Manuscritos estocados em Julho do Anno 2006 de Nosso Senhor
21 de Julho de 2006

Morretes

Brasil, Fotografia

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Tenho fascínio irrestrito por cidades que se espraiam à margem de rios, especialmente as que tem a decência de manterem-se pequenas e subdesenvolvidas.

Passei em Morretes, que fica a meio caminho das praias para quem desce a Serra do Mar pela Estrada da Graciosa, parte do dia e a noite de quarta para quinta-feira desta semana. Anoitecia e a energia elétrica da cidade inteira começou a falhar ocasionalmente, como se Deus brincasse irrefletidamente com um imenso interruptor. Em determinado momento, enquanto eu caminhava pela rua principal, a luz acabou de vez e quedei perplexo diante do espetáculo da escuridão completa e surreal que engoliu as calçadas de pedra, as casas velhas que nascem sem quintal diretamente na rua, os pedestres voltando para casa e as banquinhas de xis-salada. Debaixo de um canteiro obscenamente belo de estrelas, começamos a assobiar para não atropelarmos uns aos outros, pois éramos cegados periodicamente pela luz eventual dos faróis dos carros. De vez em quando perolava um vagalume, um satélite cruzava o céu, ardia o cigarro de uma bicicleta que passava.

Nessa treva acolhedora, passando por um botequim ou outro iluminado por vela, caminhei de volta para o Hotel Nhundiaquara, onde aguardava um quarto com pé direito impossivelmente alto, como se falasse de uma época em que a terra era habitada por gigantes.

A queda da noite, vista da janela do quarto do hotel
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Os morros de Morretes na manhã de quinta-feira
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O quarto do Hotel Nhundiaquara,
com pé direito de quatro metros de altura

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20 de Julho de 2006

Os sanguessugas evangélicos

Fé e Crença, Goiabas Roubadas

O Brasil descobriu que tem lobos vestidos de pastores; uma corja imunda. São os políticos evangélicos que gatunaram o Ministério da Saúde; testas-de-ferro de igrejas, apóstolos e bispos mentirosos que afirmavam haver necessidade de eleger crentes para o Congresso Nacional com um discurso de que almejavam os interesses do Reino de Deus.

Por favor, não insistam em me pedir que seja misericordioso com esses ratos alados: eles sugaram o sangue de brasileiros pobres. A única sugestão que tenho para eles é que cada um amarre uma corda no pescoço e se jogue de uma ponte para dentro de qualquer esgoto.

Por favor, não insistam comigo. Não serei compreensivo. Estou enfurecido. De nada me valerão argumentos de que esses políticos evangélicos podem ser escuma fétida, mas que pregam uma mensagem libertadora. Não tolero mais ouvir essa desculpa. Não acredito que a causa evangélica precise conviver com tanta ignomínia, desde que “salve almas”. Nenhuma “salvação” seria tão excelente que justifique essa indecência que veio à tona, mas que há tempos corre frouxa nos porões das mega “empresas-igrejas” que mercadejam esperanças.

Por favor, não insistam em me dizer que esses políticos foram inocentes úteis, ludibriados por máfias poderosas. Ora, ora, qual o grande discurso triunfalista evangélico, repetido até cansar? “Somos cabeça e não cauda!”. E agora? Depois que se ouviu tanto que a presença de políticos crentes no Congresso salgaria o Brasil, como se organizará a próxima “Marcha pela Salvação da Pátria?”.

Por favor, não insistam em me dizer que os ladrões são poucos, e que não representam o perfil evangélico. A bancada evangélica foi a maior desse escândalo das ambulâncias superfaturadas. Os crentes lideraram essa gigante maracutaia.

Se alguma igreja, que elegeu um desses congressistas, tivesse um mínimo de brio humano (nem precisaria ser brio cristão), deveria retirar do ar seu programa de televisão; pedir um tempo; expulsar seus políticos; prometer que jamais tentará eleger alguém; e fazer uma Reforma em sua teologia. Porém, sabe-se que isso jamais acontecerá, o que eles menos têm é vergonha na cara.

Por favor, não insistam em me pedir que algum dia me sente em qualquer evento, simpósio ou conferência na companhia dessas igrejas, ou que argumente sobre suas teologias e mentalidades. A Bíblia me proíbe de sentar na roda dos escarnecedores. Não devo considerá-los irmãos; esses pastores, bispos e apóstolos devem ser encarados como escroques, que merecem mofar na cadeia o resto da vida.

Por favor, não insistam que eu me cale diante de engravatados de Bíblia na mão, quando sei que eles tentam esconder sua condição de sepulcros caiados. Neles, cabe a carapuça de raça de víboras; mataram velhinhos, condenaram crianças e acabaram com os sonhos de muitas mães. Igrejas que se beneficiaram do esquema de roubo do orçamento da saúde merecem ser sepultadas numa vala comum, e tratadas com o mesmo desprezo que tratamos as empresas de fachada do narcotráfico.

Por favor, me acompanhe em minha indignação. Os líderes evangélicos não podem permanecer de braços cruzados, corporativamente defendendo meliantes fantasiados de sacerdotes.

Por favor, não esperemos que um próximo escândalo nos acorde de nossa complacência.

Há necessidade de uma reforma ética entre os evangélicos.

E ela tem que ser urgente.

Soli Deo Gloria.

Ricardo Gondim

Leia também:
Os evangélicos e a impunidade

20 de Julho de 2006

Terno de reis

MP3

Em 1987, assim que cheguei de Bauru e mudei-me para o apartamento da Souza Naves onde moravam minhas irmãs, encontrei na estante da sala um improvável livro (creio que pertencia à Isa) sobre cantos populares do Brasil. Abri ao acaso e encontrei o seguinte verso:

Agora mesmo chegamos
Na beira do seu terreiro
Para tocar e cantar
Licença peço primeiro

Imediatamente veio-me à mente uma melodia para o verso, melodia que permaneceu rolando num canto da minha cabeça, junto com essas quatro linhas, por quase vinte anos (foi só muito mais tarde que fiquei sabendo que a quadrinha é a primeira de um extensa série cantada tradicionalmente na celebração do terno de reis).

Vivi esperando uma ocasião para colocar a música por escrito ou gravá-la; como ocasião melhor não veio, aproveitei uma recente visita do lendário quarteto Fieri Palpiti para gravar na Capelinha de Melão do Monastério uma brevíssima versão daquilo a que espero dar um dia forma mais definitiva.

Com vocês, o quarteto tocando uma única estrófe do terno.

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THE FIERI PALPITI QUARTET
Giovanni Luppo, Violino
Elio Cortese, Viola
Arturo Carnelli Cortese, Violoncelo
Giuliano Trota, Contrabaixo

19 de Julho de 2006

Os dois soldados

Manuscritos

Certo rei queria recompensar a bravura de dois de seus melhores soldados. Ele mandou-os então, sem nada suspeitarem, a uma região remota do reino, onde encontraram um touro morto e um mensageiro do rei.

– O rei deseja recompensar a sua lealdade – anunciou o mensageiro, estendendo a cada um uma faca. – Para tanto, ele manda avisar que pertencerá a cada um de vocês qualquer extensão de terra do reino delimitada pelo couro deste único touro, desde que concluída a demarcação de ambos os lotes até o nascer do sol de amanhã. Amanhã cedo o rei em em pessoa comparecerá para os agradecimentos formais.

Ouvindo isso, um dos soldados atirou-se imediatamente sobre o touro e começou depressa a esfolá-lo. Ele cortou a pele do animal em tiras finas, e dividiu as tiras resultantes em tiras ainda mais finas, até que restaram filamentos muito delgados que ele por fim amarrou um ao outro, formando um comprido cordão. Clareava quando o soldado terminou de usar esse cordão para delimitar uma bela área na base de um morro próximo.

O outro soldado nada fez além de observar, e quando o rei chegou interpelou-o:

– Ingrato! Você zomba da minha generosidade? Estou vendo ali meu outro soldado em pé sobre o belo terreno que demarcou com a pele do animal. E você? O que fez o dia todo e a noite toda?

– Ingratidão alguma, majestade, ainda mais diante de desfecho tão favorável. Sua majestade determinou que pertenceriam a nós as terras delimitadas pelo couro do touro morto. Meu companheiro está em pé sobre a porção do reino que escolheu e que lhe cabe. O resto é meu.

18 de Julho de 2006

Ficando no shopping

Sketchbook

Uma menina e um casal nas mesas do shopping Curitiba.

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