Manuscritos estocados em Julho do Anno 2006 de Nosso Senhor
26 de Julho de 2006
Os teólogos definem a eternidade como a simultânea e lúcida possessão de todos os instantes do tempo e declaram-na um dos atributos divinos. [J. W.] Dunne, assombrosamente, supõe que já é nossa a eternidade, e que os sonhos de cada noite o corroboram. Neles, segundo ele, confluem o passado imediato e o imediato porvir. Na vigília recorremos à velocidade uniforme do tempo sucessivo, no sonho abarcamos uma zona que pode ser vastíssima. Sonhar é coordenar vislumbres dessa contemplação e urdir com eles uma história, ou uma série de histórias. Vemos a imagem de uma esfinge e a de uma farmácia e inventamos que uma farmácia se converte em esfinge. Ao homem que amanhã conheceremos atribuímos a boca de um rosto que nos fitou anteontem… (Já Schopenhauer escreveu que a vida e os sonhos são páginas de um mesmo livro, e que lê-las em ordem é viver, folheá-las é sonhar).
A vida e os sonhos são páginas de um mesmo livro: lê-las em ordem é viver; folheá-las é sonhar.
Dunne assegura que na morte aprenderemos o manejo feliz da eternidade. Recobraremos todos os instantes da nossa vida e poderemos recombiná-los como bem quisermos. Deus e nossos amigos e Shakespeare colaborarão conosco.
Jorge Luis Borges, Otras Inquisiciones

25 de Julho de 2006
Certo de estar a ponto de ferir a sensibilidade de alguns, quero deixar clara minha posição sobre determinado assunto: o Estado de Israel não representa qualquer continuidade, mesmo que honorária, com a tradição religiosa judaico-cristã registrada nas duas metades desiguais da Bíblia. Historicamente e espiritualmente falando o Estado de Israel não representa a religião que se convencionou chamar de judaísmo, e creio que pelo menos lá todos sabem disso. Há muitos judeus devotos ao redor do mundo, muitos desses em Israel, mas não cabe identificar israelitas com israelenses ou o associar o Estado de Israel à Terra Prometida (e muito menos ao reino de Davi); qualquer tentativa em contrário é engano ou esforço de marketing e de relações públicas, sendo esses últimos patrocinados em grande parte pelos Estados Unidos, com o consentimento embaraçado de Israel.
Tenho amigos em Israel e estou muito longe de ser anti-semita; tenho também queridos amigos muçulmanos, e não sou ingênuo o bastante para crer que a tensão entre Israel e o mundo árabe seja simples de recapitular, de equacionar, de assimilar ou de solucionar. Também não tenho qualquer antipatia pelos israelenses que não são judeus, e tampouco creio haver qualquer diferença de mérito entre as categorias igualmente arbitrárias que acabo de mencionar.
Amai, pois, o estrangeiro, porque fostes estrangeiros na terra do Egito.
Tenho ainda a dizer que apenas as guerras me enfurecem mais do que Estados e nações; apenas as guerras soam-me mais atrozes e arbitrárias do que rótulos.
Mas a guerra é um demônio que não pára: seu emblema é o símbolo alquímico das duas salamandras devorando incessantemente uma a cauda da outra. O terrorista de um lado é o herói da resistência do outro. Cada ataque confirma as piores suspeitas que um adversário tem do seu antagonista; cada ofensiva é redimida com novos recrutamentos, que garantem a perpetuação do conflito. Os Estados Unidos permanecem liberando indiscriminadamente o Iraque, fomentando indignação igualmente justificada entre muçulmanos letrados e chãos. Israel, sentindo-se ameaçado como nunca pelo Hezbollah (que é por sua vez patrocinado por implacáveis rancores iranianos e sírios), está atacando de formas sujas e limpas palestinos e libaneses – que estão longe de ser inocentes, mas que morrem com a facilidade atroz de qualquer um – enquanto na América cristãos queimam cópias do Corão em austera homenagem ao Príncipe da Paz. Morrem quase quatrocentos libaneses num único dia da semana passada, ao mesmo tempo em que os israelenses abandonam em massa o norte do país temendo velhos ataques e novas retaliações.
* * *
É comum associar o cristianismo e a mensagem de Jesus a uma compreensão nova, inclusiva e compassiva sobre a natureza do “outro”. Isso é em grande parte muito acertado, mas é bom lembrar por exemplo que “amai o próximo como a ti mesmo” é injunção da Bíblia hebraica – curiosa exigência que precede a Jesus e da qual o judaísmo não prescinde.
Se Deus não faz acepção de pessoas, todos os genocídios são o mesmo.
Na verdade, são inúmeros os mandamentos da Lei de Moisés explicitamente desenhados para proteger o desavisado outro – o estrangeiro – que se encontrasse em terras de Israel. E o motor dessa tolerância, o declarado motivo para essa misericórdia, deveria ser segundo o texto a recorrente lembrança do passado de Israel como povo estrangeiro e oprimido no Egito, antes do Êxodo e da independência e da Lei: “amá-lo-eis como a vós mesmos, pois estrangeiros fostes na terra do Egito”.
O israelita é dessa forma desafiado constantemente pela sua Lei a recordar a abjeção da sua condição anterior, bem como a dispensar ao estrangeiro a misericórdia que no passado não obteve:
- Não rebuscarás a tua vinha, nem colherás os bagos caídos da tua vinha; deixá-los-ás ao pobre e ao estrangeiro. Eu sou o SENHOR, vosso Deus.
- Quando segardes a messe da vossa terra, não rebuscareis os cantos do vosso campo, nem colhereis as espigas caídas da vossa sega; para o pobre e para o estrangeiro as deixareis. Eu sou o SENHOR, vosso Deus.
- Se o estrangeiro peregrinar na vossa terra, não o oprimireis.
- Como o natural, será entre vós o estrangeiro que peregrina convosco; amá-lo-eis como a vós mesmos, pois estrangeiros fostes na terra do Egito. Eu sou o SENHOR, vosso Deus.
(Levítico 19:10, 23:22, 19:33-34)
Outras passagens sustentam que o verdadeiro patrocinador desse amor tolerante pelo estrangeiro/outro é o caráter singular de Deus, que não aceita suborno e não faz distinção entre as pessoas:
- Pois o SENHOR, vosso Deus, é o Deus dos deuses e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e temível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita suborno;
- que faz justiça ao órfão e à viúva e ama o estrangeiro, dando-lhe pão e vestes.
- Amai, pois, o estrangeiro, porque fostes estrangeiros na terra do Egito.
- Não aborrecerás o edomita, pois é teu irmão; nem aborrecerás o egípcio, pois estrangeiro foste na sua terra.
- Não perverterás o direito do estrangeiro e do órfão; nem tomarás em penhor a roupa da viúva.
- Quando acabares de separar todos os dízimos da tua messe no ano terceiro, que é o dos dízimos, então, os darás ao levita, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva, para que comam dentro das tuas cidades e se fartem.
(Deuteronômio 10:17-19, 23:7, 24:17, 26:12)
Porém o mundo dá voltas, e os palestinos são hoje hóspedes impossivelmente incômodos dos israelenses, da mesma forma que Israel é refém do mundo árabe, embora conte com a proteção dos americanos, graças aos quais os iraquianos são também estrangeiros em sua própria terra. Só me resta pedir que Deus proteja os estrangeiros que são todos, porque não posso esperar que judeus e cristãos e muçulmanos honrem suas Escrituras ou neguem sua história.
* * *
Ninguém me venha, finalmente, acusar de anti-semitismo: se Deus não faz acepção de pessoas, todos os genocídios são o mesmo. Quanto a judeus e cristãos e muçulmanos que derramam sangue ao mesmo tempo em que alegam possuir alguma intimidade com a Misericórdia, façam-me um favor: vão para o inferno.
Maldito aquele que perverter o direito do estrangeiro, do órfão e da viúva. E todo o povo dirá: Amém! (Deuteronômio 27:19)
23 de Julho de 2006
É cedinho e encontro-me abrigado pela sombra de uma serra distante coberta de mato, sob um céu púrpura fustigado selvagemente por criaturas que não são pássaros.
Essa terra que não é ainda a terra que procuro é todo relógio de que preciso: marquei um encontro com o homem e cheguei alguns milhões de anos cedo demais. Observo esse mundo completo em si mesmo e registro uma resignada frustração mental: apesar da agitação da carne que se derrama contra carne e dos berros dos que comem e expiram, é uma esfera silenciosa e solitária para quem buscava curar-se das duas coisas.
Fico imediatamente em dúvida quanto ao movimento a tomar em seguida. Sessenta e cinco milhões de anos passam voando, mas começo a me arrepender de não ter trazido comigo algum livro.
Ajeito minha postura e encontro algum consolo na perspectiva singular do viajante: o paradoxal privilégio de pisar terreno que os habitantes de seu almejado destino para sempre desconhecerão. Este então é um mundo que o homem não chegará a ver.
Ao fim da minha jornada restarão dos mais onipotentes dinossauros apenas pó e fragmentos, peças de um ou outro esqueleto sobre as quais talvez nem mesmo a inquietude do homem será capaz de recompor os padrões da carne, quanto mais a indescritível pele e as indescritíveis cores. Perda maior para a imaginação da humanidade deverá ser o extravio dos enormes sogos, que são negros e lentos e informes e viscosos e caminham sobre cinco ou seis patas montanhas de distância acima dos dinossauros, mas de cuja existência não haverá testemunho por serem mais ou menos moluscos, invertebrados transparentes para a história, que de tudo exige registro.
O sol está para surgir de trás da montanha, e avalio minhas possibilidades. Posso aguardar desperto, posso partir e deixar um sensor que me avise onde eu estiver sobre a chegada do homem, posso permanecer e refugiar-me nos meus sonhos, que são vastos e inesgotáveis e têm a vantagem de não terem sido contaminados pela linguagem.
Levanto os olhos no momento seguinte e cega-me, faíscando no centro de um labirinto de cubos, o esplendor do que não pode ser outra coisa se não a magnífica estátua de um deus. Decido imediatamente, austeramente, que percorrido todo o universo e a eternidade de uma ponta à outra, jamais vi ou verei no universo coisa que se possa comparar em rigorosa perfeição à da obra que estou contemplando. Esqueço-me da jornada e do caminho e do tempo e de quem sou e de pelo que ansiava.
Então a estátua, que está nua e de cabeça baixa, como que concentrada num ato de criação, se move impossivelmente e graciosamente e ergue a cabeça e meus olhos enchem-se de lágrimas que jamais deixarão de fluir, porque entendo que está viva e que é um ser humano, e o homem é tão insuportavelmente belo que é horrendo o privilégio de ser exposto a ele, e esse único instante bastará para anular para sempre qualquer independência da minha memória e da minha imaginação. Não serei capaz de pensar em outra coisa, e não o desejo. O homem se agacha para pegar alguma coisa do chão, flexionando pernas, braços e pés; ele senta-se diante de um cubo; ele cobre o corpo e sai e volta e despe-se novamente; ele apara os pêlos do rosto e escreve e fala, e a baixeza da própria linguagem não o corrompe; ele corre atrás de uma esfera e estende os músculos das costas, ignorante de que é mais reluzente e original e santo que todos os sóis e que sua voz é a voz geminada da criação e do criador – e eu, que vi o nascer e morrer de incontáveis estrelas; que vi majestosos choques de galáxias, que se estendem por dezenas de bilhões de anos; que testemunhei o entretecer de diferentes peles e de olhos pares e ímpares de um extremo a outro do universo; que vi a beleza do tempo e das extinções e das ressurreições e de toda a graça, quedo silente, absolutamente cativo, incapaz de qualquer pensamento original. Eu, que pensava ter visto toda permutação possível de carne e graça, de pêlos e mucosas, de membranas e imaginação, de cores e espírito e movimento, jamais vi o que se possa comparar ao homem. Porque o homem é generoso e criativo e compassivo e flexível e suave e áspero e inesperado e controverso e inconsistente e múltiplo e musical e forte e indomável e terrível e exigente e inconseqüente e prolífico e sensual e vulnerável e proporcional e bom e barro e obscenamente perfeito e horrendo em potencial e indistingüivel de Deus e em momento algum acima dos animais.
Antes de fechar os olhos para sempre (visto que guardam a única visão concebível e a única necessária) entendo que caí no sono por um momento e que quando acordei o homem havia se levantado sobre a terra. Eu não estava desperto para fazer-me conhecido, por isso sou invisível para ele. Naturalmente nada disso têm importância ou retém qualquer correspondência com a realidade, porque contemplei um único homem e essa moeda singular me suprirá por todas as eternidades mais uma. É-me concedida no último momento uma revelação de quem me criou e com que propósito, e saboreio sem ressentimento a ironia. Basta-me ter participado por um instante da infinita variedade que se chama o Universo; recolho-me à expectativa da companhia do homem, condição que se chama Suficiência e o Paraíso.
22 de Julho de 2006
Qual dos dois fez a vontade do pai? Mateus 21:31
Certo salvador, depois de sua ressurreição, descia de Jerusalém quando veio a cair em mãos de salteadores, que queriam roubar-lhe tudo, causar-lhe muitos ferimentos e deixá-lo como morto. Escapando deles, o salvador tomou uma vereda próxima que levava secretamente ao Paraíso, mas seu testamento caiu na beira da estrada, onde ficou por dois mil anos.
Casualmente, subia um católico por aquele mesmo caminho, e vendo o testamento, pisou-o e seguiu adiante. Semelhantemente, um evangélico subia por aquele lugar e, vendo o testamento, também passou-lhe por cima.
Certo ateu, que seguia o seu caminho, passou perto do testamento e, vendo-o, compadeceu-se, dizendo:
– Esse era um homem bom e bem-intencionado, e suas idéias eram belas e ousadas. É injusto que seu testamento permaneça sem ser cumprido.
E, chegando-se, tomou o testamento e levou-o consigo para sua cidade, onde cumpriu os últimos desejos do salvador em que não cria, atentando para eles e reparando-lhe a honra.

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