Manuscritos estocados em Junho do Anno 2006 de Nosso Senhor
30 de Junho de 2006

Big Brother: A vigilância sem trégua do espetáculo

1984, Sociedade

Uma das primeiras e mais fundamentadas críticas articuladas contra o capitalismo foi que, em nome da eficiência, ele separava os trabalhadores do produto do seu trabalho. Pela primeira vez na história acontecia de trabalhadores livres encontrarem-se alienados em larga escala do esforço produtivo das suas mãos. Graças à curiosa mágica do capitalismo, você podia trabalhar a vida inteira numa linha de montagem sem chegar a ter um Fiat na garagem; podia trabalhar numa agência de viagens sem chegar a deixar o país.

Estamos ainda aprendendo a sobreviver às seqüelas dessa alienação. Muitos críticos sensatos sugerem que a separação entre o trabalhador e fruto do seu trabalho criou uma forma incapacitadora de castração mental: sob o capitalismo, o operário abre deliberadamente mão do privilégio fundamental de autocondução da vida; vende a primogenitura da liberdade pela segurança da benção do sistema. O que o operário vende é o seu trabalho (e portanto sua vida) à máquina capitalista, renunciando dessa forma a privilégios de autodeterminação de que ainda desfrutam, em alguma escala, trabalhadores rurais, artesãos, mendigos, militares, artistas, pescadores e professores.

O problema essencial dessa concessão é que ela abre espaço para inúmeras outras. O capitalismo acaba separando não apenas o trabalhador do fruto do seu trabalho: separa também o consumo das necessidades. O consumidor capitalista não consome porque precisa ou mesmo porque quer: sua vida de consumo subsiste inteiramente à parte das suas verdadeiras necessidades, quaisquer que sejam, com as quais ele perdeu todo o contato.

O primeiro passo abre precedente para o segundo: sob o capitalismo o trabalhador não abre mão apenas de (1) o trabalho das suas próprias mãos, mas também de (2) determinar quais sejam as suas próprias necessidades. O sistema fechado que o protege e sustenta deixará muito claro aquilo que ele deve consumir e desejar. Veja esta torradeira, este laptop, este iogurte. Agora com nova embalagem. Você sabe que quer um igual – o sistema alimentou-o direitinho. Resistir é inútil.

* * *

A questão mais recente e por certo mais grave é no entanto outra. Até recentemente restava ao trabalhador capitalista vestígios de autodeterminação na maneira como ele decidia conduzir a sua vida social e utilizar o seu tempo livre. Essas brechas possibilitavam alguma liberdade e espaço para desintoxicação. Mesmo que tivesse de se dobrar à máquina 8 horas por dia, cinco dias por semana, sobrava ao operário o resto da vida, – preciosíssimo nicho dentro do qual ele podia recuperar o espectro total do potencial humano através da prática criativa.

A sociedade do espetáculo é o momento em que o consumo conquistou a ocupação total da vida social.

Isso foi antes que a sociedade capitalista fosse inteiramente engolida pela onipresença do espetáculo – e entenda-se como espetáculo tudo que, não sendo trabalho, também não é vida social ou prática criativa: cinema, TV, esportes e shows pela TV, teatro, conteúdo da internet, jogos de computador, noticiários, shows de música, documentários, apresentações de powerpoint, desenhos animados, jornais, Reality TV, revistas, CDs de música, DVDs, programas de calouros, de perguntas e respostas, trailers, pornografia, videocassetadas, rádio, filmes da internet, arquivos mp3, cartuns, histórias em quadrinhos, animações da internet – e, muito mais freqüentemente do que uma vez já foi, também formaturas, bailes, festas, cultos, missas e cerimônias de casamento.

Vivemos o que a Escola de Frankfurt (Horkheimer e Adorno em 1972; Marcuse em 1964), chama de sociedade “totalmente administrada” ou “unidimensional”. Ou, segundo Guy Debord: “A sociedade do espetáculo é o momento em que o consumo conquistou a ocupação total da vida social”. E este, senhoras e senhores, é um dos conceitos mais fundamentais do nosso tempo.

“Essa transição estrutural para uma sociedade do espetáculo envolve a transformação em mercadoria de setores previamente não-colonizados da vida social, e a extensão do controle burocrático aos domínios do lazer, do desejo e da vida cotidiana”
(Douglas Kellner: Media Culture and the Triumph of the Spectacle).

A diferença entre ontem e hoje está em que nossos hobbies e nossa vida social éramos nós mesmos que definíamos; o espetáculo sem trégua da TV/internet nós consumimos de forma inerte e – eis a pegada – o tempo todo. Da Copa do Mundo ao Big Brother ao novo Super-Homem aos canais da TV fechada ao cartum da internet ao culto dominical à formatura de judô da Mariana – só nos resta tempo livre para o espetáculo.

E como é a aplicação do tempo livre que determina o que somos (ou sentimos que somos), não nos resta autodeterminação alguma. Não restamos. Somos recortes de papelão numa sociedade unidimensional.

* * *

É a absolutização da política do pão e circo: enquanto está consumindo o espetáculo você não representa ameaça alguma. E não corre o risco de descobrir quem é.

“Para Debord, o espetáculo é uma ferramenta de pacificação e de despolitização; é uma ‘guerra do ópio permanente’, que estupidifica os agentes sociais e distrai-os da tarefa mais urgente da vida real. O conceito de Debord de espetáculo está intimamente relacionado aos conceitos de separação e passividade, pois em espetáculos consumidos passivamente o espectador é alienado de produzir ativamente a sua própria vida”
(Douglas Kellner: Media Culture and the Triumph of the Spectacle).

Na novela 1984 George Orwell imagina uma sociedade inteiramente subjugada por um governo burocrático e totalitário: todas as casas e aposentos são monitorados por câmeras ocultas de vídeo, e o mundo tem suas iniciativas esmagadas pela vigilância eterna do Grande Irmão (Big Brother).

Orwell, embora se julgasse pessimista, nos superestimou. A realidade é muitas vezes menos inteligente e certamente mais incrível. Nossa sociedade é absolutamente controlada e inofensiva, não porque o Big Brother nos vigia o tempo todo, mas porque assistimos o tempo todo ao Big Brother.

29 de Junho de 2006

Bôa noite

Nostalgia

Quem nunca se demorou no mato talvez não tenha sido exposto ao inesquecível aroma catinga dessas espirais que se usa queimar no sítio para repelir mosquito. Comprei uma caixinha no supermercado Santa Helena aqui em Campina Grande do Sul, absolutamente fascinado pela honestidade singeleza das ilustrações.

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28 de Junho de 2006

A medida das coisas

Manuscritos

Para Bertoldo Schneider Jr.

Restavam apenas os quatro no botequim: o punk, o lixeiro, o vendedor e a mulher do dono do bar, todos rindo ocasionalmente e evadindo-se a enfrentar que amanhã era um dia que já era hoje e não era sem fim o conforto da noite.

O lixeiro se agasalhara num canto do balcão para desenhar sem ser incomodado, girando sem cessar, sobre um guardanapo, uma caneta de cabo mordido. Quando perguntado sobre o que eram as três rodas que vinha desenhando, respondeu com relutância que a primeira, imóvel e vertical, era o passado; a do meio, giratória e horizontal, o presente; e a última, imóvel e vertical como a primeira, o futuro. Disse que tivera num sonho a visão de três gigantescas rodas que mal se tocavam, e sentira que traziam a explicação para o mistério do universo.

– Talvez a roda do presente, que fica girando sem parar, tire o seu movimento da imobilidade das outras duas – sugeriu o vendedor. – Assim que nem um ímã.

– Se o futuro é tão imutável quanto o passado, sei lá se a roda do meio tem como girar – observou o punk, olhando para o desenho.

– É só no presente que as coisas mudam, não está vendo?

A mulher do dono do bar, cujo marido se recolhera mais cedo por conta de uma indisposição, produziu quatro fitas métricas de um escaninho atrás do balcão e disse:

– Se muda mesmo vamos mensurar!

Começaram pelos copos que iam bebendo. Mediam e bebiam e reabasteciam e mediam e bebiam, para ver se os copos mudavam de tamanho com o passar do tempo. As primeiras variações foram quase imperceptíveis, milimétricas, mas logo a diferença entre uma medição e outra alargava-se de um centímetro, e nenhum deles deixou de expressar a sua admiração. A altura e (como mais tarde se descobriu) a circunferência de copos e garrafas se alterava com o girar formidável da roda do presente, como se cada movimento deixasse cicatrizes de antemão na rocha imóvel do futuro. Maravilharam-se que aquele fenômeno nunca tivesse sido observado por outra pessoa.

– Amanhã vou trazer um paquímetro – lembrou o vendedor, que tinha um paquímetro em casa.

O lixeiro sugeriu que medissem seus próprios corpos para ver se eles também registravam alteração. O vendedor gargalhou e observou que um único membro do seu corpo era capaz de mudar de tamanho, mas garantiu que aquelas fitas métricas eram insuficientes para medir essa parte. O lixeiro replicou que duvidava que mesmo a língua do vendedor pudesse ser tão grande, e todos riram.

Deixando de lado copos e garrafas, deram empolgada continuidade à experiência. Dentro do bar, submeteram tudo e todos à medição pelas fitas métricas: notas fiscais, toalhas de mesa, moedas, cotovelos, narizes, mamilos, barras de calça, cadarços, tábuas do assoalho, batatas da perna, palitos de dente, ralos, azulejos, fios de cabelo, buracos de fechadura. O punk desenrolou e mediu todos os rolos de papel higiênico e pôde conferir que não apenas as medidas não batiam a cada aferição, mas o número total de folhas picotadas também se alterava a cada contagem. O lixeiro mediu palitos de fósforos antes e depois de usados, e a mulher do dono do bar mediu e remediu cada letra das manchetes do jornal.

Descobriram que o mundo era fluido e que nenhuma grandeza ou escala permanecia a mesma de uma aferição à seguinte. O que media agora quinze centímetros não passava no momento seguinte de treze e meio. Lápis, mangas de camisa, orelhas, garrafas de cachaça enfileiradas, meias, as pimentas e os ovos coloridos do vidro: nada se conformava à estabilidade.

Com o avançar da madrugada descobriram diferentes graus de maleabilidade até mesmo nos números. Notaram que depois de meia dúzia de rigorosas medições sobre o balcão o algarismo 3 se flexibilizava notavelmente, sendo que com algum esforço no três acabavam cabendo quatro e, dependendo do mensurador, até cinco unidades inteiras – sem prejuízo e sem distorção de escala. No quinze cabiam sem qualquer dificuldade dezesseis e meio, e o trinta mostrou-se especialmente tolerante: fizeram caber nele oitenta e um antes de decidirem dar a noite por encerrada.

Abraçaram-se, congratularam-se e deram pulos de alegria e ajudaram a mulher a puxar a porta de ferro do bar e fechar o cadeado. Voltaram para casa imprimindo-se cuidadosamente a muros, postes e carros estacionados, como que para não perder esse último contato com a imponderável realidade.

A mulher do dono do bar faleceu de um aneurisma duas semanas depois, e o lixeiro, único do grupo presente no funeral, orou que os mortos pudessem lembrar o que os bêbados esqueciam.

27 de Junho de 2006

Como pensar sobre o governo

Brasil, Política, Traduzindo Borges

O argentino, à diferença dos americanos do norte e de quase todos os europeus, não se identifica com o Estado. Isso pode atribuir-se à circunstância de que, neste país, os governos costumam ser péssimos, ou ao fato geral de que o Estado é uma inconcebível abstração (o Estado é impessoal: o argentino só concebe uma relação pessoal. Por isso, para ele, roubar dinheiro público não é crime).

O certo é que o argentino é um indivíduo, não um cidadão. Aforismos como o de Hegel, “o Estado é a realidade da idéia moral” parecem-lhe piadas sinistras. Os filmes elaborados em Hollywood repetidamente propõem à admiração o caso de um homem (geralmente um repórter) que busca a amizade de um criminoso para entregá-lo depois à polícia; o argentino, para quem a amizade é uma paixão e a polícia uma máfia, sente que esse “herói” é um incompreensível canalha.

[...]

O mundo, para o europeu, é um cosmos, em que cada um corresponde intimamente à função que exerce; para o argentino, é um caos. O europeu e o americano do norte julgam que deverá ser bom um livro que mereceu um prêmio qualquer, o argentino admite a possibilidade de que não seja ruim, apesar do prêmio.

Jorge Luis Borges, em 1946, escrevendo sem saber sobre as semelhanças entre brasileiros e argentinos.

26 de Junho de 2006

Sapo

Ilustração

Sapo