com ela).
(…)
Independente de qualquer coisa, de qualquer prefeito, seja o político que for ele tem que ser vaiado pelos cidadãos de bem. Cidadão que é cidadão de verdade tem que exercer o seu direito de vaiador.
Cidadão que é cidadão de verdade tem que exercer o seu direito de vaiador.
(…)
Mas no último dia, a vaia foi especial, além de ser o último dia do evento, o cacique que estava representando todas as tribos deu um generoso reforço quando disse (no final, na hora da troca de presentes), para o prefeito que Ele (prefeito), era dono do povo mais animado do Brasil e que tinha a obrigação de ser muito feliz por isso. Aí foi, definitivamente, sem dúvida o momento mais
mais
mais estonteante, marcante dos seis dias debaixo de um sol de 50º, pra ver aqueles índios espetando as coisas com suas flechas. As arquibancadas tremeram com as risadas do público, sedento de água (por causa do calor) e de uma boa piada. Eu também estava rindo e muito, mas minha atenção de repente foi roubada quando vi um homem com o corpo tremendo que parecia estar tendo um ataque epilético de tanto rir. Ria, ria e ria. Comecei a ficar preocupado porque ouvi falar que rir demais mata. Chorar demais não mata só deixa o cara, além de muito chateado pelo motivo que o levou a chorar (aliviado também), com os olhos vermelhos e com aquela cara de quem chorou. Se for minha priminha Anna Carolina, além dessas características citadas terá um soluço muito triste de partir o coração (mas acho que é porque ainda tem um ano de idade, depois ficará só com as primeiras características). Mas rir, dizem que mata. Meio contraditório, porque sempre vejo escrito por aí que rir é o melhor remédio, se bem que remédio também mata se for demais.
Mas, o homem estava totalmente sem controle e como ser humano cristão evangélico que sou, pensei que ele fosse realmente morrer. Se bem que se morresse acho que seria de felicidade (ia morrer rindo – um privilégio). E aí eu presenciaria alguém morrer de rir, literalmente. Não pensem que isso me deixaria feliz. Deus me livre. Só ia ver, por estar no lugar certo, na hora certa ou errada, sei lá. O importante, graças a Deus é que ele parou, sentou, ficou triste e danou a xingar o prefeito de disgraçado, fiu de uma égua, infiliz; dizendo isso e chorando. Quando vi o anônimo chorar, fiquei contente, porque assim ele dava uma desintoxicada do tanto que riu e se livrava da morte de tanto rir.

O Blog do Biga
16 de Setembro de 2006
ORA, QUANTO AOS SERVIÇOS do Mar, são inumeráveis; é o grande Provedor dos Bens do Mundo para o nosso uso, Condutor do Excesso dos Rios, Integrador via tráfico de todas as Nações; presenteia os olhos com Cores e Movimentos diversificados, e como que de ricos Broches, é adornado por diversas Ilhas; é durante a Paz um campo aberto para a Mercância, e um campo determinado para as mais horrendas lutas de Guerra; provê diversidade de Peixes e Aves para o consumo, Materiais para a Riqueza, Medicamento para a Saúde, Ervas para Remédios, Pérolas e outras Jóias para Ornamento, Âmbar e Âmbar-gris para o deleite, as maravilhas do Senhor no Profundo para instrução, variedade de Criaturas para o uso, multiplicidade de Naturezas para a Contemplação, diversidade de acidentes para a admiração, sumarização para os caminhos, para corpos repletos saudável evacuação, para a terra sedenta fértil umidade, para amigos distantes alegre reencontro, para gente abatida agradável refrigério; para mentes estudiosas e religiosas (Mapa do Conhecimento, Mistério da Temperança, Exercício da Continência, Escola de Oração, Meditação, Devoção e Sobriedade: refúgio para os angustiados, Frete para o Mercante, passagem para o Viajante, Aduanas para o Príncipe, para Fontes, Lagos, Rios e para a Tera; tem em si Tempestades e Calmarias para punir os Pecados, para exercitar a fé dos Marinheiros; variegadas afeições em si mesmo, a fim de afetar e estupefar o mais refinado Filósofo; sustenta Fortalezas móveis para o Soldado, mantém (como em nossa Ilha) uma Muralha de defesa e aquosa Guarnição para proteger o Estado; entretém o Sol com vapores, a Lua com obsequiosidade, as Estrelas com um Espelho natural, o Céu com Nuvens, o Ar com moderação de clima, o Solo com flexibilidade, os Rios com Marés, as Colinas com umidade, os Vales com fertilidade; contém matéria mui diversificada para Meteoros, muito variadas formas, mui várias, numerosas variações, deveras imensas; disformes, informes e deformados Monstros; Enfim (pois por que deveria eu detê-lo mais?) o Mar provê Ação para o corpo, Meditação para a Mente, o Mundo para o Mundo, todas as partes respectivamente a cada uma das partes, por esta Arte das Artes, a Navegação.
Samuel Purchas, em seu saboroso Pilgrimes (1625)
continue lendo >
15 de Setembro de 2006

Cinqüenta anos atrás imaginávamos o futuro como repleto de engenhocas projetadas para facilitar a nossa vida. Hoje em dia ninguém pensa no futuro, e vivemos ao redor de engenhocas projetadas para facilitar a nossa vida. Se a vida está mais fácil ou mais complicada do que há cinqüenta anos, cabe a Rabi Shaul julgar.
Não tenho iPod ou outro mp3 player, mas às vezes pensava em adormecer deixando o computador tocar os mp3 de Benny Goodman que não baixei da internet. Tentei uma ou duas vezes, mas me incomodava [1] deixar o computador ligado à noite inteira e [2] que o volume dos alto-falantes, que parecia confortável quando eu reclinava a cabeça no travesseiro, ia ficando ensurdecedor à medida que eu resvalava no sono.
Meus problemas terminaram. As organizações Immortal Software lançaram um programa gratuito que já está instalado no meu PC e foi devidamente testado todas as noites desta semana. Trata-se de Goodnight Timer, um programa que para embalar o seu sono vai baixando gradualmente o volume do PC ao longo de um intervalo que você define e – você querendo – desliga o seu computador automaticamente ao final do processo.
Ideal para solitários, ambientes pequenos e celas de Monastério. Apenas para Windows. Baixe aqui.
Você está examinando
os arquivos d A Bacia das Almas estocados em Setembro 2006.
Rubricas
|