Manuscritos estocados em Fevereiro do Anno 2006 de Nosso Senhor
21 de Fevereiro de 2006

Notas milimétricas

Pormenor

Clique para ampliar

  • É temporada de vendavais e trovoadas aqui nas Índias Ocidentais. Ontem à noite, numa tempestade espetacular digna de Vertente, choveu 80mm (oito centímetros), a cozinha do Monastério tamborilou por uma hora inteira com goteiras e panelas e ficamos sob a luz de velas a partir de perto das 20h00. As pancadas vão e vem e com elas a energia elétrica, por isso não vos assusteis se a postagem de novos documentos atrasar um meio-dia ou dois. É apenas o princípio das dores;

  • A Bacia recebeu hoje a não menos espetacular visita do semimisterioso Mr. H;

  • Hoje é aniversário da minha irmã Alice, que lê e promove a Bacia em recatado silêncio, porque acredita que o que reina aqui é “papo de homem”;

  • Vários envolvidos haviam dado a entender, mas é finalmente oficial: Steven Spielberg afirmou numa entrevista que vai de fato filmar Indiana Jones IV.
    “Estou para fazer Indiana Jones 4, que é, no que me diz respeito, a doce sobremesa que dou aos que tiveram de engolir as ervas amargas que usei em Munique.”
    Para revelações adicionais sobre o filme, não deixe de examinar o documento EXCLUSIVO: Indiana Jones e a Bacia das Almas.

21 de Fevereiro de 2006

O bibliotecário de Babel

Grandes Navegações, The Net

O envelope de Mr. H chega ao Monastério
O envelope de Mr. H chega ao Monastério

No conto A Biblioteca de Babel, de Jorge Luis Borges, o universo é uma infinita biblioteca em que os livros que vale à pena ler são tão exuberantemente raros que os bibliotecários dedicam suas vidas a encontrá-los e catalogá-los.

O mundo real, o nosso mundo, é uma infinita biblioteca, e os livros que vale à pena ler são tão exuberantemente raros que certas pessoas dedicam suas vidas a encontrá-los e catalogá-los. Morto Borges, o semimisterioso Mr. H, do sáite Giornale Nuovo, talvez seja o último bibliotecário de Babel remanescente; é por certo o único que conheço.

Mr. H é um louco e um santo.

Na selvagem competição da internet, não há blog mais erudito, mais singular e mais classudo do que o Giornale. Trata-se de irresistível baú de curiosidades, do qual Mr. H (cujo verdadeiro nome não sou autorizado a revelar) retira com um toque esporádico de graça coisas novas e velhas.

Mr. H não é apenas um caçador de erudições dignas de nota: é também um louco e um santo, e comete periodicamente a suprema transgressão/auto-sacrifício/desfaçatez de livrar-se de livros que já leu oferecendo-os voluntariamente a quem interessar possa. Seu selvagem desapego não é apenas pelas coisas materiais, mas também pelas coisas do espírito, sendo que a segunda coisa é ainda mais rara e notável do que a primeira.

Movido por essa liberalidade, vez por outra Mr. H posta no Giornale uma relação de livros ou CDs (relação que cobre invariavelmente uma boa amostra de seus ecleticíssimos interesses), e oferece-se para enviar os itens da relação aos primeiros mortais que se derem ao trabalho de levantar a mão para reivindicá-los. A generosidade do bibliotecário cobre inclusive os custos de correio – mesmo em se tratando de destinos remotos como as Índias Ocidentais.

Seu selvagem desapego não é apenas pelas coisas materiais, mas também pelas coisas do espírito.

Fui tocado recentemente por essa graça, e chegou-me semana passada pelo correio o delicioso volume dourado de Hieroglyphics – A Note upon Ecstasy in Literature, volume de “idéias” do inglês Arhur Machen, escritor de literatura fantástica que teve admiradores do calibre de Borges e Lovecraft. O volume, publicado em Londres em 1912, já era (como convém) usado quando chegou às mãos de Mr. H.

Queria deixar aqui uma frase de efeito ou um pensamento original, mas não sei o que dizer sobre a generosidade desse sueco, sobre livros antigos, sobre livros lidos a anotados por outras pessoas, sobre os milagres da cega deusa internet, sobre envelopes de terras distantes ou sobre o êxtase na literatura.

Clique em qualquer das imagens abaixo para ampliar.

Clique para ampliar

Clique para ampliar

Clique para ampliar

Veja também:
Giornale Nuovo

20 de Fevereiro de 2006

Margem de caderno: Dirimir

Jurássicas

19 de Fevereiro de 2006

Filho do Homem

Fé e Crença, Goiabas Roubadas

Dorothy L. Sayers,
The Man Born To Be King, 1943

JOÃO BATISTA. Eu vi e ouvi. Você é o Messias prometido… Nós sempre soubemos – e ainda assim posso dizer que eu jamais soube, de modo algum… Você é meu primo e meu amigo… nós brincamos juntos, conversamos juntos… falamos do Reino de Deus… E a palavra veio a mim: “Um dia você verá o Espírito de Deus descendo sobre um homem vivo – e este será o homem que irá batizar o mundo com fogo”… E quando vi, os cabelos da minha carne se eriçaram… O que significa?… Tenho conhecido você por todos esses anos e agora sei que nunca o conheci… Diga-me, Jesus, filho de Maria, quem e o que é o Messias, o Cristo de Deus?

JESUS. Quando você me batizou com a água do arrependimento…

JOÃO BATISTA. Sendo totalmente indigno de beijar-lhe os pés, filho do primo de minha mãe.

JESUS. Senti os ombros de Deus arqueados com o peso do pecado do homem. E eu soube…

JOÃO BATISTA. O que você soube, você a quem a voz chamou de Filho de Deus?

JESUS. Eu soube o que é ser Filho do Homem.

18 de Fevereiro de 2006

Amátia

Goiabas Roubadas

Esta é para minha AMada kÁTIA Klassen, que a recatada e oculta Mão divina (fantasiada de cego e babão Destino) reapresentou-nos ontem. Enxergo nessa poesia, que mandei certa vez à Kátia e ela agora trouxe-me à lembrança, todas as raízes do meu malogrado Manifesto Enganismo.

Timbórica, morfia, ó persefessa,
meláina, andrófona, repitimbídia,
ó basilissa, ó scótia, masturlídia,
amata cíprea, calipígea, tressa

de jardinatas nigras, pasifessa,
luni-rosácea lambidando erídia,
erínea, erítia, erótia, erânia, egídia,
eurínoma, ambológera, donlessa.

Áres, Hefáistos, Adonísio, tutos
alipigmaios, atilícios, futos
da lívia damitada, organissanta,

agonimais se esforem morituros,
necrotentavos de escancárias duros,
tantisqua abradimembra a teia canta.

Jorge de Sena, 1961