Sonhei na noite de quinta para sexta-feira que havia sido assassinado. Morri com um único tiro de trabuco no peito, pela mão de um homem triste que matou comigo outras duas pessoas, e no sonho a morte era indolor e silenciosa e vi de imediato a futilidade e a prepotência da minha tentativa de proteger da morte (como havia feito, sem sucesso) os que estavam comigo.
Logo em seguida, como nos créditos finais de um filme, o assassino desapareceu tela acima e começou a rolar um festivo clipe de música: uma multidão sempre crescente avançava pelas ruas centrais de uma grande cidade, descendo de aindames e subindo de estações de metrô, reunindo-se em grupos cada vez maiores e cantando incessantemente sob uma mesma vigorosa cadência, celebrando em perpétuo clímax uma unânime e não-vista vitória. A reviravolta está em que foi-me concedido saber que a música (talvez inédita na vida real) era de autoria do assassino; Deus ou destino exigiam que eu me dobrasse à ironia que era ser eliminado pelas mãos de quem criara música tão bonita e tão rigorosamente celebratória, e na morte e no sonho cantei e, balançando incredulamente a cabeça, sorri.
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