Manuscritos estocados em Fevereiro do Anno 2006 de Nosso Senhor
26 de Fevereiro de 2006

!

Pormenor

25 de Fevereiro de 2006

O clima do Brasil

Pormenor

O Brasil tem um clima bastante variado. No norte, o clima é de tensão entre seringueiros e defensores verdes do Greenpeace. No nordeste, o clima é calmo, devagar quase parando. No sudeste o clima é pesado e “os mano” não sobe o morro sem tá combinado com os truta não. No sul é mais calmo porque, com aquele frio nojento, ninguém sai na rua, estando sujeito ao congelamento caso não retorne a um lugar seguro após 7 minutos.

Já postei aqui sobre a entrada Brazil na versão inglesa da enciclopédia interativa desciclopédia (uncyclopedia.org).

Pois a desciclopédia tem agora uma deliciosamente inacurada versão em língua portuguesa, “idioma falado no Alasca, no leste da Argélia, nas ilhas Tuvalu, em alguns países do Leste Europeu, e por diversas pessoas na Terra Média”.

Na entrada sobre o Brasil o destaque é para uma desregrada cronologia da história brasileira, da qual seleciono uns poucos itens:

  • 15652 a.C. – Aparecem os primeiros pré-brasileiros, que faziam desenhos (como animais silvestres, bundas, etc.) e tocavam intrumentos (tambores, cavaquinhos). Também foi encontrada uma bola de couro de Chupa-Cabra.
  • 0 – Nasce Dercy Gonçalves, juntamente com o judeu Cristo Redentor.
  • 323 – Surge a religião oficial do país, o Carnaval.
  • 600 – Dercy vira mocinha.
  • 983 – O Brasil conquista a Argentina, Uruguai e Paraguai numa emocionante disputa por pênaltis.
  • 1000 – Ao completar seu primeiro Mileno, Dercy Gonçalves comemora ganhando torneio de Miss Brasil.
  • 1492 – Cabral chega no Brasil e volta à Portugal se proclamando o descobridor do Brasil. Vasco da Gama fica e funda um time de futebol.
  • 2040 – O Presidente do Haiti, Jacques de Oliveira, visita o Brasil para conhecer seu verdadeiro pai. Jacques é filho de uma haitiana com um soldado da força de paz do Brasil e nasceu logo após a desocupação do Haiti em 2007.
  • 13001 – Depois de juntar pedaços de um Fuscão preto, um gato preto morto, um capacitor preto de fluxo, do apoio financeiro dado pelo Governo Federal através de 3 malas pretas e de uma sessão de cheiramento de gatinhos, os cientistas brasileiros Tião Macalé e Zé Ruela constroem a primeira máquina do tempo 100% brasileira.
  • 13083 – Acontece a primeira viagem temporal brasileira! Utilizando o “Agora Vai!”, nome do novo protótipo experimental feito de latas recicladas de cerveja, sacos pretos de lixo e plástico bolha, os brasileiros voltam no tempo para tentar impedir o maligno plano argentino para matar Ayrton Senna, o piloto. Não o piloto da super máquina do tempo, é claro!

Como você sabe, a tremenda vantagem/desvantagem de enciclopédias interativas como a desciclopédia (cujo conceito foi chupado da menos ambiciosa e mais conhecida wikipédia) é que absolutamente qualquer um pode alterar o seu conteúdo – você mesmo, se quiser, pode editar entradas existentes, criar entradas novas e assim por diante.

É definitivamente coisa de quem não tem o que fazer. Por isso, entre deixar um comentário engraçadinho na Bacia e deixar a desciclopédia ainda menos acurada, por favor não hesite.

Você Sabia…

  • … que quanto mais eu rezo, mais assombração me aparece?
  • … que quando suor tiver valor, sovaco de pobre vai secar?
  • … que já que o Universo é infinito e qualquer coisa dividida por infinito tende a ser zero, a população do Universo é inexistente?
  • … que cachorro quando late no buraco de tatu sai espuma pela boca e chocolate pelo olho?
  • … que existem três tipos de pessoas no mundo: as que sabem contar e as que não sabem?
  • … que os três problemas da humanidade na verdade são dois, a burrice?
  • … que três entre quatro pessoas?
  • … que quatro entre cinco pessoas são seis?
  • … que José Dirceu, além de inocente, é virgem?
  • … e que essa era a única coisa que Lula sabia, e que ele tentou mudá-la mas não conseguiu?

E assim por diante.

O pessoal da ANA não pára.

Esta entrada da Bacia das Almas é um oferecimento de Daltony – ele quem faz.

[R]EXCESSO DE CARNAVAL

As idéias não descansam, mas desplugam-se periodicamente. Venho pela presente conceder ao leitor da Bacia 4 (quatro) dias de exílio compulsório. O negócio é levantar tarde, e passar pelo menos dois dias inteiros se espreguiçando antes de juntar coragem para levantar e andar até a rede. Se tudo correr bem a Bacia deverá erguer-se, das cinzas, na próxima quinta-feira.

Afinal de contas o espírito está pronto, mas o Carnaval está fraco.

24 de Fevereiro de 2006

O que é pós-moderno e o que não é

História, Pense comigo

Eu posso estar redondamente enganado
eu posso estar correndo pro lado errado
Mas a dúvida é o preço da pureza
E é inútil ter certeza.
Infinita Highway – Engenheiros do Hawaii

Quem fala em pós-modernidade está dividindo a história da civilização, muito grosseiramente, em três grandes períodos: a era pré-moderna, a era moderna e a era dos nossos dias – esta que, na falta de um nome melhor, convencionou-se chamar de “pós”.

A primeira era, a pré-modernidade, começou com o primeiro homem e estendeu-se a até algum momento do século XVIII. Durante todo esse período o ser humano manteve-se, basicamente, um bicho místico. A vida estava além do controle do homem e só podia ser explicada em termos sobrenaturais. Em geral não ocorreria a ninguém duvidar da realidade do mundo dos espíritos ou de coisa que o valha (digamos, o imaterial mundo das idéias de Platão), e todas as soluções aos problemas do ser humano dependiam da boa vontade de Deus ou deuses.

A principal característica da era moderna é a sua suprema confiança na mente humana.

Perto de 1700 a modernidade fincou pé. A Renascença deu a primeira, o Iluminismo a segunda e definitiva estocada que tiraram Deus e o sobrenatural do centro das atenções e colocaram ali o homem e os esforços humanos – particularmente a razão. A principal característica da era moderna é a sua suprema confiança na mente humana. Gente como Descartes gravou a ferro e fogo na mentalidade ocidental a noção de que a razão é o único caminho para o conhecimento, e toda a era moderna partiu do pressuposto de que a razão e a ciência (aplicadas em todas as áreas: saúde, política, urbanismo, ética) trariam as soluções necessárias para os problemas da humanidade. O slogan da bandeira brasileira, “Ordem e Progresso”, é tipicamente moderno em seu otimismo na iniciativa humana fundamentada no triunfo da sensatez e da razão.

Foi ao redor de 1960 que a maré começou a mudar. Coisas como a crise de energia, a teoria da relatividade, a guerra do Vietnã, a bomba de Hiroshima e os abusos do consumismo contribuíram para que as pessoas passassem gradualmente a concluir que a razão humana talvez não trouxesse, como prometera, respostas para os anseios mais profundos do mundo e do homem. Trezentos anos da supremacia da razão não haviam trazido nenhuma solução unânime para os problemas da guerra, da fome, da injustiça, do vazio existencial. A razão, concluíram esses, fracassara, e diferentes grupos independentes começaram a tatear em todas as direções em busca de alternativas. As revoluções sexual, mística e química trazidas à luz pelos hippies dos anos 60 foram os primeiros movimentos que pressupunham essa desconfiança pós-moderna para com as soluções otimistas e pré-fabricadas da era anterior.

A pós-modernidade que se levantou das cinzas da modernidade é tremendamente difícil de definir – entre outras coisas, porque definição é conceito tipicamente moderno e pertence a uma era anterior. Pode-se dizer com segurança que o homem pós-moderno é ao mesmo tempo cético, espiritual e tolerante. Ele duvida da eficácia da razão, do pensamento linear, da lógica convencional, da explicação racional. Ele está portanto aberto a todas as formas de misticismo e religiosidade, mas não apostará na validade definitiva de nenhuma, porque crê que todas contém a sua parcela de “verdade” e nenhuma pode ter a pretensão de se posicionar como verdade definitiva – possibilidade que arruinaria a validade e a beleza das outras alternativas.

O homem pós-moderno duvida da eficácia da razão, do pensamento linear, da lógica convencional, da explicação racional.

A indomável mentalidade desta era pode ser mais facilmente compreendida se considerarmos a forma de arte mais tipicamente pós-moderna: o videoclipe. Os primeiros vídeos de música eram “modernos” no seu caráter linear – contavam “historinhas” com começo, meio e fim. Mas logo os produtores de videoclipes adotaram uma linguagem mais radical, menos linear e mais fragmentária. Um videoclipe é um amontoado de imagens que não necessariamente contam uma história ou têm qualquer relação entre si; não têm uma “explicação”. Seu sistema é a ausência de um sistema. A idéia é passar uma impressão, e não deixar alguma coisa absolutamente clara.

Moderno é filme.
Videoclipe é pós-moderno.

Moderno é classificar, ordenar, definir, categorizar.
Pós-moderno é pulverizar, remixar, sugerir, evocar.

Moderno é concentrar a atenção e definir limites.
Pós-moderno é ampliar a visão e libertar-se de todos os confinamentos.

Moderno é a agente Scully.
Pós-moderno é o agente Mulder.

Moderno é racional, linear, científico, definitivo, argumentativo.
Pós-moderno é emocional, fractal, espiritual, relativo, evocativo.

Moderno é o Spock, do seriado Jornada nas Estrelas.
Pós-moderno é o Data, do seriado Jornada nas Estrelas – A Nova Geração.

Moderno aposta com esperança na razão.
Pós-moderno espera no que a razão não explica.

Moderno é o Super-Homem.
Pós-moderna é a morte do Super-Homem.

Moderno é debate político.
Pós-moderno é o inclassificável festival Burning Man.

Moderno tem ordem.
Pós-moderno é não necessariamente nesta ordem.

Moderno é sala de aula.
Pós-moderna é a internet.

23 de Fevereiro de 2006

O segundo dia

Goiabas Roubadas

A CRIAÇÃO: O segundo dia

No segundo dia Deus criou quatro coisas: o firmamento, o inferno, o fogo e os anjos. O firmamento não é o mesmo que o céu do primeiro dia. Trata-se do cristal que se estende sobre as cabeças dos Hayyot, do qual o céu deriva a sua luz, da mesma forma que a terra deriva do sol a sua luz. Esse firmamento protege a terra de ser inundada pelas águas do céu; ele forma a divisão entre as águas de cima e as águas de baixo. Foi cristalizado na forma sólida pelo fogo celeste, que ultrapassou os seus limites e condensou a superfície do firmamento. Desta forma o fogo fez a divisão entre o celestial e o terrestre por ocasião da criação, da mesma forma que fez por ocasião da revelação no Sinai. O firmamento não tem mais de três dedos de espessura, e apesar disso faz separação entre dois corpos tão pesados quanto as águas inferiores, que são as fundações do mundo inferior, e as águas superiores, que são as fundações dos sete céus, do Trono Divino e da residência dos anjos.

A separação das águas entre águas superiores e inferiores foi o único ato dessa natureza realizado por Deus em conexão com a obra da criação. Todos os outros foram atos unificadores. Este causou, portanto, algumas dificuldades. Quando Deus ordenou: “Que as águas se ajuntem num só lugar, de modo que apareça a terra seca”, certas porções recusaram-se a obedecer, e abraçaram-se umas às outras ainda mais firmemente. Em sua indignação contra as águas, Deus determinou que toda a criação se dissolvesse novamente no caos. Ele chamou o Anjo da Face e ordenou que destruisse o mundo. O anjo arregalou os olhos e fogos abrasadores e espessas nuvens projetaram-se deles, enquanto ele gritava:

– Aquele que divide em duas metades o Mar Vermelho! – e as águas revoltosas não se moveram.

Todas as coisas estavam ainda sob perigo de destruição. Então aquele que canta os louvores de Deus começou:

Tende piedade do teu mundo, não o destruas; pois se o destruirdes, quem cumprirá a tua vontade?

– Ó Senhor do mundo, nos dias que virão tuas criaturas cantarão sem interrupção louvores a ti; bendizer-te-ão irrestritamente, e glorificar-te-ão sem medida. Tu tomarás Abraão à parte de toda a humanidade para ser teu; um de seus filhos tu chamarás de “meu primogênito; e seus descendentes tomarão sobre si o jugo do teu reino. Em santidade e pureza tu lhes conferirás a Torá, com as seguinte palavras: “Eu sou o Senhor seu Deus”; a que eles responderão: “Tudo que Deus tem falado faremos”. E agora suplico-te, tende piedade do teu mundo, não o destruas; pois se o destruirdes, quem cumprirá a tua vontade?

Deus assim apazigou-se. Retirou a ordem que determinava a destruição do mundo, mas as águas ele colocou sob as montanhas, para permanecerem ali para sempre.

A objeção das águas inferiores contra a divisão e a separação não foi o único motivo para a sua rebelião. As águas haviam sido as primeiras a dar louvor ao Senhor, e quando foi decretada a sua separação em superiores e inferiores, as águas superiores regozijaram-se, dizendo:

– Bem-aventuradas somos nós, que temos o privilégio de habitar junto ao nosso Criador e junto ao seu Trono Santo.

Assim celebrando elas lançaram-se para o alto, e proferiram canção de louvor ao Criador do mundo. Tristeza recaiu sobre as águas inferiores. Elas lamentaram:

– Ai de nós, que não fomos achadas dignas de habitar na presença de Deus, e de louvá-lo juntamente com nossas companheiras.

Elas tentaram portanto alçar-se para o céu, até que Deus as repeliu, pressionando-as contra a terra. Apesar disso elas não deixaram de receber recompensa pela sua lealdade: quando desejam dar louvores a Deus, as águas superiores precisam pedir antes permissão às águas inferiores.

O segundo dia foi um dia desfavorável não apenas no sentido de que introduziu uma separação no que antes havia sido apenas unidade: foi também o dia que contemplou a criação do inferno. Deus não pôde portanto dizer desse dia como disse dos outros, “e viu que era bom”. Uma divisão pode ser necessária, mas não pode ser chamada de boa, e o inferno certamente não merece o atributo de bom.

O inferno tem sete divisões, uma abaixo da outra. Essas são chamadas Sheol, Abaddon, Beer Shahat, Tit ha-Yawne, Sha’are Mawet, Sha’are Zalmawet e Gehenna. São necessários trezentos anos para se percorrer a altura, a largura ou a profundidade de cada divisão, e seriam necessários seis mil e trezentos anos para se atravessar uma extensão de terra correspondente à extensão das sete divisões.

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22 de Fevereiro de 2006

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