Breve elegia para uma pessoa que morreu
Manuscritos
Era uma vez uma pessoa.
Essa pessoa morreu.
Era uma vez essa pessoa.
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Manuscritos estocados em Maio do Anno 2006 de Nosso Senhor
31 de Maio de 2006
Breve elegia para uma pessoa que morreuManuscritosEra uma vez uma pessoa.
29 de Maio de 2006
O culto da performanceFé e Crença, SociedadeNão falta quem discorde da tese de Weber de que a teologia calvinista acabou precipitando inevitavelmente a ascensão do capitalismo. A dúvida parece estar em se a ética protestante ocasionou o capitalismo ou se meramente facilitou-o. No que me diz respeito já é suficientemente desconcertante que ela não o tenha evitado. Mesmo quem desconfia das conclusões de Weber não tem como negar que a rápida expansão do comércio e a ascensão do industrialismo coincidiram precisamente com o incêndio revolucionário da Reforma Protestante. Para o bem ou para o mal de sua reputação, a trajetória do cristianismo evangélico/protestante foi desde o princípio associada a uma postura agressivamente mercantilista, e o sucesso histórico dessa conjunção protestantismo/capitalismo é espetacularmente epitomizado nos nossos dias pelos Estados Unidos. A expansão do comércio e a ascensão do industrialismo coincidiram com a Reforma Protestante.Assim que surgiram em cena, na verdade, os protestantes roubaram do o mundo católico o monopólio da transação comercial e do fluxo de riquezas. Os agilíssimos holandeses, com o sucesso enxuto de suas gêmeas Companhias das Índias (Orientais e Ocidentais), desbancaram com facilidade os católicos portugueses – sendo que Portugal é que havia inaugurado e colocado em funcionamento a primeira rede comercial verdadeiramente internacional, com ramificações em todos os continentes. A ascensão dos holandeses foi a primeira manifestação inequívoca de uma tendência que não seria mais revertida. A partir daquele momentos os países católicos, que haviam sido tradicionalmente ricos e pregadores da pobreza, tornaram-se tradicionalmente pobres e à margem da riqueza. Para ser realmente rico e desfrutar do grosso da riqueza tornou-se necessário, mais ou menos como nos nossos dias, nascer ou transferir-se para um país de tradição ou colonização protestante. * * *Levada às últimas conseqüências, a visão de mundo protestante/capitalista gerou o nosso mundo e seu exigente culto da performance: a glorificação final do sucesso e do desempenho. Porque, como vivo dizendo, o capitalismo é religião; seu deus, ao contrário do que se pensa, não é o dinheiro, mas a performance. Resta-nos pouca moral, mas o que nossa ética de fato cultua é o talento e o empreendorismo. Os heróis e santos contemporâneos são inequivocamente os vencedores, os talentosos, os empreendedores, os famosos, os bem-sucedidos. Esses, no nosso livrinho, é que são gente edificante, de valor, a ser admirada, seguida e – se tudo der certo – superada. O que temos no fim das contas não nos satisfaz, porque medimos nossa própria felicidade pela proporção em que nos conformamos aos padrões e precedentes estabelecidos pelos mais tecnicamente bem-sucedidos que nós. Nossa teologia é o liberalismo econômico, nosso deus a performance.É na verdade apenas essa crença no mérito inerente do desempenho que nos faz posicionar contra pecados modernos como a corrupção. O problema da corrupção, por essa nossa visão de mundo, é que ela impede o livre curso e a supremacia da performance – quando cremos que a performance é a verdadeira medida do valor. A corrupção nos parece ruim porque não permite que os verdadeiramente talentosos e esforçados sejam recompensados. E que os talentosos e esforçados devem ser recompensados e os incompetentes e preguiçosos punidos, é inquestionado item de fé da nossa religião. Nossa teologia é o liberalismo econômico, nosso deus a performance. Nosso panteão é por essa razão povoado por gente admirável como Ayrton Senna, Paul McCartney, Steve Jobs, George Clooney e Bill Gates – gente que se define pela naturalidade com que palmilha os átrios do talento e do empreendedorismo no templo do sucesso. Naturalmente que nossa idolatria da performance é, por necessidade, contraditória e distorcida. Na mesma medida em que nos prostramos diante de santos contemporâneos como Senna, nos deleitamos na desconstrução pública de outros de nossos ícones. Acompanhamos com delícia e horror o espetáculo da auto-destruição de Michael Jackson ou a infâmia do mais recente ídolo do rock encontrado morto e drogrado e nu (não necessariamente nessa ordem) em sua banheira. Torcemos pela pobrezinha do Big Brother, e no momento seguinte vemos com um misto de inveja e indignação sua decisão de posar para a Playboy. Intuímos, no entanto, que faz tudo parte do espetáculo e que toda religião tem seus sacrifícios e vítimas.
Este documento faz parte da série O rico e seu camelo
28 de Maio de 2006
ConvitePormenorOs monges de São Brabo convidam para o sarau de inauguração da nova Sala de Arquivos da Biblioteca do Monastério, apresentando a invertida Árvore Mística de Navegação. Para facilitar o seu acesso, colocamos uma entrada no cabeçalho de cada página da Bacia. Traje: estritamente opcional. 27 de Maio de 2006
O silêncio do hóspedeGoiabas RoubadasOs olhos verdes, as orelhas vermelhas e a cabeça branca formavam no silêncio uma expressão apreensivamente italiana. O seu mundo não era escuro como o do cego, embora sua pele e passado o fossem. E não havia porquês suficientes para que continuasse a se esconder ali, dentro do seu último esconderijo: Quando pisávamos com os pés descalços sobre a terra vermelha e podíamos distinguir algumas dezenas de passarinhos, encenávamos com alguma originalidade um destino salutar. Percebíamos, usando a totalidade dos nossos sentidos naquela época, que precisaríamos apenas dos poucos recursos que estavam ao alcance de nossas mãos. E que brotavam em jabuticabeiras, páginas amarelas e revistas contrabandeadas. E nadavam nos rios, em pensamentos flutuantes e junto aos nhoques que emergiam. Mas enquanto você carregava baldes d’água para dentro de casa, sentia meus ombros latejarem por um peso que eu mesmo fazia questão de cultivar: o de destruir qualquer reflexo. Infelizmente não dispúnhamos ainda da instrução necessária para questionar qualquer lei da Física dos Materiais, então eu apenas quebrava espelhos. Até hoje não dispomos de tal informação ou capacidade, apesar de cultivarmos o hábito nefasto de buscarmos em livros dados fora dos noticiários ou das conversas sobre o tempo. Mas a terra vermelha, cuja tonalidade assemelhava-se muito mais a sangue venoso que arterial, revelou uma possibilidade e ao mesmo tempo uma catástrofe. Como você está careca e cego de saber, é por isso que estamos aqui. (Retirou as meias e o assoalho de madeira, em sua primeira chance de ranger, não o fez. Prosseguiu.) O que você possui agora, além de cultura suficiente para completar apenas o pote de arroz na geladeira, são dentes milagrosamente bons e amigos invisíveis. E eu. Que consumo as suas migalhas e o seu chuveiro adaptado, que projeto as minúcias de uma invasão consentida e formas alternativas de comunicação, que reclamo à quem não tem nada a ver com isso a tentativa de me inserir. Em vão, uma vez que o deslocamento faz parte da minha expectativa e não da posição em que me encontro. Caminhei por laudos médicos e fugi dos técnicos. Encontrei-o por acaso quando uma pilha de fichas psicanalíticas servia para me aquecer. (A idéia de partilharmos a cama parece bem mais agradável.) Não havia parecer conclusivo, apenas indicações culturais, se gostaria de saber. E apontamentos sobre solidão, saudosismo e culpa pela ingestão de doce. Quando o observo no chuveiro percebo a origem da culpa, e a idéia de partilharmos a cama parece mais repugnante. Quando estou lá naquele banheiro sem espelho e úmido, além do medo de escorregar, sinto um alívio sobre os ombros. Compreendo que a força que pendia sobre eles desapareceram, pois você não se parece mais com aquele que carregava baldes e corria nigerianamente sobre os campos. E como os pés descalços ingênuos nos fizeram crer na pureza da terra sadia. O seu vermelho o transformou numa criatura indefinível (como as formas que cria através de sons) e, finalmente, diferente de mim. (Ergueu a faca, observou o pouco brilho que refletia quase nenhuma luz através das lascas de cenoura e deu um suspiro profundo.) Em mim, o vermelho até hoje está grudado nos meus pés. Escondidos através de sucessivas camadas de meias em sua carne viva. Como você não pode ver. Mas poderia escutar, se eu tivesse preservado a capacidade de falar. * * *
Rodrigo M (por email), em combativa resposta a O cego e o hóspede Você está examinando
os arquivos dA Bacia das Almas estocados em Maio 2006.
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