Manuscritos estocados em Julho do Anno 2006 de Nosso Senhor
23 de Julho de 2006
É cedinho e encontro-me abrigado pela sombra de uma serra distante coberta de mato, sob um céu púrpura fustigado por criaturas que não são pássaros.
Essa terra que não é ainda a terra que procuro é todo relógio de que preciso: marquei um encontro com o homem e cheguei alguns milhões de anos cedo demais. Observo esse mundo completo em si mesmo e registro uma resignada frustração mental: apesar da agitação da carne que se derrama contra carne e dos berros dos que comem e expiram, é uma esfera silenciosa e solitária para quem buscava curar-se das duas coisas.
Fico imediatamente em dúvida quanto ao movimento a tomar em seguida. Sei que sessenta e tantos milhões de anos passam voando, mas começo a me arrepender de não ter trazido comigo algum livro.
Ajeito minha postura e encontro algum consolo na perspectiva singular do viajante: o paradoxal privilégio de pisar terreno que os habitantes de seu almejado destino para sempre desconhecerão. Este então é um mundo que o homem não chegará a ver.
Ao fim da minha jornada restarão dos mais onipotentes dinossauros apenas pó e fragmentos, peças de um ou outro esqueleto sobre as quais talvez nem mesmo a inquietude do homem será capaz de recompor os padrões da carne, quanto mais a indescritível pele e as indescritíveis cores. Perda maior para a imaginação da humanidade deverá ser o extravio dos enormes sogos, que são negros e lentos e informes e viscosos e caminham sobre cinco ou seis patas montanhas de distância acima dos dinossauros, mas de cuja existência não haverá testemunho por serem mais ou menos moluscos, invertebrados transparentes para a história, que de tudo exige registro.
O sol está para surgir de trás da montanha, e avalio minhas possibilidades. Posso aguardar desperto, posso partir e deixar um sensor que me avise onde eu estiver sobre a chegada do homem, posso permanecer e refugiar-me nos meus sonhos, que são vastos e inesgotáveis e têm a vantagem de não terem sido contaminados pela linguagem.
Levanto os olhos no momento seguinte e cega-me, faiscando no centro de um labirinto de cubos, o esplendor do que não pode ser outra coisa se não a magnífica estátua de um deus. Decido imediatamente, austeramente, que percorrido todo o universo e a eternidade de uma ponta à outra, jamais vi ou verei no universo coisa que se possa comparar em rigorosa perfeição à da obra que estou contemplando. Esqueço-me da jornada e do caminho e do tempo e de quem sou e de pelo que ansiava.
Então a estátua, que está nua e de cabeça baixa, como que concentrada num ato de criação, se move impossivelmente e graciosamente e ergue a cabeça e meus olhos enchem-se de lágrimas que jamais deixarão de fluir, porque entendo que está viva e que é um ser humano, e o homem é tão insuportavelmente belo que é horrendo o privilégio de ser exposto a ele, e esse único instante bastará para anular para sempre qualquer independência da minha memória e da minha imaginação. Não serei capaz de pensar em outra coisa, e não o desejo. O homem se agacha para pegar alguma coisa do chão, flexionando pernas, braços e pés; ele senta-se diante de um cubo; ele cobre o corpo e sai e volta e despe-se novamente; ele apara os pelos do rosto e escreve e fala, e a baixeza da própria linguagem não o corrompe; ele corre atrás de uma esfera e estende os músculos das costas, ignorante de que é mais reluzente e original e santo que todos os sóis e que sua voz é a voz geminada da criação e do criador – e eu, que vi o nascer e morrer de incontáveis estrelas; que vi majestosos choques de galáxias, que se estendem por dezenas de bilhões de anos; que testemunhei o entretecer de diferentes peles e de olhos pares e ímpares de um extremo a outro do universo; que vi a beleza do tempo e das extinções e das ressurreições e de toda a graça, quedo silente, absolutamente cativo, incapaz de qualquer pensamento original. Eu, que pensava ter visto toda permutação possível de carne e graça, de pêlos e mucosas, de membranas e imaginação, de cores e espírito e movimento, jamais vi o que se possa comparar ao homem. Porque o homem é generoso e criativo e compassivo e flexível e suave e áspero e inesperado e controverso e inconsistente e múltiplo e musical e forte e indomável e terrível e exigente e inconsequente e prolífico e sensual e vulnerável e proporcional e bom e barro e obscenamente perfeito e horrendo em potencial e indistinguível de Deus e em momento algum acima dos animais.
Antes de fechar os olhos para sempre (visto que guardam a única visão concebível e a única necessária) entendo que caí no sono por um momento e que quando acordei o homem havia se levantado sobre a terra. Eu não estava desperto para fazer-me conhecido, por isso sou invisível para ele. Naturalmente nada disso tem importância ou retém qualquer correspondência com a realidade, porque contemplei um único homem e essa moeda singular me suprirá por todas as eternidades mais uma. É-me concedida no último momento uma revelação de quem me criou e com que propósito, e saboreio sem ressentimento a ironia. Basta-me ter participado por um instante da infinita variedade que se chama o Universo; recolho-me à expectativa da companhia do homem, condição que se chama Suficiência e o Paraíso.
22 de Julho de 2006
Qual dos dois fez a vontade do pai? Mateus 21:31
Certo salvador, depois de sua ressurreição, descia de Jerusalém quando veio a cair em mãos de salteadores, que queriam roubar-lhe tudo, causar-lhe muitos ferimentos e deixá-lo como morto. Escapando deles, o salvador tomou uma vereda próxima que levava secretamente ao Paraíso, mas seu testamento caiu na beira da estrada, onde ficou por dois mil anos.
Casualmente, subia um católico por aquele mesmo caminho, e vendo o testamento, pisou-o e seguiu adiante. Semelhantemente, um evangélico subia por aquele lugar e, vendo o testamento, também passou-lhe por cima.
Certo ateu, que seguia o seu caminho, passou perto do testamento e, vendo-o, compadeceu-se, dizendo:
– Esse era um homem bom e bem-intencionado, e suas idéias eram belas e ousadas. É injusto que seu testamento permaneça sem ser cumprido.
E, chegando-se, tomou o testamento e levou-o consigo para sua cidade, onde cumpriu os últimos desejos do salvador em que não cria, atentando para eles e reparando-lhe a honra.

Leia também: Temor e fé
21 de Julho de 2006
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Tenho fascínio irrestrito por cidades que se espraiam à margem de rios, especialmente as que tem a decência de manterem-se pequenas e subdesenvolvidas.
Passei em Morretes, que fica a meio caminho das praias para quem desce a Serra do Mar pela Estrada da Graciosa, parte do dia e a noite de quarta para quinta-feira desta semana. Anoitecia e a energia elétrica da cidade inteira começou a falhar ocasionalmente, como se Deus brincasse irrefletidamente com um imenso interruptor. Em determinado momento, enquanto eu caminhava pela rua principal, a luz acabou de vez e quedei perplexo diante do espetáculo da escuridão completa e surreal que engoliu as calçadas de pedra, as casas velhas que nascem sem quintal diretamente na rua, os pedestres voltando para casa e as banquinhas de xis-salada. Debaixo de um canteiro obscenamente belo de estrelas, começamos a assobiar para não atropelarmos uns aos outros, pois éramos cegados periodicamente pela luz eventual dos faróis dos carros. De vez em quando perolava um vagalume, um satélite cruzava o céu, ardia o cigarro de uma bicicleta que passava.
Nessa treva acolhedora, passando por um botequim ou outro iluminado por vela, caminhei de volta para o Hotel Nhundiaquara, onde aguardava um quarto com pé direito impossivelmente alto, como se falasse de uma época em que a terra era habitada por gigantes.
A queda da noite, vista da janela do quarto do hotel

Os morros de Morretes na manhã de quinta-feira

O quarto do Hotel Nhundiaquara, com pé direito de quatro metros de altura

20 de Julho de 2006
O Brasil descobriu que tem lobos vestidos de pastores; uma corja imunda. São os políticos evangélicos que gatunaram o Ministério da Saúde; testas-de-ferro de igrejas, apóstolos e bispos mentirosos que afirmavam haver necessidade de eleger crentes para o Congresso Nacional com um discurso de que almejavam os interesses do Reino de Deus.
Por favor, não insistam em me pedir que seja misericordioso com esses ratos alados: eles sugaram o sangue de brasileiros pobres. A única sugestão que tenho para eles é que cada um amarre uma corda no pescoço e se jogue de uma ponte para dentro de qualquer esgoto.
Por favor, não insistam comigo. Não serei compreensivo. Estou enfurecido. De nada me valerão argumentos de que esses políticos evangélicos podem ser escuma fétida, mas que pregam uma mensagem libertadora. Não tolero mais ouvir essa desculpa. Não acredito que a causa evangélica precise conviver com tanta ignomínia, desde que “salve almas”. Nenhuma “salvação” seria tão excelente que justifique essa indecência que veio à tona, mas que há tempos corre frouxa nos porões das mega “empresas-igrejas” que mercadejam esperanças.
Por favor, não insistam em me dizer que esses políticos foram inocentes úteis, ludibriados por máfias poderosas. Ora, ora, qual o grande discurso triunfalista evangélico, repetido até cansar? “Somos cabeça e não cauda!”. E agora? Depois que se ouviu tanto que a presença de políticos crentes no Congresso salgaria o Brasil, como se organizará a próxima “Marcha pela Salvação da Pátria?”.
Por favor, não insistam em me dizer que os ladrões são poucos, e que não representam o perfil evangélico. A bancada evangélica foi a maior desse escândalo das ambulâncias superfaturadas. Os crentes lideraram essa gigante maracutaia.
Se alguma igreja, que elegeu um desses congressistas, tivesse um mínimo de brio humano (nem precisaria ser brio cristão), deveria retirar do ar seu programa de televisão; pedir um tempo; expulsar seus políticos; prometer que jamais tentará eleger alguém; e fazer uma Reforma em sua teologia. Porém, sabe-se que isso jamais acontecerá, o que eles menos têm é vergonha na cara.
Por favor, não insistam em me pedir que algum dia me sente em qualquer evento, simpósio ou conferência na companhia dessas igrejas, ou que argumente sobre suas teologias e mentalidades. A Bíblia me proíbe de sentar na roda dos escarnecedores. Não devo considerá-los irmãos; esses pastores, bispos e apóstolos devem ser encarados como escroques, que merecem mofar na cadeia o resto da vida.
Por favor, não insistam que eu me cale diante de engravatados de Bíblia na mão, quando sei que eles tentam esconder sua condição de sepulcros caiados. Neles, cabe a carapuça de raça de víboras; mataram velhinhos, condenaram crianças e acabaram com os sonhos de muitas mães. Igrejas que se beneficiaram do esquema de roubo do orçamento da saúde merecem ser sepultadas numa vala comum, e tratadas com o mesmo desprezo que tratamos as empresas de fachada do narcotráfico.
Por favor, me acompanhe em minha indignação. Os líderes evangélicos não podem permanecer de braços cruzados, corporativamente defendendo meliantes fantasiados de sacerdotes.
Por favor, não esperemos que um próximo escândalo nos acorde de nossa complacência.
Há necessidade de uma reforma ética entre os evangélicos.
E ela tem que ser urgente.
Soli Deo Gloria.
Ricardo Gondim

Leia também: Os evangélicos e a impunidade
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