Manuscritos estocados em Setembro do Anno 2006 de Nosso Senhor
25 de Setembro de 2006

Demais para nós

Fé e Crença, Goiabas Roubadas

Especula-se às vezes se a experiência do mistério e da transcendência está mais disponível para os que submeteram-se a alguma espécie de treinamento religioso ou espiritual, para os quais tudo [na experiência religiosa] já foi completamente catalogado e recebeu um nome. Ela pode estar menos disponível para esses precisamente porque têm tudo já nomeado no seu caderninho. Um modo de privar-se de uma experiência é aguardá-la com ansiedade. Outra é dar a ela um nome antes de experimentá-la. Carl Jung dizia que uma das funções da religião é proteger-nos da experiência religiosa. Isso porque na religião formal tudo já está concretizado e formulado. Porém, por natureza, trata-se de uma experiência que apenas você pode ter. Assim que a classifica junto com a de qualquer outra pessoa ela perde seu caráter. Um conjunto preconcebido de conceitos arrebata a experiência, interrompendo-a de modo a que não venha diretamente até nós. Religiões rebuscadas e detalhadas protegem-nos de uma explosiva experiência mística que poderia mostrar-se demais para nós.

Joseph Campbell, Thou Art That

Leia também:
Fé e crença

24 de Setembro de 2006

O primeiro dia

História

Lembranças de uma excursão aos Monastérios de Alcobaça e Batalha,
pelo autor de Vathek (William Beckford)

PRIMEIRO DIA
3 de junho de 1794

O príncipe regente de Portugal, por razões com que nunca cheguei inteiramente a me familiarizar, colocou uma bela manhã em sua cabeça real desejar que eu visitasse os monastérios de Alcobaça e Batalha, e de nomear meus amigos íntimos e particulares, o Grande Prior de Aviz e o Prior de São Vincente, como meus guias e companheiros. Nada poderia ser mais gracioso e, em muitos sentidos, mais agradável; ainda assim, num primeiro momento, tendo o que julgava serem compromissos muito mais agradáveis mais perto de casa, não quero fingir ter me sentido tão encantado quanto deveria.

Diante da comunicação da ordem suprema aos dois prelados, não descobriu-se neles o menor traço de supresa; aparentemente estavam inteiramente preparados para ela. O Grande Prior observou que o tempo estava horrivelmente quente e as estradas execráveis; o outro prelado pareceu mais animado e quase que totalmente pronto para a expedição. Pensei ter detectado num canto de seu olho vivaz e inteligente uma centelha de esperança de que, ao retornar de seu pequeno percurso de observação, os comentários que era provável que inspirasse talvez conduzissem a conferências mais íntimas em Queluz, levando-o a colisões mais freqüentes com a realeza.

Como meus mui justamente reverendos companheiros haviam providenciado não renunciar a um átomo de seus confortos e conveniências habituais, e levarem consigo seus acólitos e secretários confidenciais bem como alguns de seus favoritos quadrúpedes, tinhamos no séquito dos retromencionados animais uma rara multidão de tratadores, ferradores e guias de mula. Adicionando-se a esses meus seguidores costumeiros, formávamos uma caravana que, sem contar camelos e dromedários, teria causado impressão nada desprezível na rota para Meca ou Mesched-Ali.

O ponto de partida, o local geral de encontro para toda essa assembléia heterogênea, era minha quinta de São José, com ampla vista para a foz do Tejo, abarrotado com naus de toda nação debaixo do céu, mensageiras de alegria para alguns, de tristeza para outros, mas todas com velas estendidas radiando igualmente sob os raios de um sol cordial, e deslizando sobre as efervescentes ondas azuis com igual ligeireza.

– Aqui estou, meu caro amigo – disse-me o Grande Prior quando ajudei-o a descer da tremendamente narcótica dormeuse emprestada por seu irmão, o Marquês de Marialva, expressamente para este momento de provação. – Contemple-me, afinal (afinal de fato, sendo este o terceiro adiamento que eu experimentava), sempre encantado com a sua companhia, mas não tanto com a expedição que estamos a ponto de empreender.

– Espero que não acabe sendo tão desagradável no fim das contas – foi minha resposta. – No que me diz respeito estou sinceramente ansioso por ver Alcobaça.

– Pois eu não – retrucou o Grande Prior, – mas deixa estar. Erhard já chegou? Franchi já está pronto? O primeiro já embalou o baú de remédios a respeito do qual ele agonizava outro dia, e o segundo o piano que jurou far-se-ia em pedaços a não ser que fosse melhor afinado?

– Tudo está seguro, tudo aguardando: inclusive o jantar, meu caro Senhor Prior; e, depois disso, partamos. Aparentemente não será coisa fácil mesmo agora, sendo tantos do grupo adeptos da vadiagem.

Ficou resolvido que o Prior não olharia para nada que pudesse incitar a fadiga da reflexão.

A razão pela qual o Grande Prior tanto temia a viagem eu não conseguia imaginar, quando tantos esforços haviam sido tomados para torná-la cômoda e isenta de percalços. Ficou resolvido que ele se recostaria em sua dormeuse ou em minha chaise, como lhe aprouvesse, e que não olharia para nada calculado para incitar a fadiga da reflexão; investigações topográficas deveriam ser dispensadas por completo, e nenhuma pergunta levantada sobre quem dotara tal igreja ou erguera tal palácio. Devíamos avançar, ou antes rastejar, em etapas curtas e fáceis, parando para comer, cear e repousar tão confortavelmente quanto na mais acolhedora das casas. Tudo que pudesse ser pensado, ou até mesmo sonhado, para nossa conveniência e relaxamento deveria ser carregado em nosso séquito, e nada deixado para trás a não ser o Cuidado e a Dor, dois espectros que se ousassem montar em nossos ombros seriam expulsos com mão altiva pelo Prior de São Vicente, a cuja companhia deleitável nada existiu de comparável desde os dias daqueles refinados e gráceis cônegos e cardeais que formavam tamanha galáxia de talento e entretenimento ao redor de Leão X.

Fomos formidavelmente perturbados durante o nosso repasto, sobre o qual o discurso gaio do Prior de São Vicente lançava seu brilho usual, por uma algazarra no litoral, tumulto que mostrou-se perfeitamente incômodo. O espaço entre minha quinta e o mar estava inteiramente ocupado, sendo que metade da população de Belém havia comparecido para testemunhar nossa partida. Os desengonçados condutores das carroças de bagagem estavam brigando e disputando entre si pela primazia. Um dos mais precários desses veículos mal-construídos, carregando uma pesada marquise, tinha suas rodas traseiras já bem fustigadas pelas ondas. Finalmente o carro avançou, produzindo tamanha vociferação e tão ensurdecedores gritos de “Longa vida ao Príncipe!” e “Longa vida aos Marialvas, e também a todos os seus amigos!” – o que por certo incluía o inglês – que imaginei que determinariam uma dor-de-cabeça perpétua sobre o infeliz Grande Prior.

Entre os ruídos que lhe davam não pequeno motivo de incômodo cabe registrar os escandalosos bufos e relinchos de seus dois altamente mimados cavalos de carruagem favoritos, lançados em saudação a uma de minhas delicadas éguas inglesas, que tentava avançar pela multidão com um cativante ar de recato, ao mesmo tempo reservado e sentimental.

Meio rindo, meio indignado com a possibilidade de que algum coice ou arrojo infeliz pudessem privar-me dos cordiais serviços da égua, não me abstive de gritar ao Grande Prior:

– Por misericórdia, deixemos de vaguear e garatujar e avancemos se for possível por essa multidão. O senhor pode ver que perturbação ocasionou o tremendo estardalhaço que tem sido feito ao redor dessa viagem, e o resultado de tamanho excesso de superfluidades. Se estivéssemos, na verdade, partindo a fim de explorar o reino do Prestes João ou ao local semelhante onde Dom Sebastião largou seus ossos (se é verdade que acolheu-os a costa da África, e não alguma masmorra favorite do Rei Filipe), dificilmente teríamos acumulado tamanho rol de estorvos. Neste ritmo teremos ocasião de colocar nossa tenda em uso ainda esta noite, a não ser que adiemos novamente a viagem e durmamos sob meu teto em São José.

– Não, não – disse o Prior de São Vicente. – Dormiremos na minha agradável quinta no convento de Tojal. Partirei com os meus imediatamente para preparar a sua recepção.

O feito seguiu-se à palavra: seus condutores de mula estalaram seus chicotes da maneira mais imponente, seus ferradores avançaram, a multidão se dividiu e uma passagem foi aberta. O Grande Prior, ordenando que sua dormeuse o seguisse, entrou em minha enorme carruagem de viagem, e pelos esforços de seis vigorosas mulas logo chegamos a Bemfica.

Para além desse vilarejo uma alameda umbrosa, cercada de elmos, trouxe-nos a Nossa Senhora de Luz, um grande amontoado de edifícios construídos no majestoso estilo que prevaleceu durante a dominação espanhola em Portugal, porém muito danificado pelo terremoto. Dali seguimos até Lumiares, por intricadas ruas pavimentadas orladas de aloés, que alcançavam a altura de dez ou doze pés e não eram distintos em cor e formato de gigantescos aspargos.

Em Lumiares há uma quinta pertencente ao Marquês de Anjeja, na qual imensas somas têm sido dispendidas tendo em vista os sábios propósitos de pavimentar-se suas ruelas com pitorescos mosaicos de pedra (vermelho, negro e azul que formam colossais reservatórios para ouro e peixes dourados), de pintar-se suas lisas laterais de gesso em diversas cores flamejantes e de recortar-se num morro íngreme uma sucessão compacta de terraços, sob o único pretexto, devemos imaginar, de criarem-se lances de degraus de mármore desajeitadamente estreitos que comuniquem um terraço com o outro, pois não pareciam conduzir a qualquer outra área do jardim. A estrada de Lumiares até Loures estende-se ao longo de um vale, entre encostas pontuadas por plantações de grãos e pastos marcados por arbustos selvagens. O ar suave do entardecer era adorável, e o mugido dos rebanhos que desciam os morros para saciar a sede nas nascentes e fontes, depois de um dia sufocante, cheio de charme pastoril.

Escurecia quando passamos pelo vilarejo de Tojal e, cruzando a ponte sobre o rio Trancão, adentramos o domínio arborizado dos monges de São Vicente. Luzes cintilando na extremidade de uma avenida de laranjeiras conduziram-nos até a casa, um edifício baixo e pitoresco, meio casarão, meio eremitério. Nossa recepção foi verdadeiramente de tirar o fôlego, tão perfeita no que dizia respeito a todo conforto e deleite que um homem, ou mesmo clérigo, poderia desejar, que prometemos de bom grado passar o dia seguinte inteiro nessa residência cordial, e adiar nosso avanço para depois de amanhã.

William Beckford

 

Este documento faz parte da série

Lembranças de uma excursão aos Monastérios de Alcobaça e Batalha

  1. O primeiro dia
  2. O segundo dia
  3. O terceiro dia
23 de Setembro de 2006

Sonhos esquecidos: Leroy Anderson

Nostalgia, Recomendações

Permita-me reapresentá-lo a Leroy Anderson (1908-1975), ilustre desconhecido, compositor norte-americano cuja especialidade era música clássica ligeira – aquela facção pop da música de concerto caracterizada por ritmos imediatamente cativantes e melodias fáceis de digerir, e que existe a um perigoso passo da música de elevador.

Digo reapresentar porque você já conhece a música do sujeito se viu Jerry Lewis tocando seu concerto para máquina de escrever em Errado pra Cachorro (Who’s Minding the Store?, 1963).

Sem contar essa consagração universal de The Typewriter, você certamente não escapou ou não vai escapar de ouvir, em algum momento e alguma versão, outras manjadíssimas composições de Leroy – coisas como O Relógio Sincopado e a natalina Sleigh Ride.

Em sua inequívoca americanidade, Leroy Anderson é uma espécie de versão musical do pintor Norman Rockwell. Os filmes de Hollywood, embalados pelo visual idealista de Rockwell e por trilhas açucaradas como as de Leroy, ajudaram a dar forma ao irresistível mito americano. A música de Leroy já era nostálgica na época em que foi produzida, exatamente como as pinturas de Rockwell e, naturalmente, os filmes de Jerry Lewis. Juntas, essas iniciativas artísticas ajudaram a inventar uma tradição – e criaram retroativamente uma inegociável América da idade do ouro, com suas cidades pequenas, corações puros e valores imortais.

Minha composição favorita de Leroy Anderson é a singela Forgotten Dreams (“Sonhos esquecidos”, 1954), cuja melodia, nostálgica até a náusea, evoca precisamente essa era ao mesmo tempo perdida e inexistente em que ainda se sonhava com finais felizes.

Da série Música que você não ouviria se não fosse aqui:


Clipe de áudio: Forgotten Dreams, Leroy Anderson

Sáite oficial (em inglês), com biografia e outros clipes de música:
Leroy Anderson Official Website

22 de Setembro de 2006

Os outros

Fé e Crença

Joseph Cambpell, notável mapeador de mitos e discípulo de Jung, divide as religiões do mundo em dois grandes grupos, oriental e ocidental – sendo que o primeiro grupo inclui os países entre a fronteira leste do Irã e o Pacífico, o segundo todo o resto (inclusive o Oriente Médio). Essa divisão corresponde, até certo ponto, a minha divisão entre ritos circulares e religiões lineares, que resolvi estabelecer pela relação das religiões com a história.

Campbell, no entanto, prefere definir a distinção da seguinte forma: no Ocidente, Deus e o universo (o mundo, a realidade, a natureza) são coisas distintas; no Oriente, Deus e universo são indistinguíveis um do outro.

Nas religiões ocidentais, ele observa, “Deus fez o mundo, e Deus e o mundo não são a mesma coisa. Há uma distinção ontológica e essencial em nossa tradição entre criador e criatura. Isso gera uma psicologia e uma estrutura religiosa totalmente diferentes daquelas das religiões em que essa distinção não é feita”.

É uma observação arguta. As mentalidades oriental e ocidental não poderiam ser, neste sentido, mais distintas.

Identidade e relacionamento

O alvo primário das religiões orientais é despertar no homem um senso de identidade imediata com a divindade; fazer o cultuante descobrir, aturdido, que ele é parte de Deus – é, de fato, Deus – pela suficiente razão de ser parte do universo. Como Deus e universo são indistinguíveis um do outro, não teria como ser diferente.

Para as religiões ocidentais, por outro lado, existe uma tremenda distância entre Deus e o universo sua criação. Embora o homem em particular tenha sido feito “à imagem e semelhança de Deus”, uma identidade imediata com ele (“eu sou Deus”) é tida em geral como inconcebível e criminosa. Como alternativa, o adorador é convidado a estabelecer um relacionamento satisfatório com a divindade, o que é obtido tipicamente pela submissão do adorador a um conjunto de regras que crê-se delimitam a vontade divina para a conduta humana.

Identidade com Deus ou um relacionamento com ele, é a precisa distância entre a religião do oriente e o ocidente.

A distância até Deus: você e o outro

As religiões monoteístas ocidentais (atenção à chamada: zoroastrismo, judaísmo, cristianismo, islamismo) são relativamente recentes na história e nasceram todas no Oriente Médio (razão pela qual, historicamente, a região é ao mesmo tempo o eixo que une e a espada que divide o ocidente).

Há quatro mil anos, como já vimos mais de uma vez, a idéia de um Deus que fosse inteiramente outro e ao mesmo tempo desejasse um relacionamento com os seres humanos, embora nos pareça hoje um tanto démodé, era tremendamente avant-garde.

Conforme sugere Campbell, esse novo conceito de Deus – distanciado e distinto mas ao mesmo tempo interessado em imitação e contato – gerou uma psicologia totalmente nova. Com o andar da carruagem, acabou gerando a cabeça ocidental – com espaço para responsabilidade pessoal, reflexão, culpa e obsessão com resultados.

Ainda mais importante, Deus tornou-se um espelho e um emblema efetivo para o Outro. Enquanto nas religiões orientais o enigma do Outro é respondido imediatamente pela resposta da identidade, no ocidente a máscara do Outro foi vestida por Deus. Ele é alguém com quem podemos nos degladiar e a quem devemos prestar contas; é alguém que podemos escolher ignorar, amar ou repudiar; é o personagem, em suma, que guarda o tremendo e inconcebível mistério de não ser nós mesmos.

Em muitos sentidos, portanto, o relacionamento do homem com Deus (o Outro por excelência) é nessa visão estabelecido e mantido pelo nosso modo relacionamento com os outros (de quem Deus é emblema). Veja-se, por exemplo, mandamentos como “não matarás” e as leis da Bíblia Hebraica projetadas para proteger os estrangeiros.

Apenas nas religiões ocidentais, portanto, vem à tona a necessidade de salvação, desconhecida no oriente e entendida aqui como reconciliação necessária com o Outro.

Nascimento e morte da instituição: a plenitude dos tempos

O problema essencial com as religiões ocidentais, acredita Joseph Campbell, é que nelas o modo encontrado para estabelecer-se um relacionamento com Deus é mediado fatalmente por uma instituição. O sujeito não tem como relacionar-se com Deus diretamente; alguma instituição ou contrato social (quer seja a sinagoga, a igreja, a mesquita, os mandamentos, o confessionário ou a oração voltada para Meca) age como intermediário, interpondo-se incessamente entre o homem e Deus.

Essa distância adicional (que naturalmente inexiste nas religiões orientais) gera o que Campbell chama de “dissociação mítica”, em que o sujeito acaba sentindo-se ainda mais dissociado da experiência do Deus transcendental do que estaria sem a instituição que existe oficialmente para ligá-lo a ele.

Todos os profetas e messias tomaram sobre si a sobrehumana tarefa de resolver essa dissociação, mas nenhum como Jesus – que no momento que o Apóstolo chama de “a plenitude dos tempos” pisou a terra fazendo três coisas: primeiro, deixou muito claro que o tempo de relacionar-se com Deus através de instituições, se é que existira, tinha chegado a um sonoro fim (“Podes crer-me que a hora vem quando nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. A hora vem, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade”). Assim entenderam-no, como demolindo a religião institucional, todos os escritores do Novo Testamento, do que dão testemunho a decisão do concílio de Jerusalém (registrada no livro de Atos), a longa explanação que é o livro de Hebreus e todas as fúrias de Paulo.

O modo de relacionar-se com Deus inaugurado por Jesus é, subversivamente, intermediado não por uma instituição mas por uma pessoa – e essa é a segunda desconstrução que ele vem fazer. Jesus, homem, veste deliberadamente a máscara do Outro e a máscara de Deus; como resultado, ele convida a que nos relacionemos com Deus exclusivamente pelo modo como nos relacionamos com o outro, com o semelhante, com o próximo – isto é, com ele mesmo: “o reino de Deus está próximo”.

Para Jesus, tudo que existe é você e Deus; os outros são máscaras temporárias da divindade: “sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes”. Para as religiões orientais, todos somos Deus; para o Filho do Homem, Deus são os outros.

Finalmente, Jesus fornece uma inusitada ponte com o pensamento oriental, em que não nega a sua identidade com Deus (“eu e o Pai somos um”) e convida-nos incessantemente a nos tornarmos como ele “filhos de Deus” – hebraísmo que pode significar, entre outras coisas, “discípulos de Deus”, “semelhantes a Deus”, “imitadores dignos de Deus”. Na boca de Jesus a injunção de Deus na Bíblia hebraica, “sejam santos como eu sou santo”, ganha uma dimensão literal. Jesus realmente quer que sejamos como Deus, e no que Deus tem de mais peculiar: “Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos”. Ser Deus, sustenta essa visão, define-se não por ninharias como onipotência, mas pelo modo cavalheiresco como Deus relaciona-se com os outros. Porque “Deus é amor”, como está dito em outro lugar, e com ele devemos também – tremenda ousadia, do ponto de vista ocidental – ser um.

Naturalmente que Jesus não foi ouvido em nenhum dos sentidos acima; tanto o cristianismo quanto o islamismo, que vieram depois, não abriram mão da armadilha fácil da instituição e recusaram-se a definir a identidade e a intimidade com Deus pelo tratamento generoso com o próximo.

A plenitude dos tempos, que é também a ponte entre o pensamento religioso ocidental e oriental, permanece longe de ser atravessada. O reino de Deus continua próximo.

21 de Setembro de 2006

Ser e estar

Gírias e Falares, Pense comigo

Como se sabe, em inglês usa-se um único verbo, o infame to be, para duas condições que em português e outras línguas de gente não poderiam ser mais distintas uma da outra: ser e estar.

Às vezes penso que a origem da diferença entre as barbaridades perpretadas pela América contra o mundo e as barbaridades perpetradas pelo Brasil contra si mesmo está na diferença do idioma. É uma questão clara de ser e de estar. To be or to be, that is the question.

Porque, naturalmente, não pode haver psicologia mais oposta do que entre alguém que diferencia ser de estar e alguém que não. Trata-se de uma distinção filosófica fundamental, talvez A distinção filosófica por excelência, aquela entre a imanência e a transcendência, entre o temporal e o eterno, entre o infinito e o além – e que em inglês não tem como ser expressa adequadamente.

“Ser ou estar, eis a questão”.

O cara diz “I am sad” e você não tem como dizer se ele está triste ou se é um cara triste. Shakespeare diz “that is the question” e você não tem como saber se a questão em questão é temporária e localizada ou transcendente e diz respeito a todas as épocas. Talvez a melhor tradução seja mesmo a minha: “ser ou estar, eis a questão”.

Pessoalmente, não consigo imaginar como seria minha relação com um universo que não diferencie propriamente ser de estar. Se alguém pergunta se estou brabo, minha resposta pronta é “eu sou brabo,” distinção sofisticadíssima primária que em inglês é impossível fazer.

Dentre as dificuldades para um english-speaker que se dispõe a aprender o português, a bifurcação do to be não será a menor. O sujeito vê-se obrigado a recorrer a artifícios (“ser” é sempre, “estar” é temporário”) para tentar explicar a si mesmo a diferença que para nós é natural como sanduíche. Ser não é “sempre”, nem estar é “temporário”. Isso não diz nada, my dear. Ser é ser, estar é estar. Se houvesse outro jeito de dizer, o português, que é uma língua riquíssima, diria.