Manuscritos estocados em Maio do Anno 2006 de Nosso Senhor
27 de Maio de 2006

Freaks

Filmes

Freaks(1932), de Tod Browning, é um dos mais singulares filmes de terror já produzidos. Seria talvez arrogância descrevê-lo com o puído “você nunca viu parecido assim antes”, mas pode ser acurado dizer que você nunca verá nada parecido depois.

Freaks – “aberrações” – é o impiedoso título que se dava às pessoas portadoras de severas deficiências físicas e mentais que costumavam ser expostas como atração secundária em circos da Europa e dos Estados Unidos. Freaks, o filme, trata da trágica interação entre um grupo desses deficientes e o restante dos artistas de um circo.

A obra angariou controvérsia e fama porque o diretor tomou a decisão (praticamente impensável para os nossos dias) de usar deficientes de verdade na produção – decisão que feriu as sensibilidades do público naquela época, que dirá hoje em dia. O elenco de Freaks inclui um homem sem pernas, duas mulheres sem braços, um homem sem pernas e sem braços (a “lagarta humana”, que acende um charuto sem ajuda), um casal de anões, uma mulher barbada, um “esqueleto vivo”, um hermafrodita, um par de gêmeas siamesas e várias pessoas com microcefalia.

O resultado, como você mesmo pode ver nesta versão integral, é perturbador (especialmente o clímax, que é amálgama de todos os pesadelos) – porém no todo o tratamento é moralista e compassivo, quase prescientemente politicamente correto.

Freaks pode ser saboreado em vários níveis: como parábola, como tenebrosa história de terror, como discurso metalingüístico sobre a natureza do espetáculo e o caráter auto-destrutivo da exploração do ser humano, como testemunho de uma época em que os cineastas eram tão dinheiristas quanto hoje em dia mas talvez menos hipócritas.

Esta versão não tem legendas, mas a história é tão simples e a atuação tão estilizada que não deverá ser difícil acompanhar a narrativa até o seu inevitável fim. A visualização requer banda larga ou muita paciência.

* * *

26 de Maio de 2006

Publicar, depois escolher

Pense comigo, Sociedade

NO MUNDO ANTES DA INTERNET, do qual alguns talvez ainda se recordem, a regra editorial era invariavelmente escolher, depois publicar. A oferta possível de conteúdo não era pequena, mas jornais e revistas tinham de atirar em todas as direções e acertar: como a idéia era atingir e conquistar o público mais amplo possível, o conteúdo tinha de ser variado e seletivo o bastante para agradar a todos os tipos de leitores – mesmo que fosse uma coluna de cada vez. Por essa razão o dilema dos editores sempre foi escolher o que descartar, já que as limitações de espaço e a variedade do público-alvo ditavam a configuração do conteúdo.

Corta para os dias atuais. A web reverteu formidavelmente esses recatos de austeridade. Com os custos de publicação e distribuição reduzidos a praticamente zero, o que vale agora é o oposto: publicar, depois escolher – ou, dito de outra maneira, o papel serviço sujo do editor foi transferido para o leitor. É o leitor, neste mundo novo soçobrando de informações, que se vê obrigado a decidir o que descartar.

Foi-se o tempo em que você comprava um jornal inteiro para ler apenas – dependendo dos seus interesses – a tira de quadrinhos, a programação de cinema, a coluna social, a página de receitas, as notícias desportivas, os índices econômicos ou o caderno de política. Hoje em dia há na internet sáites enfileirados, prontos para abastecê-lo ao ponto da indigestão com cada um desses gêneros de conteúdo, e todas as suas possíveis variantes. Há páginas da internet que versam sobre todos os assuntos que você gosta – na verdade há na internet mais páginas versando sobre os assuntos que você gosta do que você gostaria de ler. Ou poderia.

Mesmo que seu nível de spam esteja sobre controle, mesmo que você não tenha assinado a Bacia ou o bloglines, você gasta parte da sua manhã fazendo serviço de editor: decidindo quais mensagens genéricas de email – algumas delas invariavelmente interessantes e que poderiam salvar quem sabe o seu casamento, o seu crédito bancário ou a sua vida – vão para a lixeira sem serem lidas.

A oferta de informação é, pela primeira vez na história, maior do que a procura. Na vertiginosa biblioteca de Babel de Borges apenas uns poucos livros cometiam o despudor de serem compreensíveis, e um número ainda menor podia ser considerado útil ou interessante. Aqui nesta web são tantas as informações valiosas à sua disposição que toda informação perdeu, naturalmente, qualquer valor.

Esqueci onde queria chegar com esse raciocínio, mas não faz diferença. De minha parte é só clicar em Publish e passar a bola para a frente.

Não está mais aqui quem falou.

25 de Maio de 2006

O naturalista e o associacionista

Goiabas Roubadas, Pense comigo

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Escrevendo a seu amigo E. Hoffmann Price em fevereiro de 1933, H. P. Lovecraft descreve dois modos fundamentais (e praticamente opostos) pelos quais as pessoas reagem à natureza:

O lado rural me toca profundamente porque sempre conheci os ancestrais campos e colinas e bosques mesmo sendo habitante da cidade. A casa em que nasci e cresci ficava junto à orla da área urbana, à distância de um arremesso de pedra dos prados ondulantes cercados por muros de pedra, casas de fazenda imaculadamente brancas, celeiros e estábulos de formato irregular, velhos pomares nodosos, florestas de um crepúsculo mortiço e ribanceiras pontilhadas de ravinas da primitiva Nova Inglaterra colonial. Como d’Erlette, vagueei fascinado por esse místico mundo arcaico, rescendendo a flores, e formei todo tipo de impressões imaginativas a partir dele – mas aqui a semelhança termina. Pois enquanto ele era um intrínseco naturalista como Wordsworth – sensualmente satisfeito com a beleza visível e inexplicada ao redor de si – eu era o exato oposto: um confirmado e inveterado associacionista que constantemente ligava a adorável zona rural a tudo no passado que o folclore e a leitura haviam me trazido.

Há dois modos de se encarar a natureza.

A distinção, que eu ignorava, me parece bastante útil. O naturalista é essencialmente sensual; ele experimenta a natureza exuberantemente, porém apenas com os sentidos; basta-lhe na verdade a imponência da montanha, as cores iridescentes da borboleta, o bálsamo da cachoeira, o abrigo da floresta, a placidez da curva do rio. O associacionista, por sua vez, não consegue experimentar a natureza à parte do que sabe da história e da lenda; a montanha lhe fará pensar nas duras rotas dos tropeiros, a borboleta lhe trará à lembrança as antigas gravuras e expedições dos entomologistas; a cachoeira evocará a imagem dos bandeirantes arrastando seus barcos rio acima; a floresta fechada lhe fará pensar no grito pavoroso do pé-de-garrafa, a curva do rio lhe trará associações de náiades, ondinas e Iaras.

Graças, sem nenhuma dúvida, à influência do meu pai, sou como Lovecraft um irremediável associacionista. Por mais espetacularmente belo que seja o lugar (como, digamos, o vale do Canoas em Urubici), não sou capaz de experimentá-lo per se – sem associá-lo incessantemente à história dos imigrantes, dos índios, das genealogias, dos exploradores, dos fundadores, dos desmatamentos, das guerras, dos sobrenomes, das lendas, dos reflorestamentos, das revoluções, dos dinossauros. Tudo que passou e tudo que foi escrito sobre o lugar é definitivamente mais real para mim do que a mera experiência dos sentidos. A beleza que não evoca me é insuficiente e em última instância frustrante.

Encontro nessas diferentes visões de mundo ecos da distinção que já estabelecemos entre religiões circulares e lineares. O naturalista, em seu abandono aos sentidos, é circular: experimenta a natureza fora do tempo, como sempre é e sempre será. O associacionista, obcecado com a história, é linear; incapaz de enxergar a natureza fora do tempo, ele vê-se obrigado, como Lovecraft, a usar continuamente termos que indiquem e evoquem um passado irrecuperável que porém dá sentido ao presente: “ancestrais, velhos, nodosos, primitivos, coloniais, místicos, arcaicos”.

24 de Maio de 2006

O cego e seu hóspede

Manuscritos

O cego prestara atenção nos sinais durante semanas, e demorara mais tempo para decidir uma abordagem do que para assegurar-se da sua conclusão. Eram seis e meia da tarde e ele estava na cozinha do apartamento fatiando rodelas de cenoura com uma enorme faca de cabo branco. Ele respirou fundo. Sem tirar os olhos do conteúdo da janela invisível, pousou gentilmente a faca sobre a tábua de cortar e ergueu as duas mãos junto ao corpo na altura do peito, paralelas ao balcão da pia.

– Eu sei que você está aí – ele disse pausadamente com voz articulada de cego. – Sei que está aí e que é minucioso e alerta e deve estar agora me olhando de algum canto com olhos arregalados mas sem emitir um sinal da sua presença. Eu venho em paz. Tenho a dizer que você é muito bom – ou, devo esperar, boa? De qualquer forma você passou despercebido por muito, muito tempo, e tive de reler todos os sinais antes de ter certeza de que você estava de fato aí. Você come muito pouco, e demorei a diagnosticar a colher de arroz ou de carne moída que faltava nos potes na geladeira. Isso foi antes, naturalmente, que eu passasse a cozinhar para você. A idéia de andar de meias, apesar de óbvia, foi também muito bem executada; devo supor que esteja dormindo naquele ressalto do corredor, por onde não corro o risco de passar numa caminhada noturna? A essa altura você já deve ter feito uma cópia da chave, e estou supondo que toma banho e usa o banheiro nos curtos intervalos em que saio para caminhar e tomar sol: minha indelicadeza, que tenho tentado corrigir saindo mais vezes, como você deve ter notado. Às vezes tenho certeza de que você é mesmo mulher, pela minúcia da sua exatidão e pelo jeito que me olha no banho, embora não ignore que há homens com os mesmos hábitos. Que posso dizer? A esta altura você conhece inevitavelmente meus predicados e interesses, e tenho o que esconder nessa área ainda menos do que em outras. Apenas você poderá, me conhecendo, dizer se estamos próximos o bastante para compartilharmos talvez um dia da mesma cama – mesmo que seja para indignidades como dormir e aquecer mutuamente, agora que o inverno está chegando. Curioso é que sempre imaginei que algo assim poderia um dia acontecer; meu analista diria, se eu tivesse a inclinação de compartilhar essa intimidade com ele, que foi justamente por essa possibilidade que acabei acalentando e perseguindo a idéia de morar sozinho. Quanto aos seus motivos, não me cabe no fim das contas especular. A esta altura você terá percebido que não tenho dinheiro ou qualquer vantagem pecuniária da qual eu mesmo ou outra pessoa poderiam se beneficiar. O pouco que tenho no banco estamos de uma forma ou de outra dividindo, e o que guardo em casa fica no pote branco de açúcar em cima do armário; nada que você já não deva saber, embora se tirou algo dali parece ter sido eficaz o bastante para repor antes que eu notasse. Estou supondo que não tenha inclinação à violência e que esteja ficando por uma de duas alternativas: porque quer ficar, ou porque não tem alternativa. De qualquer forma, sinto-me lisonjeado. Gosto a propósito dos livros que você tem andado lendo, coisas que eu mesmo apreciei em outra vida. Não me incomodaria de modo algum se você resolvesse um dia ler em voz alta, embora não queira na verdade pressioná-lo em sentido algum. Podemos continuar exatamente como estamos, cada um com sua rigorosa parcela de privacidade, se o meu conhecimento da sua presença não representa afronta para você. Se eu baixar a mão e encontrar a faca sobre a pia saberei que teremos chegado a esse acordo. Não me incomoda o seu silêncio, embora talvez o incomode a minha voz. Julgue você. Posso ter ainda revelar que esta é a terceira vez que estou fazendo este discurso, mas esta é a primeira em que tenho certeza de que você está ouvindo.

E baixou a mão para ver se a faca estava ali.

23 de Maio de 2006

Caracu

Ilustração

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