As paredes eram verdes
Manuscritos
Era uma vez um homem que viveu a vida toda sem atinar que era o Super-Homem. Quando se deu conta e saltou da cadeira de rodas, espatifou-se no chão e entendeu que tinha acabado num asilo de kriptonita.
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Manuscritos estocados em Julho do Anno 2006 de Nosso Senhor
31 de Julho de 2006
As paredes eram verdesManuscritosEra uma vez um homem que viveu a vida toda sem atinar que era o Super-Homem. Quando se deu conta e saltou da cadeira de rodas, espatifou-se no chão e entendeu que tinha acabado num asilo de kriptonita. 30 de Julho de 2006
Basílica de invernoFotografiaO termômetro deu uma boa recuada depois da chuva de ontem de madrugada, mas às nove o sol unanimemente branco já requerera o céu. Pouco antes das dez tirei esta foto da Basílica da Praça Tiradentes – queria ter fotografado por dentro mas uma placa explicava que sábado é só depois das onze. Hoje amanheceu encoberto e ainda mais frio. ATUALIZAÇÃO DAS 08h26
29 de Julho de 2006
EsquecimentoGoiabas RoubadasO nome do autor é a primeira coisa a desaparecer como se uma a uma as lembranças que você costumava abrigar Há tempo você disse adeus aos nome das nove musas alguma outra coisa está escapulindo, a árvore que simboliza um estado talvez, O que quer que você esteja lutando para lembrar, Já boiou para longe descendo o sombrio rio mitológico Não é de espantar que você acorde no meio da noite
Billy Collins
28 de Julho de 2006
O culto do ócioBrasil, SociedadeAntes de encerrar esta série sobre o papel do espírito protestante na formação e na glorificação do capitalismo (a despeito do choque muito evidente com a pregação de Jesus a respeito da acumulação de riquezas), não tenho como não enfatizar que tudo que discutimos até aqui aplica-se diretamente apenas às nações ocidentais do hemisfério norte. Nosso aquário ideológico aqui no Brasil é outro, e é apenas recentemente (digamos, sessenta anos) que a pregação americana do culto da perfomance tem alcançado verdadeira penetração entre nós – especialmente na metade meridional do país e nas capitais em geral – e, mesmo assim, com assimilação e resultados mistos. Eu não ganho pra isso.Graças a uma colonização diferente, o que professamos e praticamos aqui é uma postura virtualmente oposta a de americanos e europeus: eles têm o culto da performance, nós temos o culto do ócio. Fomos colonizados por senhores católicos e portanto latinos; o espírito protestante não deixou mais do que uma marca de dente nos anos da nossa história colonial. Nossos colonizadores criam de todo o coração em desfrutar das riquezas deste mundo, mas desconfiavam com a mesma convicção do mérito do trabalho. Sujar as mãos era coisa de escravo, e trocar a nossa roupa e dar-nos banho trabalho de criado. A agenda do senhor colonial era bocejar entediado, fazer o filho de cada dia, olhar pela janela e ver o espetáculo dos que davam o sangue para acumulhar riquezas em seu nome. O culto do ócio é a crença de que feliz mesmo é quem é rico sem ter de trabalhar. Pela sua onipresente influência, vivemos todos no Brasil a eterna expectativa de ganhar na loteria, de arranjar algum emprego público, de granjear um cargo de confiança, de encontrar o padrinho perfeito, de descansar numa aposentadoria precoce. Eu não ganho pra isso – é sua rancorosa profissão de fé.
Este documento faz parte da série O rico e seu camelo27 de Julho de 2006
Pisando em larvas (ou quase)Pormenor
Fiz a ronda antes de ontem e concluí que as lagartas malditas estavam finalmente desaparecendo do pomar: em parte por algum motivo misterioso, em parte porque o Mael fez o favor (sem ironia) de detonar trocentas com a máquina de cortar grama. Em nome da ciência, arrebanhei um punhado e coloquei num vidro com alguma folhagem com o propósito de acompanhar talvez alguma transformação (mariposa? traça? borboleta? shoggoth?) antes do desaparecimento completo dos bichos. Eu estava no entanto muito errado quanto à sanitização iminente do pomar: ontem pela manhã dezenas de [novas] falanges de lustrosas lagartas pretas avançavam obstinadamente grama afora para lugar nenhum. Aproveitei para superpopular o meu terrário, que repousa neste momento no parapeito da janela a um metro de mim. Nada ainda.
Este documento faz parte da série O ataque das larvas malditas
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os arquivos dA Bacia das Almas estocados em Julho 2006.
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