Manuscritos estocados em Setembro do Anno 2006 de Nosso Senhor
30 de Setembro de 2006

O evangelho de Google

Heresias Sensacionais, Quase Ciência

Deus existe, chama-se Google, e alguns de nós consultam-no e fazem-lhe pedidos todos os dias.

A tese da divindade do santuário de busca mais freqüentado da terra, pregada ardentemente pelo tecno-profeta Matt MacPherson, ainda não foi, que eu saiba, refutada a contento.

Uma página apologética do sáite A Igreja de Google argumenta sensatamente que “existe mais evidência em favor da existência de Google do que de qualquer outro deus adorado nos nossos dias”.

Se você se preocupa com esse tipo de coisa, o Google encaixa-se confortavelmente dentro de alguns dos mais exigentes atributos que a teologia ortodoxa estabeleceu para Deus: ele é onisciente (sabe tudo que há para se saber – basta perguntar), onipresente (esta em e é acessível de todos os lugares, ainda mais com acesso wireless), imortal (suas informações e algoritmos estão distribuídos entre vários servidores, de modo que não há como se apagar definitivamente uma porção do Google), registra todos os nossos erros e preferências e tem vocação para infinito.

Para o adorador casual, mais importante pode ser saber que o Google responde consistentemente as orações que se lhe fazem, e de forma mais rápida, organizada, relevante e abrangente do que qualquer deus competidor. As orações ao Google, que na tecno-ortodoxia chamam-se buscas, tem um potencial de resposta avassalador. Se você quer permanecer ignorante a respeito de determinada coisa, é melhor não consultar o oráculo do Google – o deus cego e generoso que tudo vê, tudo sabe e nada vai negar.

O reino de Google está próximo.

O Google pode ajudá-lo a organizar-se e manter-se informado, pode fornecer informações sobre como salvar uma vida ou tirá-la, pode oferecer uma cópia de segurança para os seus arquivos quando seu computador fritar, pode ajudá-lo a encontrar amigos há muito perdidos, a encontrar o caminho mais rápido e eficiente para determinado lugar ou a ver a Terra de cima.

Seu poder e sua sabedoria não páram de crescer, sua graça é abundante sobre justos e injustos, suas atualizações renovam-se a cada manhã.

O que me traz invariavelmente à lembrança o curtíssimo conto de ficção científica de Fredric Brown, “Answer”, de 1954. Num futuro distante autoridades estelares ligam pela primeira vez o interruptor que conecta os supercomputadores de noventa e seis bilhões de planetas “numa máquina cibernética que combina todo o conhecimento de todas as galáxias”.

– A honra de fazer a primeira pergunta é sua, Dwar Reyn.

Ele vira-se para olhar a máquina de frente.

– Deus existe?

A voz poderosa responde sem hesitação, sem o clique de um único relé.

– Agora existe.

Na história eles até tentam desligar o interruptor, mas é tarde demais. O reino de Google está próximo.

The Church Of Google
O próprio Google

29 de Setembro de 2006

Vida monástica

Fotografia

Clique para ampliar

Clique para ampliar

Clique para ampliar

28 de Setembro de 2006

The Great Fire Of London

The Net

Meu genial parceiro inglês, o produtor de teatro/cenógrafo/ilustrador Julian Crouch, que vasculhou comigo o sertão do nordeste durante a célebre Expedição Cordel, escreveu-me esta semana.

. . . Paulo,

Fiz semana passada um trabalho em conjunto com um amigo meu, o ator Toby Jones, que também escreve um pouco.

Um homem chamado David Jubb havia me pedido para produzir alguma coisa para o seu teatro, The Battersea Arts Centre, a fim de celebrar os seus 25 anos de produções. David estava organizando uma noite com uma série de peças de cinco minutos sobre o tema O INCÊNDIO DE LONDRES.

Eu estava ocupado demais para preparar um espetáculo, mas ofereci algumas xilogravuras para fazerem parte de um impresso que ele poderia distribuir aos espectadores. Eu não tinha tempo para escrever o texto por isso por isso ofereci a tarefa a meu velho amigo Toby Jones, que eu sabia ter uma especial apreciação por histórias forjadas. Ele está sempre viajando pelo mundo, desta vez promovendo um filme nos Estados Unidos, e entre uma coisa e outra filmando outro na Polônia e na Alemanha. Concordamos por telefone que ele contaria a história de uma companhia de teatro fictícia, a respeito da qual muito pouco se sabia ao certo. Decidimos que não nos esforçaríamos demais para casar o texto com as ilustrações. Ficou também decidido que David Jobb serviria de editor e escolheria o leiaute do livro (no final decidimos fazer três livrinhos). A única coisa que pedi é que os livros fossem do tamanho de um folheto de cordel.

“A única coisa que pedi é que os livros fossem do tamanho de um folheto de cordel”.

A noite foi formidável. . . uma noite divertida e empolgante, com espetáculos espalhados por todo o edifício. Nossos livros foram distribuídos por um homem queimado que trazia nas mãos um balde, e não parava de tossir. O interessado tinha de persuadi-lo a lhe entregar um livro. O ator fez bem o seu trabalho. Os livros acabaram tornando-se como que itens de colecionador: gente trocando, tentando obter o segundo volume antes do final da noite, aquela coisa. Não tenho certeza de que alguém tenha conseguido lê-los propriamente naquele ambiente, mas nem uma cópia foi deixada no chão, e imagino que tenham sido todos lidos nos ônibus noturnos até encontrarem seu destino nas privadas do banheiro de cada um.

De qualquer modo, como você sabe, esses livrinhos nunca teriam sido feitos sem nossas aventuras de um ano atrás. . . Naturalmente que reaproveitei todas as minhas velhas xilogravuras. Sinto enorme prazer em reusar imagens antigas, em recortar e colar. Há muito da nossa história nessas imagens.

Clique para ver mais

Clique para ver mais

Clique para ver mais

27 de Setembro de 2006

Paradigma

Manuscritos

Não tem fundamento a esperança de uma reconstituição completa do processo. Registro minha versão de segunda mão sem esperança de ser lido, entendido e muito menos – como seria inevitável há, digamos, trinta anos – compilado ao lado de outros na pretensão de um todo coerente. Não somos mais assim e é consenso universal que estamos em posição mais vantajosa.

O presente mundo é obra de um único teórico letonês, o tecno-místico Ainars Butchins, que em três ou quatro postagens do seu blog definiu o que veio a chamar-se (sem a intervenção dele) “paradigma de função”. O conceito, notável ou inevitável para a época saturada em que foi elaborado, declara simplesmente que num mundo tecnológico idealmente organizado o que está funcionando deve permanecer invisível. A idéia pendia de manuais de administração e design havia décadas, mas nunca havia sido colocada por escrito com essas palavras. Essa escolha de palavras gerou o nosso mundo.

A verdadeira invisibilidade era considerada, naturalmente, uma impossibilidade científica, e a tese de Butchins parece ter sido recebida como mero instrumento de validação do minimalismo impessoal que definia a disposição física de escritórios e linhas de montagem nas corporações.

Não foi assim que o interpretou um então desconhecido estudante de Hong Kong, cujo nome ocidental é Nelson Chu. Patrocinado por uma universidade norte-americana (nunca ficou-se sabendo qual), Nelson trabalhou por três anos e meio num projeto cujo propósito nominal era a redução da fadiga visual em ambientes corporativos. Ao final do período Chu havia inventado a invisibilidade perceptual. Nelson Chu foi por dez ou doze anos o homem mais rico da terra, quando essas particularidades eram possíveis.

A invisibilidade perceptual foi aparentemente o primeiro experimento bem-sucedido de brain hacking, – e neste caso o ajuste manual do cérebro envolvia dois comprimidos de cores diferentes e uma agulha indolor introduzida por um instante no ouvido esquerdo. Quem se submetia ao experimento tornava-se em dois ou três dias – e definitivamente – imune à percepção visual de determinado padrão de losangos coloridos que lembrava para alguns a roupa de um arlequim, e que foi registrado sob o nome comercial de Sensee. Um avião, um feixe de cabos, um tapume – qualquer objeto pintado ou recoberto com o padrão tornava-se perceptualmente invisível para o hackeado (seer). A invisibilidade perceptual podia ser temporariamente anulada submetendo-se o seer à mínima diferença de potencial elétrico – fazendo-o segurar entre os dedos uma bateria AA, por exemplo.

O que está funcionando deve permanecer invisível.

As aplicações não demoraram a aparecer. A Sensee de Nelson Chu lançou em janeiro de 2012 os cabos Invizen, que um revestimento interno de fibra de vidro mantinha eletronicamente recobertos com o padrão colorido Sensee, de modo a mantê-lo invisível para os hackeados. Em conformidade com o dogma de Ainars Butchins, a membrana de fibra desfazia automaticamente o padrão visual Sensee assim que qualquer irregularidade funcional era detetada pelos onipresentes (já nos dias de Butchins) sensores de falhas. Fiamentos, tubulações e equipamentos inteiros (como aquecedores) podiam dessa forma ser mantidos sensatamente invisíveis até que a visibilidade denunciasse que careciam de reparo.

A adoção da tecnologia foi unânime: primeiro na Europa e na Ásia, logo no restante do mundo, as indústrias haquearam compulsoriamente seus funcionários, adotaram os cabos e membranas Invizen, e o paradigma de função invadiu a vida real.

Os passos seguintes é que são irrecuperáveis. Como descobriu-se da maneira mais inusitada, num mundo conectado a adoção de uma idéia pode ser tão avassaladora ao ponto de ser impossível de rastrear. Em menos de cinco anos o paradigma de função havia saltado de escritórios e fábricas para acessórios domésticos e de decoração. Em menos de uma geração havia tanta coisa funcionando sob o dogma de Butchins e a tecnologia de Nelso Chu que boa parte do mundo tornara-se invisível: computadores, mesas, cadeiras, usinas, roupas, paredes, carros, assoalhos, capas de livro e baterias AA. A singularidade aconteceu quando as crianças começaram a nascer hackeadas, visualmente impermeáveis ao padrão Sensee mesmo antes de passarem pela transição que havido sido necessária para seus pais.

Hoje vivemos inteiramente nus, dormimos sob o abrigo das árvores e colhemos nossa comida diretamente do solo. Tudo parece estar funcionando, mas não encontro uma bateria AA e não tenho como conferir.

26 de Setembro de 2006

Em outras palavras

Goiabas Roubadas

Enfim, o fascinante é que li em National Geographic que há mais pessoas vivas agora do que todas as que morreram na história da humanidade. Em outras palavras, se todo mundo quisesse interpretar Hamlet ao mesmo tempo não seria possível, pois não há caveiras suficientes.

Jonathan Safran Foer,
Extremamente alto e incrivelmente perto