Manuscritos estocados em Março do Anno 2006 de Nosso Senhor
31 de Março de 2006

Vagalume

Ilustração

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30 de Março de 2006

A narrativa divina

Fé e Crença

QUANDO OUVIRAM pela primeira vez a palavra da Lei nos Dez Mandamentos, conta a velha história rabínica, os israelitas desfaleceram. Suas almas os deixaram. A palavra então retornou a Deus e bradou:

– Ah, Soberano do Universo, tu vives eternamente e tua Lei vive eternamente. Mas enviaste-me a mortos. Estão todos mortos!

Por essa razão Deus teve misercórdia e tornou sua palavra mais palatável. Essa história traz duas lições. Primeiro que a palavra de Deus é poderosa. É sua própria identidade, e “quem pode resistir à sua presença?” Em segundo lugar, para tornar sua palavra-presença mais palatável, Deus encontrou uma solução: recontou-a sob a forma de histórias.

Por quê? Haverá nas histórias algo que por sua própria natureza expressa os caminhos e a mente de Deus mais do que qualquer outra expressão? Será porque a narrativa é uma incontrolável “energia de conhecimento” que liga uma pessoa a outra, uma geração a outra e em última instância todos a Deus? Será na verdade a história – falada, escrita, encenada, pintada, esculpida, desenhada, cantada – um eco da nossa origem, um elo-tradição que nos liga a nossos começos, uma ressonância de alguma realidade ancestral?

William J. Bausch, Storytelling: Imagination and Faith

Leia também:
A comprovação da arte – J. R. R. Tolkien
Mito e metáfora – Joseph Campbell

 

Este documento faz parte da série

Teologia narrativa

  1. A narrativa divina
  2. Narrativa versus teologia
  3. Perto dos lábios, longe do coração
29 de Março de 2006

Agência Eureka

Grandes Navegações

Uma das primeiras coisas que aprendi lendo Borges é que os bons livros tem a extraordinária virtude adicional de indicar outros bons livros e autores. A excelência é generosa e aponta sempre para fora.

Os sáites da internet têm, naturalmente, o mesmo defeito e a mesma virtude. A oferta é tanta que fica difícil garimpar a excelência; mas basta encontrar uma única pérola para encontra o mapa do tesouro.

O notabilíssimo Giornale Nuovo apresentou-me, por exemplo, ao vertiginoso BibliOdissey, que por sua vez conduziu-me à indecifrável Agência Eureka, que estou indicando agora.

Nada sei sobre a Agência, a não ser que é pilotada pela adorável Pita de seu posto privilegiado na província de Ródano-Alpes, na França – onde mora (aparentemente só) numa casa com paredes amarelas e portas verdes com uma gata chamada (creia-me) Mimi. No que me diz respeito, poucos sáites da internet são mais irresistíveis do que a Agência – que já me custou tantas horas de prazer ilícito que posso ter de processar a Pita por causa disso.

Há aqui tudo que é nostálgico, retrô, kitsch, antiquado, de bibelô, arquetípico, cheirando a guardado. Fotos de artistas de cinema, cartões postais, bonecas de papel, livros infantis, gravuras, ilustrações, anúncios de revista, moda, perfume, folhetos turísticos, decalcomanias: tudo deliciosamente clicável, levando sempre a versões maiores, e com links preciosos para as coleções originais. A Agência é uma atordoante e aleatória (por isso completa) coleção das efêmeras artes visuais da primeira (e única) metade do século XX.

Veja com seus próprios olhos e não diga que não avisei:
Agência Eureka

Depois de conferir a página principal certifique-se de devassar os generosos arquivos (acessíveis no sáite pela coluna da direita).

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Pita tem também um repositório de imagens aqui.

28 de Março de 2006

Aula de ninar

Jurássicas

Algum momento entre as 19h00 e as 23h30, entre 1987 e 1988, acarteirado numa sala do prédio Dom Pedro II da Federal do Paraná, durante a aula de Métodos Quantitativos, ponderando como estimar de forma adequada (levando em conta as durações aleatórias) a soma das variâncias das atividades que compõem cada um dos caminhos críticos. Clique para ampliar.

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27 de Março de 2006

O atordoante custo de pensar

Quase Ciência

Todo mundo já ouviu falar que o ser humano usa apenas 10% do poder do seu cérebro. A informação é inevitavelmente usada como argumento de superação pessoal: se apenas um décimo da nossa capacidade cerebral é de fato utilizada, restam abundantes 90% de potencial precioso e inexplorado aguardando liberação.

Pelo menos 10% de nós já ouviu, por outro lado, que essa idéia dos 90% de subutilização do cérebro é – por inteiro – conversa fiada.

A mais rápida consulta a São Google apontará diversos sáites de divulgação científica que denunciam não haver embasamento científico para a noção. Aparentemente a idéia começou a ser divulgada quando alguns neurocientistas concluíram, na década de 1930, que apenas 10% do córtex cerebral humano entrava em atividade durante a estimulação sensorial ou o controle motor do corpo, enquanto os nove décimos restantes permaneciam perfilados em repouso, aguardando o momento de serem úteis.

O que significa dizer que utilizamos apenas 10% da nossa capacidade cerebral?

A idéia da utlilização de 10% do cérebro parece portanto ter um fundo de verdade – mas ignora que outras regiões do cérebro são imediatamente acionadas durante outros tipos de atividade. Ou seja, a informação original era que utilizamos 10% da nossa capacidade cerebral de cada vez. Ninguém duvidava, no entanto, de que praticamente todo o cérebro era utilizado em algum momento, coisa que as tomografias computadorizadas acabaram confirmando.

Confesso que eu, em minha cerebral subutilização, sempre desconfiei tanto dos proponentes quanto dos desmistificadores da idéia. Talvez o problema real esteja em quão irremediavelmente vaga a noção de fato é: o que significa dizer que utilizamos apenas 10% da nossa capacidade cerebral? Que se tivéssemos 90% da massa do cérebro removida continuáriamos funcionando normalmente? Que se utilizássemos 100% do cérebro pensaríamos 9 vezes mais rápido, teríamos 9 vezes mais idéias ou lembraríamos de 9 vezes mais coisas? Por outro lado, o argumento dos desmistificadores, de que as tomografias provam que 100% do córtex entra em atividade em algum momento, nada prova. A utilização não refuta a subutilização. O fato de uma ferramenta ser utilizada eventualmente não implica em ela estar sendo usada de forma correta – ou de forma a liberar todo o seu potencial. Ainda mais quando falamos de uma ferramenta tão irredutivelmente complexa quanto o cérebro humano.

Parece sensato supor, como sugerem alguns, que estamos condenados a jamais chegar a entender o mecanismo do nosso cérebro – precisaríamos, na verdade, de um cérebro maior para chegar a entendê-lo (e de um cérebro maior para entender esse cérebro maior, ad infinitum). Talvez, no fim das contas, capacidade cerebral seja coisa imponderável demais para ser medida.

Mas há coisas que se pode medir.

Em cada dado momento, 99% do seu cérebro está desligado.

Um artigo do irriquieto colunista científico Carl Zimmer chamou-me recentemente a atenção para um estudo realizado por um certo Peter Lennie, da Universidade de Nova Iorque. O que esse sujeito se propôs a medir foi a quantidade de energia que o cérebro usa para pensar.

[Lennie] calculou a energia total utilizada pelo córtex humano, com base em recentes estudos de nueroimagem. Em seguida ele calculou quanta energia um único neurônio utiliza ao gerar um impulso elétrico. Finalmente, ele utilizou esses dados para estimar quantos neurônios do córtex podem estar ativos num dado momento. Sua estimativa? Cerca de um por cento.

Como observa Zimmer, essa nova descoberta é ainda mais estarrecedora do que a velha história dos 10%. A nova revelação é que pensar exige tamanhos recursos energéticos que apenas 1% dos neurônios pode ser utilizada de cada vez. Em cada dado instante, 99% do seu cérebro está imerso no mais absoluto blecaute. Parado. Desligado. Ocioso. Não pensa, logo não existe.

Conclui Zimmer:

Mesmo em repouso nosso cérebro utiliza 20% do oxigênio que captamos, e dependemos de uma intrincada malha de vasos sangüíneos para resfriar o cérebro enquanto ele utiliza tamanha energia. Se chegássemos a utilizar o pleno potencial do nosso cérebro, ao que parece, nós o incendiaríamos por completo no processo.

Coloque isso na cabeça.