Nos Estados Unidos os cristãos evangélicos são freqüentemente associados a uma reputação de obtusidade. Não são conhecidos, digamos assim, pelo seu brilhantismo ou independência intelectual. Trata-se em geral de gente simplória e pouco sofisticada, direitona e tradicional, que vota no George W. Bush, que quer ver o criacionismo sendo ensinado como ciência nas escolas e lamenta balançando a cabeça a vida desregrada e as idéias de liberais yankees como Clinton (ele e ela). São republicanos, freqüentam alguma igrejinha branca todos os domingos, vivem no Cinturão da Bíblia no interior do país a fim de manter-se a salvo dos pecados do mar.
Mas não se engane: são gente bem-intencionada e correta, que defende a validade permanente dos mandamentos, todos os dez, inclusive as partes que falam em não roubar, não adulterar e não dar falso testemunho.
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Ignoro se no Brasil os evangélicos já adquiriram, tendo em vista a sua recém-adquirida visibilidade, alguma reputação tão unânime. Penso que para a vasta maioria dos brasileiros os crentes são aqueles malas-sem-alça, hare-krishnas de terno e gravata, que poluem as ondas do rádio com músicas que pedem que o rio flua e sermões que pedem que o fogo caia.
Politicamente falando, apesar do apadrinhamento dos missionários norte-americanos, muitos dos mais sonoros porta-vozes evangélicos brasileiros pendem sensivelmente (por motivos que espero poder analisar em outra ocasião) para a esquerda – porém a tendência não chega a ser unânime, como atestam os evangélicos direitões que profetizam o apocalipse comunista que desencadeará inexoravelmente o governo Lula (catástrofe que pensam poder evitar enchendo a caixa de entrada do meu email).
Permita-me associar os evangélicos brasileiros à impunidade.
Que há mais evangélicos entre as camadas mais pobres da sociedade é também fato conhecido, embora não seja dado especialmente notável, já que no Brasil a distribuição de renda é tão surrealmente desigual que qualquer fatia fortuita da sociedade, de ornitólogos a corintianos, estará fadada a conter mais pobres do que ricos.
No fim das contas, nem especialmente obtusos nem especialmente brilhantes; nem especialmente esquerdistas nem especialmente direitistas; nem especialmente pobres, nem especialmente ricos. Os evangélicos brasileiros são uma amostra aguardando classificação.
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Até agora.
Requeiro o privilégio de ser o primeiro a associar os evangélicos brasileiros àquilo que lhes é, histórica e ideologicamente, de direito: a impunidade.
Se os evangélicos norte-americanos cultivam uma relação compulsiva e para nós incompreensível com a correção e a integridade, nossa ambição ética é oposta: queremos ser incessantemente perdoados pelo que a ninguém se perdoa. Exigimos imunidade completa, anistia total e irrestrita pelas nossas patifarias, que são muitas. Queremos errar com gosto, e exigimos impunidade.
Deveria ser para nós ironia descomunal que a Reforma Protestante tenha se originado da luta de Lutero contra abusos como as indulgências católicas, conveniente sistema de créditos que permitia que o cidadão adquirisse – com dinheiro, naturalmente – perdão para as faltas que estava ainda para cometer. É irônico porque no Brasil o sistema evangélico de créditos é mais avançado: o perdão é liberado e distribuído em regime just-in-time, à medida que vamos pisando deliberadamente na bola.
Não temos como errar.
Graças a essa sofisticação teológica, refinada em solo tupiniquim, nossos evangélicos sentem-se inteiramente à vontade para defraudar, roubar, espoliar, extorquir e gatunar. Sabemo-nos livres para violar todos os dez mandamentos e aquele novo também; como o perdão flui incessantemente, não temos – mesmo que queiramos – como errar.
Meu amado Shayllon Marinho, quando era ainda atraente e agnóstico – ou seja, antes de abraçar Jesus e engordar como punição – encontrou nessa monumental patifaria evangélica um tremendo obstáculo à sua conversão. Mandou-me uma vez essas linhas indignadas:
Os evangélicos estão tão atolados no pecado e na permissividade quanto eu. Mas se justificam pela salvação. Tipo: eu posso pecar, mas minha barra é limpa. Posso [fazer tal coisa], porque eu estou salvo, e você não…
Como agente de dentro, reconheci imediatamente a eficácia e a difusão interna desse raciocínio. A teologia neo-evangélica da impunidade cobre com sua credencial todas as esferas da atividade e permeia todo o espectro de requerimentos éticos. Onde há um de nós, ninguém está seguro.
Dito de outra maneira, minha gente, a verdade é que muitos evangélicos – um número colossal deles – em todos os níveis e posições, em todas as possíveis nuanças entre a sutileza e o descaramento, são trapaceiros e ladrões – e talvez não por outro motivo além de serem evangélicos, e sentirem-se assim perdoados de antemão em suas falcatruas.
Prefiro não inquirir nomes, escândalos ou litígios específicos, mas creia-me quando digo que os há. Falo de gente muito respeitável que estabelece uma reputação como representante credenciado de Deus e pilar da comunidade e desaparece anos depois com o dinheiro que arrecadou de inúmeros outros para fins outros, deixando atrás de si incontáveis prejuízos, rancores e contas para pagar. Falo de recursos desviados, de falsidade ideológica, de empréstimos esquecidos, de transgressores transferidos para localidades distantes a fim de abafar escândalos sempre mais financeiros (e portanto aparentemente mais atraentes) do que sexuais. Falo de casos abundantes, de impensáveis reincidências, de somas assombrosas. Falo de gente que tem certeza da salvação. Falo de impunidade.
Onde há um de nós, ninguém está seguro.
Num país em que a ladroagem ameaça dos dois lados de todas as portas não deveria ser surpresa encontrá-la entre essa raça tão singular de pecadores que é a dos cristãos evangélicos. A diferença não está em se tratar de gente que faz uso de uma imagem de pureza para aproveitar-se da boa fé alheia (conduta esperada em se tratando de ladrões), mas em ser gente que se julga inocente e baterá o pé pela impunidade neste tribunal e no próximo, e evitará se puder os dois. Falo de lobos que se acreditam ovelhas e por isso abrem mão até mesmo do disfarce.
E, pense comigo, quem se protege na religião para deitar e rolar em causa própria não tem como ser melhor do que quem se abraça a uma carga explosiva e morre pelo que crê ser o avanço da sua. Ambos matam, mas haverá naquele dia mais paciência para este do que para aquele.
Nesse Brasil nosso em que a impunidade é catalisador infalível nas veias de todas as instituições (mesmo entre gente de somenos como os católicos e pagãos), cabe aos evangélicos o duvidoso mérito de termos criado uma justificação teológica e totalmente eficaz para a patifaria: a conivência de Deus.
Faz meses que tento escrever sobre isso, mas trata-se de assunto para mim tão aterrador que não encontro o jeito de criar o impacto certo.
Quero apenas mencionar, então, um momento concebível do futuro que me apavora: o fim da revista National Geographic.
A revista, carro-chefe das atividades da norte-americana National Geographic Society e também editada em português, circula desde 1888, mas num mundo pós-Google Earth não tem como subsistir indefinidamente dentro dos moldes originais. Quando todos os destinos do planeta se esgotarem, quando todas as culturas e distinções locais forem engolfadas pelo tsunami civilizatório do ocidente, quando não houver mais local que mereça o nome de inóspito, a revista dos bravos exploradores deixará de existir. Então horror será universal, e os homens pedirão que as montanhas desabem sobre as suas cabeças.
E, na eventualidade de continuar a ser publicada nesse mundo esgotado, a revista terá perdido a razão de ser, o que me parece destino ainda pior.
Posso encontrar talvez algum consolo em saber que Tolkien sentia-se como eu já em 1943:
Mas o horror particular do presente mundo jaz em que a porcaria toda está dentro de um saco só. Não há lugar algum para onde fugir. Mesmo os pobres samoiedos [siberianos], suspeito, comem comida em lata e o alto-falante da vila conta histórias pra dormir de Stalin, sobre a democracia ou sobre fascistas que comem bebês e cães-de-trenó.
Pode ser ainda necessário refletir que a porcaria toda estava dentro de um saco só já em 1888, quando a revista foi criada. A diferença em relação aos nossos dias é de intensidade, não de visão de mundo prevalente. As niveladoras tendências de massificação e descaracterização já estavam nitidamente presentes. E alguém poderá até argumentar, com algum fundamento, que iniciativas como as da própria National Geographic Society acabaram contribuindo para o sepultamento final da diversidade nesta terra plana e indiferenciada.
Michael Crichton estava bem certo quando profetizou, numas [das poucas] linhas memoráveis do seu A Linha do Tempo, que num mundo saturado e superlotado como o nosso o único destino concebível é o passado.
NICODEMOS. Seu coração está tranqüilo diante dessa resolução, Caifás?
CAIFÁS. E por que não, Nicodemos?
NICODEMOS. Não vou discutir com você sobre a pessoa de Jesus. A atitude dele no julgamento me abalou. Eu estava pronto para crer ser ele um grande mestre, um grande profeta, talvez o Messias. Não consigo mais. Ele alegou ser Filho de Deus – não figurativamente, mas literalmente: a mão direita do poder e participante igualitário da glória. Isso é ou uma aterradora blasfêmia ou uma verdade tão aterradora que não suporto pensar nela.
CAIFÁS. Você está dizendo que pode ser verdade?
NICODEMOS. Não ouso. Pois nesse caso o que fizemos? Conspiramos de algum modo inimaginável para julgar e assassinar Deus.
CAIFÁS. É bem isso. Basta colocar em palavras para expor o absurdo da questão. Deus é um, e Deus é espírito. Você acha que existe uma multidão de deuses e semideuses caminhando sobre a terra, e sujeitos à fraqueza humana, como nas asquerosas fábulas dos pagãos?
NICODEMOS. Não.
CAIFÁS. Então qual é a sua objeção? Ou a sua, José de Arimatéia?
JOSÉ. Nem tanto o ato em si quanto o modo como foi feito. Foi mesmo necessário, meu senhor, lamber os pés de Roma em público? Admitir a soberania de César?
“Só há um modo de lidar com Roma: fechando-lhe a porta”.
NICODEMOS. Terá sido sábio ameaçar Pilatos com o Imperador? O poder que foi invocado contra Roma é ainda Roma.
JOSÉ. Só há um modo de lidar com Roma: fechando-lhe a porta. Pois se deixarmos que coloque para dentro um dedinho que seja, ela entrará logo com o braço todo, até o povo judeu não seja mais judeu.
CAIFÁS. José e Nicodemos, deixem-me dizer-lhes uma coisa: o povo judeu perdeu-se para sempre. O tempo das nações pequenas já passou. Esta é a era do império. Reflitam: ao longo de toda a história temos tentado fechar a porta. O povo judeu era para ser um jardim fechado, uma raça escolhida, um povo peculiar. Mas a porta foi aberta. Por quem?
NICODEMOS. Na disputa entre os filhos de Alexandre, quando Hircano apelou a Roma.
CAIFÁS. Verdade. Essa disputa trouxe-nos Herodes, o Grande – cria de Roma, que por trinta anos regeu o povo judeu com vara de ferro. E quando Herodes morreu, o que houve? Uma nova disputa, e a divisão do território de Israel, tendo sido o romano Pilatos feito governador da Judéia. Sob Herodes, uma nação tributária; depois de Herodes, três províncias tributárias. A cada rixa interna dos judeus os Romanos avançam um passo. Um passo, dois passos: o terceiro será o último. Esse Jesus eu matei, que teria criado mais divisão; mas para cada candidato crucificado, levantam-se cinqüenta… Um dia os zelotes se revoltarão e a espada será desembainhada contra César. Então o anel de fogo e ferro se fechará contra Jerusalém; os mortos engrossarão as ruas, e o pisotear das Legiões se fará ouvir no Santuário interior do Templo. Eu, Caifás, o profetizo.
JOSÉ (impressionado). O que podemos fazer?
CAIFÁS. Aceitar o inevitável. Adaptarmo-nos a Roma. É maldição do nosso povo que não sabemos aprender a viver como cidadãos de uma unidade maior. Não sabemos nem governar nem ser governados: para esses a nova ordem não tem lugar. Cheguemos a um acordo com o futuro enquanto podemos, para que não chegue o momento em que não se encontre no mundo todo lugar para um judeu colocar o pé.
JOSÉ. Estranho. As suas palavras ecoam as profecias de Jesus. Mas ele teria, creio, alargado os limites de Israel de modo a compreender o mundo todo. “Eles virão,” ele disse, “do leste e do oeste, e sentar-se-ão no Reino de Deus”. Samaritanos, romanos, gregos; ele acolheu-os a todos… Será possível que ele via o mesmo que você, tendo escolhido escancarar a porta? Não excluir, mas incluir? Não perder Israel para Roma, mas trazer Roma para o aprisco de Israel?
“Ele teria alargado os limites de Israel de modo a compreender o mundo todo”.
NICODEMOS (chocado). Impossível! Israel não pode ter qualquer coisa com os gentios. Ele teria de ser louco para imaginar que…
CAIFÁS (secamente). Louco de fato. É dever dos homens de estado destruir a loucura que se chama imaginação. Ela é perigosa. Gera dissensão. Paz, ordem, segurança: essa é a oferta de Roma – ao preço de Roma.
JOSÉ (sombriamente). Rejeitamos a solução de Jesus. Suponho que teremos de abraçar a sua.
CAIFÁS. Vocês também me rejeitarão, creio. Contente-se com isso, Jesus, meu inimigo. Caifás também terá vivido em vão.
O canto remix do pássaro-lira me trouxe à lembrança uma das críticas que muitos intelectuais fazem à cultura do nosso tempo: a de que somos uma época de muita reciclagem e pouca originalidade; de muito material requentado e pouca coisa nova.
O ícone e valente precursor dessa tendência é mesmo o remix – “nova mistura” ou “remexida”. Um remix é uma música feita a partir de trechos (samples, em inglês) de outra, dispostos contra um ritmo diferente, de modo a criar uma coisa nova a partir de retalhos do que já existe. Os remixes nasceram, pela iniciativa dos DJs (disk-jockeys), do desejo de reaproveitar uma música conhecida numa versão mais dançante, devidamente palátavel à pista de dança da discoteca ou da rave. Graças à mágica do remix é possível reinventar um sucesso dos anos 80 apertando-o contra uma mais contemporânea batida trance, ou contemporizar Beethoven emuldurando-o num obstinado tuche-tuche. A remixagem vive no limbo entre a criação e a cópia: trata-se de recortar e colar, pinçar, reciclar, redispor, reemoldurar.
Parente próximo da remixagem é o sampling, técnica pela qual se utiliza um trecho de uma gravação como um novo instrumento ou como base para uma nova gravação. Foi assim que a cantora Madonna criou em 2005 uma canção inteira, Hung Up, a partir da repetição de uma base instrumental do megasucesso de 1979, Gimme, Gimme, Gimme (A Man After Midnight), do grupo sueco Abba.
Madonna e Abba: Hung Up
A remixagem e o sampling são sem dúvida características proeminentes da nossa cultura – e em vários níveis além do musical. Somos uma metacultura: uma cultura que faz constantes referências a si mesma. No mundo do cinema, em especial, a remixagem está presente em inúmeras instâncias:
nas seqüências comerciais de filmes de sucesso (Parque dos Dinossauros 3, Velocidade Máxima 2, Alien 4, Sexta-feira 13 13);
nos filmes baseados em séries de televisão antigas (As Panteras, Os Gatões, Starsky & Hutch, O Fugitivo, A Feiticeira);
nos filmes baseados em livros ou histórias de quadrinhos (Homem-Aranha, Harry Potter, Batman, O Código Da Vinci, V de Vingança, Sin City, O Senhor dos Anéis, Corpo Fechado);
nas refilmagens de filmes de sucesso (King Kong, Cabo do Medo, O Pai da Noiva, Sabrina, O Massacre da Serra Elétrica, A Gaiola das Loucas, Onze Homens e Um Segredo)
nas sátiras de filmes de sucesso (Todo Mundo em Pânico, Top Gang);
nos filmes baseados ou “inspirados” em fatos reais (A Luta pela Esperança, Erin Brockovich, A Lista de Schindler).
Esse hábito de Hollywood de requentar material testado e aprovado e servi-lo sob nova roupagem está ligado à mesma lógica do trailer que conta tudo: a certeza de que as pessoas preferem submeter-se a conteúdo com a qual já estão previamente familiarizadas.
O problema dessa visão de mundo, opinam os críticos da cultura, é que ela glorifica a reciclagem em detrimento da criação de material original.
Outra instância em que essa tendência fica muito evidente é na blogosfera – o universo dos blogs – que subsiste basicamente do reaproveitamento circular de material encontrado pelo autor em outro lugar da net. Paradoxalmente, poucos blogs são de fato logs – “registros de atividade” ou “diários de bordo” Na verdade, muitos dos blogs mais populares da net, como o vertiginoso boingboing ou o eclético growabrain, são na verdade repositórios de links: o que eles fazem é redirecionar o leitor para uma série de endereços externos que podem ou não ser do seu interesse. “Está vendo?” exigem triunfantemente os críticos. “Muita reciclagem e pouco conteúdo original.” Como resultado, acusam eles, todos os blogs tendem a apontar para os mesmos destinos da rede, requentando incessantemente os mesmos materiais, afogando a criatividade e gerando uma temerária “mentalidade de colmeia”.
O paradoxo final está em que a remixagem toca terrenos perigosos no domínio do copyright. Tecnicamente, um DJ não pode usar legalmente no seu remix um trecho de uma gravação (nem um blogueiro copiar um parágrafo de outro) sem a autorização expressa do detentor dos direitos do material em questão; e, como a obsessão com os direitos autorais é outra característica dominante da nossa época, a dita autorização é freqüentemente difícil de conseguir, especialmente na ausência de alguma compensação financeira e muitas vezes mesmo diante da possibilidade dela.
O paradoxo está em que nossa cultura, que escolheu definir-se pela remixagem, tornou a remixagem particularmente difícil de legalizar.