Manuscritos estocados em Maio do Anno 2006 de Nosso Senhor
26 de Maio de 2006
NO MUNDO ANTES DA INTERNET, do qual alguns talvez ainda se recordem, a regra editorial era invariavelmente escolher, depois publicar. A oferta possível de conteúdo não era pequena, mas jornais e revistas tinham de atirar em todas as direções e acertar: como a idéia era atingir e conquistar o público mais amplo possível, o conteúdo tinha de ser variado e seletivo o bastante para agradar a todos os tipos de leitores – mesmo que fosse uma coluna de cada vez. Por essa razão o dilema dos editores sempre foi escolher o que descartar, já que as limitações de espaço e a variedade do público-alvo ditavam a configuração do conteúdo.
Corta para os dias atuais. A web reverteu formidavelmente esses recatos de austeridade. Com os custos de publicação e distribuição reduzidos a praticamente zero, o que vale agora é o oposto: publicar, depois escolher – ou, dito de outra maneira, o papel serviço sujo do editor foi transferido para o leitor. É o leitor, neste mundo novo soçobrando de informações, que se vê obrigado a decidir o que descartar.
Foi-se o tempo em que você comprava um jornal inteiro para ler apenas – dependendo dos seus interesses – a tira de quadrinhos, a programação de cinema, a coluna social, a página de receitas, as notícias desportivas, os índices econômicos ou o caderno de política. Hoje em dia há na internet sáites enfileirados, prontos para abastecê-lo ao ponto da indigestão com cada um desses gêneros de conteúdo, e todas as suas possíveis variantes. Há páginas da internet que versam sobre todos os assuntos que você gosta – na verdade há na internet mais páginas versando sobre os assuntos que você gosta do que você gostaria de ler. Ou poderia.
Mesmo que seu nível de spam esteja sobre controle, mesmo que você não tenha assinado a Bacia ou o bloglines, você gasta parte da sua manhã fazendo serviço de editor: decidindo quais mensagens genéricas de email – algumas delas invariavelmente interessantes e que poderiam salvar quem sabe o seu casamento, o seu crédito bancário ou a sua vida – vão para a lixeira sem serem lidas.
A oferta de informação é, pela primeira vez na história, maior do que a procura. Na vertiginosa biblioteca de Babel de Borges apenas uns poucos livros cometiam o despudor de serem compreensíveis, e um número ainda menor podia ser considerado útil ou interessante. Aqui nesta web são tantas as informações valiosas à sua disposição que toda informação perdeu, naturalmente, qualquer valor.
Esqueci onde queria chegar com esse raciocínio, mas não faz diferença. De minha parte é só clicar em Publish e passar a bola para a frente.
Não está mais aqui quem falou.
25 de Maio de 2006

Escrevendo a seu amigo E. Hoffmann Price em fevereiro de 1933, H. P. Lovecraft descreve dois modos fundamentais (e praticamente opostos) pelos quais as pessoas reagem à natureza:
O lado rural me toca profundamente porque sempre conheci os ancestrais campos e colinas e bosques mesmo sendo habitante da cidade. A casa em que nasci e cresci ficava junto à orla da área urbana, à distância de um arremesso de pedra dos prados ondulantes cercados por muros de pedra, casas de fazenda imaculadamente brancas, celeiros e estábulos de formato irregular, velhos pomares nodosos, florestas de um crepúsculo mortiço e ribanceiras pontilhadas de ravinas da primitiva Nova Inglaterra colonial. Como d’Erlette, vagueei fascinado por esse místico mundo arcaico, rescendendo a flores, e formei todo tipo de impressões imaginativas a partir dele – mas aqui a semelhança termina. Pois enquanto ele era um intrínseco naturalista como Wordsworth – sensualmente satisfeito com a beleza visível e inexplicada ao redor de si – eu era o exato oposto: um confirmado e inveterado associacionista que constantemente ligava a adorável zona rural a tudo no passado que o folclore e a leitura haviam me trazido.
Há dois modos de se encarar a natureza.
A distinção, que eu ignorava, me parece bastante útil. O naturalista é essencialmente sensual; ele experimenta a natureza exuberantemente, porém apenas com os sentidos; basta-lhe na verdade a imponência da montanha, as cores iridescentes da borboleta, o bálsamo da cachoeira, o abrigo da floresta, a placidez da curva do rio. O associacionista, por sua vez, não consegue experimentar a natureza à parte do que sabe da história e da lenda; a montanha lhe fará pensar nas duras rotas dos tropeiros, a borboleta lhe trará à lembrança as antigas gravuras e expedições dos entomologistas; a cachoeira evocará a imagem dos bandeirantes arrastando seus barcos rio acima; a floresta fechada lhe fará pensar no grito pavoroso do pé-de-garrafa, a curva do rio lhe trará associações de náiades, ondinas e Iaras.
Graças, sem nenhuma dúvida, à influência do meu pai, sou como Lovecraft um irremediável associacionista. Por mais espetacularmente belo que seja o lugar (como, digamos, o vale do Canoas em Urubici), não sou capaz de experimentá-lo per se – sem associá-lo incessantemente à história dos imigrantes, dos índios, das genealogias, dos exploradores, dos fundadores, dos desmatamentos, das guerras, dos sobrenomes, das lendas, dos reflorestamentos, das revoluções, dos dinossauros. Tudo que passou e tudo que foi escrito sobre o lugar é definitivamente mais real para mim do que a mera experiência dos sentidos. A beleza que não evoca me é insuficiente e em última instância frustrante.
Encontro nessas diferentes visões de mundo ecos da distinção que já estabelecemos entre religiões circulares e lineares. O naturalista, em seu abandono aos sentidos, é circular: experimenta a natureza fora do tempo, como sempre é e sempre será. O associacionista, obcecado com a história, é linear; incapaz de enxergar a natureza fora do tempo, ele vê-se obrigado, como Lovecraft, a usar continuamente termos que indiquem e evoquem um passado irrecuperável que porém dá sentido ao presente: “ancestrais, velhos, nodosos, primitivos, coloniais, místicos, arcaicos”.

24 de Maio de 2006
O cego prestara atenção nos sinais durante semanas, e demorara mais tempo para decidir uma abordagem do que para assegurar-se da sua conclusão. Eram seis e meia da tarde e ele estava na cozinha do apartamento fatiando rodelas de cenoura com uma enorme faca de cabo branco. Ele respirou fundo. Sem tirar os olhos do conteúdo da janela invisível, pousou gentilmente a faca sobre a tábua de cortar e ergueu as duas mãos junto ao corpo na altura do peito, paralelas ao balcão da pia.
– Eu sei que você está aí – ele disse pausadamente com voz articulada de cego. – Sei que está aí e que é minucioso e alerta e deve estar agora me olhando de algum canto com olhos arregalados mas sem emitir um sinal da sua presença. Eu venho em paz. Tenho a dizer que você é muito bom – ou, devo esperar, boa? De qualquer forma você passou despercebido por muito, muito tempo, e tive de reler todos os sinais antes de ter certeza de que você estava de fato aí. Você come muito pouco, e demorei a diagnosticar a colher de arroz ou de carne moída que faltava nos potes na geladeira. Isso foi antes, naturalmente, que eu passasse a cozinhar para você. A idéia de andar de meias, apesar de óbvia, foi também muito bem executada; devo supor que esteja dormindo naquele ressalto do corredor, por onde não corro o risco de passar numa caminhada noturna? A essa altura você já deve ter feito uma cópia da chave, e estou supondo que toma banho e usa o banheiro nos curtos intervalos em que saio para caminhar e tomar sol: minha indelicadeza, que tenho tentado corrigir saindo mais vezes, como você deve ter notado. Às vezes tenho certeza de que você é mesmo mulher, pela minúcia da sua exatidão e pelo jeito que me olha no banho, embora não ignore que há homens com os mesmos hábitos. Que posso dizer? A esta altura você conhece inevitavelmente meus predicados e interesses, e tenho o que esconder nessa área ainda menos do que em outras. Apenas você poderá, me conhecendo, dizer se estamos próximos o bastante para compartilharmos talvez um dia da mesma cama – mesmo que seja para indignidades como dormir e aquecer mutuamente, agora que o inverno está chegando. Curioso é que sempre imaginei que algo assim poderia um dia acontecer; meu analista diria, se eu tivesse a inclinação de compartilhar essa intimidade com ele, que foi justamente por essa possibilidade que acabei acalentando e perseguindo a idéia de morar sozinho. Quanto aos seus motivos, não me cabe no fim das contas especular. A esta altura você terá percebido que não tenho dinheiro ou qualquer vantagem pecuniária da qual eu mesmo ou outra pessoa poderiam se beneficiar. O pouco que tenho no banco estamos de uma forma ou de outra dividindo, e o que guardo em casa fica no pote branco de açúcar em cima do armário; nada que você já não deva saber, embora se tirou algo dali parece ter sido eficaz o bastante para repor antes que eu notasse. Estou supondo que não tenha inclinação à violência e que esteja ficando por uma de duas alternativas: porque quer ficar, ou porque não tem alternativa. De qualquer forma, sinto-me lisonjeado. Gosto a propósito dos livros que você tem andado lendo, coisas que eu mesmo apreciei em outra vida. Não me incomodaria de modo algum se você resolvesse um dia ler em voz alta, embora não queira na verdade pressioná-lo em sentido algum. Podemos continuar exatamente como estamos, cada um com sua rigorosa parcela de privacidade, se o meu conhecimento da sua presença não representa afronta para você. Se eu baixar a mão e encontrar a faca sobre a pia saberei que teremos chegado a esse acordo. Não me incomoda o seu silêncio, embora talvez o incomode a minha voz. Julgue você. Posso ter ainda revelar que esta é a terceira vez que estou fazendo este discurso, mas esta é a primeira em que tenho certeza de que você está ouvindo.
E baixou a mão para ver se a faca estava ali.

22 de Maio de 2006
O Judas Iscariotes da radionovela em doze episódios O Homem que nasceu para ser rei1, da inglesa Dorothy L. Sayers, é de longe o mais inteligente, articulado e perspicaz dos discípulos. O Judas de Sayers é um cara brilhante, antenado e idealista; ele é por essa razão o único a perceber por completo e logo de cara o potencial revolucionário, transformador e curativo da mensagem de Jesus. Ao contrário da esmagadora maioria dos seguidores do rabi de Nazaré, Judas percebe que o reino do Messias não é deste mundo; ele compreende maravilhado que o caminho da renúncia é o cerne da mensagem do evangelho e deleita-se que ele seja tão exigente.
Como vê tudo com tamanha clareza, a razão da queda de Judas na narrativa é necessariamente sutil. Seu problema parece estar justamente na pessoa extraordinária que ele é. Como seu orgulho não permite que ele se coloque abaixo de ninguém, Judas acaba obrigando-se inconscientemente a duvidar dos motivos de Jesus. Ele crê que a mensagem do evangelho seja de fato valiosa e extraordinária, mas começa a pensar que seu mestre talvez não esteja à altura dela. Começa a suspeitar que Jesus talvez não queira e não seja capaz de levar suas palavras até as últimas conseqüências. Fica se perguntando se na hora H o rabi saberá manter a pureza e a integridade da sua mensagem.
Quando vê Jesus deixando-se aclamar como herdeiro do trono de Davi pelas multidões, na entrada de Jerusalém, Judas vê suas maiores suspeitas confirmadas. Seu mestre está a um passo de trair os seus ideais e dobrar-se aos poderes deste mundo. O Messias está pronto a sucumbir à tentação, e irá repudiar o caminho do sofrimento que preconizara. Judas, o íntegro idealista, percebe ruborizado que deixara-se seduzir pelas palavras de um impostor. Seu mestre mentira desde o princípio, e Judas vê agora com clareza que era apenas sua a inocência que projetara em Jesus.
Judas Iscariotes trai Jesus porque acredita que Jesus está se traindo. Ele porém está prestes a enxergar a única coisa que lhe escapou até agora, e esse inusitado fogo o consumirá.
* * *
JUDAS. Escribas e fariseus, hipócritas! Quão bem ele os conhecia!… Ouçam-me, seus sepulcros caiados! Acabo de fazer algo tão hediondo que o próprio inferno se envergonha. Os ladrões mais vis demonstram alguma lealdade, e o cachorro de um vigarista pode ser fiel a ele. Mas meu Mestre era inocente, e eu o caluniei; inocente, e eu o acusei; inocente, e eu o traí.
CAIFÁS. Você veio até nós de livre e espontânea vontade – e com os mais elevados dos motivos, tenho certeza.
JUDAS. Vim porque o odiava. “Aquele que odeia seu irmão é assassino”: eu assassinei o Cristo de Deus por ódio… Estava escrito que ele teria de sofrer… Sim! E por quê? Porque há no mundo gente demais como eu… Eu estava enamorado do sofrimento porque queria vê-lo sofrer. Queria crê-lo culpado, porque não era capaz de suportar a sua inocência. Ele era maior do que eu, e eu o odiei. E agora odeio a mim mesmo… Você sabe o que é o fogo do inferno? É a luz da insuportável inocência de Deus que consome e abrasa como uma chama. Ela mostra quem você é… Sacerdote, é coisa terrível uma pessoa enxergar-se por um momento como realmente é.
CAIFÁS. Que temos com isso? Sua consciência é problema seu.
O fogo do inferno é a luz insuportável da inocência de Deus.
JUDAS. O que tem a ver com você?… Você é o Sumo Sacerdote. Dia após dia, semana após semana, mês após mês você faz sacrifício pelo pecado – a oferta queimada e a oferta pacífica e a oferta de transgressão. Ano após ano, no Dia do Perdão, você entra no Lugar Santo e derrama sangue diante do Propiciatório pela redenção de Israel. O que pode o seu sacerdócio fazer por mim? Irá o sangue de touros e de bodes lavar a minha mancha? Você, que está atolado até os lábios no mesmo crime que eu, pode pôr-se de pé ali com as mãos sujas de sangue e oferecer por nós dois um sacrifício imaculado e aceitável? Não há sacerdote, não há vítima em todo mundo que seja pura o bastante para remir essa culpa… É Deus misericordioso? Pode ele perdoar?… De que adianta? Jesus perdoaria. Se eu me arrastasse ao pé do cadafalso e pedisse o seu perdão ele me perdoaria – e minha alma se contorceria eternamente sob o tormento desse perdão… Pode algo me absolver aos meus próprios olhos? Ou libertar-me deste horror de mim mesmo? Eu lhe digo, não há como escapar da inocência de Deus. Se eu subir até o céu ali ele está – se descer até o inferno ele está ali também. O que posso fazer? Caifás, Sumo Sacerdote de Israel, o que posso fazer?
CAIFÁS. Não temos que ficar ouvindo esse delírio. Você fez o seu trabalho e foi por nós bem pago.
JUDAS. Essa é a sua última palavra, meu companheiro assassino? (em voz alta) Tome o seu dinheiro de volta, e que a maldição de Caim esteja sobre ele. (Atira no chão as peças de prata) Eu vou para o meu lugar.

1 The Man Born to Be King (1943), da qual já citei algum trecho aqui e aqui.
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