Manuscritos estocados em Abril do Anno 2006 de Nosso Senhor
30 de Abril de 2006

O bicho

Manuscritos

Tive sexta-feira à noite um chocante momento de revelação. O universo foi clemente e usou a chave certa para me destrancar.

Eu estava assistindo ao avassalador A Lula e a Baleia, filme que devassa com compaixão e cinismo os sutilíssimos mecanismos através dos quais os protagonistas de um divórcio sustentam o seu pérfido egocentrismo.

Achei o filme impecável mas fui resistindo bravamente na retaguarda, até o momento em que determinado personagem, colocado contra a parede, diz simplesmente: “Não me vejo como o tipo de pessoa que…”

Ele não termina a frase, mas nós que estamos acompanhando o filme sabemos (e ele também) que ele é precisamente o tipo de pessoa que faz o que ele faz. A frase simplesmente deixa muito claro que de algum modo o sujeito havia estado investindo grande parte dos seus recursos a fim de ocultar de si mesmo que ele era o tipo de pessoa que comete os pecados menores mas barbaramente exigentes que ele cometia.

Essa cena em particular serviu-me como chave porque caí na temerária besteira de aplicá-la a mim. Fui forçado a dizer na minha mente não me vejo como o tipo de pessoa que – completando-a com aquelas informações-chave que somente eu sei a meu respeito – e o que descobri não foi nada bonito.

E a feiúra do negócio estava menos nas besteiras que posso ter estado fazendo do que na minha surreal mesquinheza de ter estado ocultando-o com tanto sucesso de mim mesmo.

* * *

Já que estava nessa, tive de aproveitar o momento de lucidez para arrancar todas as máscaras que me vieram à mão e olhar com alguma compaixão e muita surpresa o sujeito nu que me olhava do espelho.

O paradoxo de um empreendimento como a Bacia está em que, embora ninguém embarque em algo parecido sem esperar ser descoberto, ouvido e admirado, ele só serve de ferramenta de autoconhecimento durante o período que antecede o preciso momento em que angariamos um público fiel. Foi curioso para mim reconhecer que a Bacia me fez mais bem antes que gente notável como o Rubens, o Farah, o Jo, o Marconi, a Carol, o Hernan, o Lou e o Volney (para mencionar apenas os menos reservados) ocupassem os assentos vazios da mesa redonda, passando a assinar embaixo e assentir com a cabeça. Essa nova afiliação me desconcertou e me prejudicou – embora isso diga naturalmente menos sobre eles e suas expectativas do que sobre mim e minhas buscas.

Minha tentação, agora que vocês me conhecem, é desempenhar um papel, executar uma estudada performance: batalhar mais uma vez por aprovação ao invés de continuar mergulhando com toda a sinceridade possível em mim mesmo. A tentação é acreditar na imagem projetada e fazer a cômoda e deliciosa transição de pessoa a personagem; de peregrino a pregador; de mortal a moralista.

Posso passar tranqüilamente a vida desse jeito, ignorando que sou o tipo de pessoa que faz [tal coisa] e, pior, sem jamais chegar ao conhecimento do que realmente sou: sem experimentar o esquivo processo que Jung chamou de individuação.

* * *

Esse processo de se tornar um indivíduo é, aparentemente. muito custoso – tão custoso que preferimos investir todos os recursos disponíveis em evitar enfrentar essa batalha de frente.

Salvo engano, é por essa razão que gastamos tanto tempo investindo num egocentrismo que é, paradoxalmente, autodestrutivo. Quando nos fixamos na satisfação do ego, seja na glorificação da imagem pessoal ou na satisfação dos apetites, acabamos sendo privados do raro prazer de descobrir quem de fato somos.

A farsa mais poderosa do egocentrismo está em que ele acena com a ilusão de que estamos pensando sobre nós mesmos e buscando a nossa própria satisfação, quando estamos na verdade sendo prisioneiros dos outros e da sua vontade.

O problema essencial com o pecado está em que ele consiste em condutas e posturas que nos parecem tão evidentemente vantajosos para a satisfação do ego – mas que são cuidadosamente planejados por regiões sombrias de nós mesmos de modo a impedir que cheguemos ao conhecimento de quem realmente somos.

***

O que a individuação requer é que deixemos de lado todos os confortos, ilusões e subterfúgios e encaremos de frente o vazio. A realidade a seco, sem gelo.

Qualquer coisa que se interponha nesse processo de individuação (“para que vocês sejam um”) é o que se chama em outro lugar de pecado.

***

A gente inventa qualquer coisa
Pra não sofrer
E ri à toa
Pra não chorar

A gente inventa de morar até na lua
E quer partir de mala e cuia
A gente vive em edificio de elevador
Quer morar no céu ou no Arpoador

E ri à toa
pra não chorar

A gente sonha, bebe e chora pra esquecer
Rasga cartas e retratos pra não sofrer
A gente sai pra viajar, pra caminhar
Quer trabalhar pra não lembrar

A gente não quer encarar o bicho
Que tá roendo dentro de nós

A gente inventa qualquer coisa
Pra ser feliz
Se apaixona por um ator
ou por uma atriz

Zé da Riba, Fuga nº 1

29 de Abril de 2006

Recall

Pormenor

Pereça o dia em que nasci e a noite em que se disse:
Foi concebido um homem!
Converta-se aquele dia em trevas;
e Deus, lá de cima, não tenha cuidado dele,
nem resplandeça sobre ele a luz.
Reclamem-no as trevas e a sombra de morte;
habitem sobre ele nuvens;
espante-o tudo o que pode enegrecer o dia.

Aquela noite,
que dela se apoderem densas trevas;
não se regozije ela entre os dias do ano,
não entre na conta dos meses.
Seja estéril aquela noite,
e dela sejam banidos os sons de júbilo.
Amaldiçoem-na aqueles que sabem amaldiçoar o dia
e sabem excitar o monstro marinho.
Escureçam-se as estrelas do crepúsculo matutino
dessa noite;
que ela espere a luz, e a luz não venha;
que não veja as pálpebras dos olhos da alva,
pois não fechou as portas do ventre de minha mãe,
nem escondeu dos meus olhos o sofrimento.

Por que não morri eu na madre?
Por que não expirei ao sair dela?
Por que houve regaço que me acolhesse?
E por que peitos, para que eu mamasse?
Porque já agora repousaria tranqüilo;
dormiria, e, então, haveria para mim descanso,
com os reis e conselheiros da terra
que para si edificaram mausoléus;
ou com os príncipes que tinham ouro
e encheram de prata as suas casas;
ou, como aborto oculto, eu não existiria,
como crianças que nunca viram a luz.

Ali os maus cessam de perturbar, e,
ali, repousam os cansados.
Ali os presos juntamente repousam
e não ouvem a voz do feitor.
Ali está tanto o pequeno como o grande
e o servo livre de seu senhor.

Por que se concede luz ao miserável
e vida aos amargurados de ânimo,
que esperam a morte, e ela não vem?
Eles cavam em procura dela
mais do que tesouros ocultos.
Eles se regozijariam por um túmulo
e exultariam se achassem a sepultura.
Por que se concede luz ao homem,
cujo caminho é oculto,
e a quem Deus cercou de todos os lados?
Por que em vez do meu pão
me vêm gemidos,
e os meus lamentos se derramam como água?
Aquilo que temo me sobrevém,
e o que receio me acontece.

Não tenho descanso,
nem sossego,
nem repouso,
e já me vem grande perturbação.

28 de Abril de 2006

Narrativa versus teologia

Fé e Crença, Goiabas Roubadas

QUANDO O GRANDE RABINO Israel Shem Tov via a desgraça ameaçando os judeus era seu costume ir a um certo lugar da floresta para meditar. Ali ele acendia uma fogueira, proferia uma oração especial e o milagre era realizado e o infortúnio evitado. Mais tarde quando seu discípulo, o celebrado Magid de Mezritch, teve oportunidade, pela mesma razão, de interceder ao céu, ele foi ao mesmo lugar na floresta e disse: “Senhor do universo, ouve: não sei acender uma fogueira, mas sou ainda capaz de proferir a oração”, e novamente o milagre foi realizado. Ainda mais tarde o rabino Moshe-leib de Sasov, a fim de salvar seu povo mais uma vez, foi à floresta e disse: “Não sei acender uma fogueira e não conheço a oração, mas conheço o lugar da floresta e isso deve bastar”. Bastou e o milagre foi realizado. Então recaiu sobre o rabino Israel de Rhyzin afastar o infortúnio. Sentado em sua poltrona, cabeça entre as mãos, ele disse a Deus: “Não sei acender uma fogueira, não conheço a oração e não sei achar o lugar na floresta; tudo que posso fazer é contar a história, e deve bastar”.
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Este documento faz parte da série

Teologia narrativa

  1. A narrativa divina
  2. Narrativa versus teologia
  3. Perto dos lábios, longe do coração
27 de Abril de 2006

Antes e depois

Quase Ciência

Creio que foi um já velhinho William Shatner, em seu fraquinho papel no ainda mais fraco Miss Simpatia 2, que disse que todas as vezes que se olha no espelho se pergunta: “quem é esse velho usando o meu pijama?”

Pois quase aconteceu comigo, mas nossos problemas aparentemente terminaram:

O transplante de cérebro é um novo procedimento cirúrgico que permite que você se torne jovem novamente mudando de corpo ao invés de tentar consertar o velho.

Keep your soul, change your body
A senhora Rappoport antes e depois do transplante de cérebro.

Por apenas US$499.000,00 você ganha um corpo humano totalmente novo, de qualquer raça, sexo e idade que desejar. O preço inclui preparação médica, preparação legal, procedimento micorcirúrgico, cuidado e recuperação pós-cirúrgicos.

O sáite oficial da BrainTrans se você tiver interesse. Você pode querer garantir um lugar na lista de espera, e não deixe de ver a galeria de corpos disponíveis (“devido a aspectos éticos não discutimos como nem onde obtemos os corpos humanos para o transplante de cérebro”).

* * *

E antes que o cético em você afirme que é impossível, confira o filme da década de 1940 em que cientistas soviéticos, aparentemente com sucesso, mantém uma cabeça de cachorro viva depois de extraí-la do corpo do animal, ou este em que outro russo (Vladimir Demikhov, em 1954) enxerta uma segunda cabeça num cachorro vivo (veja, em especial, o clipe M10_ 4_007.wmv). Se não requer prova cinematográfica, você pode ainda querer ler sobre a equipe norte-americana que transplantou com sucesso a cabeça de um macaco para o corpo de outro (em formato PDF).

A verdade está na cabeça de cada um. Por enquanto.

BrainTrans

26 de Abril de 2006

Revelação: O mistério do trailer que conta tudo

Sociedade

O videoclipe talvez seja a forma de arte pós-moderna por excelência, mas o trailer de cinema permanece como curioso ícone das contradições da nossa era.

O propósito do trailer é, naturalmente, gastar os seus dois ou três minutos de vida na ingrata missão de convencer você a pagar para assistir o filme principal. Num mundo sensato o trailer deveria ser capaz de fazê-lo sem revelar os trunfos e reviravoltas do filme – afinal de contas, quem seria bobo de pagar para ver uma história cujas surpresas já conhece e cujas melhores partes já assistiu?

Aparentemente, todo mundo.

Os executivos de Hollywood descobriram já desde a década de 1940 que as pessoas deixam de ver filmes por vários motivos, mas saber muito a respeito do roteiro não está entre eles. Pelo contrário: parece que as pessoas sentem-se muito mais à vontade assistindo a um filme com cujas linhas gerais já estão familiarizadas. Elas em geral acham muito pior pagar pelo desconforto de sentar-se diante de um filme com cujo teor e mensagem não se sentirão à vontade.

Você assistiria Romeu e Julieta se soubesse que ambos morrem no final?

Nem todos os trailers de cinema se dão portanto ao luxo de serem classudos como o trailer original de Alien: O oitavo passageiro. Com tanta coisa em jogo e sabendo que vale à pena queimar todos os trunfos nessa cartada de minutos para conquistar o consumidor, a regra geral é apresentar não apenas os personagens, mas também o conflito e as seqüências mais espetaculares. A ciência do trailer desenvolveu-se a tal ponto que muitos são friamente calculados para serem efetivamente melhores do que o próprio filme (e para salvá-lo), apresentando seu próprio senso de ritmo, edição e trilha sonora.

Hoje em dia apenas os diretores mais badalados e com maior controle sobre as suas produções, como Steven Spielberg e M. Night Shyamalan, têm cacife para exigir dos estúdios um trailer mais reservado.

Porém esses são exceção: na dúvida entre revelar pouco e revelar demais, os estúdios ficam com a segunda opção, que é invariavelmente a mais segura.

Paradoxalmente, nem os filmes de mistério, que dependem de sutilezas como clima, ritmo e a bem-sucedida distribuição de falsas pistas, escapam dessa maldição. O competente Revelação (What Lies Beneath, Dreamworks, 2000), de Robert Zemeckis (diretor de Forrest Gump e que não é, ele mesmo, um diretor menor) é um filme de mistério com várias camadas, sutilezas e reviravoltas, todas as quais são reveladas, ou pelo menos espetacularmente sugeridas, no desconcertante trailer.

Assisti há alguns meses o trailer de Lady in the water, o novo filme de Shyamalan, e sei pouco sobre a história a não ser que tem uma mulher, uma piscina e um homem. Não há nenhuma explosão visível mas fiquei ainda assim com vontade de assistir.

Mas não se iluda: o ser humano é tamanho enigma que eu teria pago para ver O Sexto Sentido mesmo se soubesse de antemão que, por assim dizer, ele morre no final.