Manuscritos estocados em Janeiro do Anno 2006 de Nosso Senhor
22 de Janeiro de 2006

Nova Era

Goiabas Roubadas, Sociedade

Imagine uma escola em que as crianças sabem ler e escrever, mas os professores não, e você terá uma metáfora da Era da Informação na qual vivemos.

Peter Cochrane

21 de Janeiro de 2006

O salvador de Jesus

Heresias Sensacionais

Os primeiros cristãos eram judeus; meros dois séculos depois os títulos de cristão e judeu eram vistos, por ambos os lados, como opostos e inteiramente incompatíveis.

Entre as diferenças de opinião, reforçadas ao longo dos milênios, estava o fato de que os judeus não conseguiram engolir que Jesus de Nazaré fosse de fato o messias prometido pelas Escrituras Hebraicas. A Bíblia hebraica parece prometer um messias vitorioso e político, que arrebanharia os judeus espalhados pelo globo e os lideraria a um triunfante retorno à Terra Prometida.

Como criam que Jesus não se encaixava nesse perfil, os judeus continuaram esperando pelo seu messias muitos séculos depois que os cristãos já estavam satisfeitos com o deles. Diversos candidatos a messias surgiram ao longo da história do judaísmo, mas nenhum outro recebeu aceitação tão unânime e produziu impacto tão profundo quanto Sabbatai Sevi (1626-1676).

Nenhum causou tão grande decepção, porque no auge da sua popularidade como messias dos judeus – quando havia angariado milhões de adeptos entre os judeus da Europa e do Oriente, levando levas inteiras de fiéis a abandonar suas cidades, suas profissões, seus pertences e suas casas para experimentar a apoteose do messias em Jerusalém – Sabbatai converteu-se ao islamismo.

Ninguém esteve tão perto quanto Sabbatai Sevi de se tornar o salvador de Jesus.

Sabbatai Sevi me interessa por inúmeros motivos. Entre eles, está a sua ousadia em passar diretamente do judaísmo para o islamismo sem parar na religião intermediária – para não dizer central – o cristianismo. Quem ele pensa que é?

Há também o seu curioso misticismo, calcaldo numa interpretação muito peculiar da cabala, que o levava a dizer barbaridades interessantíssimas, como a benção mais antiga de todas.

E, naturalmente, há o fato de ninguém ter estado tão perto quanto Sabbatai Sevi de se tornar o salvador pessoal de Jesus.

Isso porque, segundo o Talmude, Jesus havia sido o mais espetacular dos pecadores, condenado por suas transgressões a todas as macabras punições do inferno. Para os judeus do tempo de Sevi, Jesus havia cometido os pecados mais torpes que alguém pode cometer: desviara milhões de judeus da verdadeira fé, ocasionara a formulação de uma nova Escritura (seus seguidores ousavam chamar o Testamento de Moisés de Velho!) e, sobre essas impiedades, havia acumulado a mais grave: Jesus se autoproclamara Deus.

Jesus Cristo, na qualidade de falso messias, estava condenado à perdição eterna.

Até que surgiu em cena Sabbatai Sevi – que, segundo a teologia do seu grande profeta e amigo, Nathan de Gaza, estava destinado a resgatar Jesus dessa dura condenação.

Segundo Nathan, havia na verdade uma estranha relação de identidade entre Sabbatai Sevi e Jesus. O paradoxo do messias estava em que o bem absoluto (Sevi) acabaria brotando do mal absoluto (Jesus). “E finalmente”, garantia Nathan, “ele (Sevi) irá restaurar [a santidade] do qelippah (poder maligno) que corresponde [ao seu poder de santidade]: Jesus Cristo”.

“É preciso perceber como soaria a doutrina de uma restauração final de Jesus para as mentes judaicas do século XVII”, diz Gershom Scholem, biógrafo de Sabbatai, “a fim de assimilar por completo a ousadia de Nathan”.

Afinal de contas, Jesus era imperdoável. Se ele podia se salvar qualquer um podia, e essa possibilidade causou por si só tanta indignação entre os judeus quanto a suposta salvação de Jesus.

“Essa idéia de Nathan era”, prossegue Scholem, “apenas parte de uma noção ainda mais radical: a de que nada nem ninguém está irremediavelmente perdido, e de que tudo irá no final ser salvo e reinstaurado à santidade. A ‘redenção de Jesus’ foi, talvez, apenas a primeira expressão simbólica de uma doutrina que não havia sido ainda articulada, mas que Nathan desenvolveria e formularia com mais clareza nos anos seguintes. Se Jesus era passível de salvação, então havia esperança até mesmo para os rabis incrédulos que rejeitavam o verdadeiro messias, Sabbatai Sevi”.

20 de Janeiro de 2006

O teclado do seu PC é mais sujo do que o assento do WC

Quase Ciência

Um estudo de 2002 que passou despercebido (por mim) revela que as superfícies das áreas de trabalho pessoal (sua escrivaninha) de um escritório escondem mais bactérias do que as superfícies das áreas comuns (o corredor e o banheiro).

Segundo o estudo, patrocinado por um fundo da Clorox Company, o foco número 1 dos germes dentro de um escritório é o telefone, seguido de perto pelas escrivaninhas, pelas abas das torneiras dos bebedouros, pelos trincos do forno de microondas e pelos teclados de computador.

Surpreendentemente, os assentos de banheiro mostraram de forma consistente ter os menores níveis de bactérias das 12 superfícies testadas no estudo.

“Não pensamos duas vezes em comer nas nossas mesas de trabalho, muito embora a escrivaninha média contenha 100 vezes mais bactérias do que uma mesa de cozinha e 400 vezes mais bactérias do que a média de uma privada de banheiro”, diz o professor Charles P. Gerba, que liderou o estudo.

Com mais gente gastando cada vez mais tempo nas suas escrivaninhas, as bactérias encontram muito do que se alimentar.

O lugar da sua mesa onde você coloca a sua mão abriga neste momento cerca de 10.000.000 bactérias.

Fonte


Outra série de estudos conduzido pelo professor Gerba procurou os focos de germes dentro de casa.

Entre outras coisas, o estudo provou que as residências de homens solteiros (apesar das aparências) contém menos bactérias, já que eles raramente “fazem a limpeza”, e dessa forma não espalham as bactérias por aí, como fazem as asseadas donas de casa.

O lugar mais sujo e nojento e contaminhado da casa é, naturalmente, a cozinha. Dentro da cozinha, o objeto mais imundo e mais saltitante de coliformes fecais é a esponja, seguido pela pia, pela tábua de carne e pelo chão (que é o lugar mais limpo da cozinha). A banheira é mais suja do que o chão do banheiro, e a privada é o lugar mais limpo de todos.

Das xícaras que o professor examinou, vinte por cento estavam nadando em coliformes fecais, cortesia das esponjas com que foram lavadas. Além disso, pode ser útil saber que, no que diz respeito à contagem de bactérias, o estudo não encontrou qualquer diferença entre água de torneira e água de garrafa.

“Não importa o que você pense,” diz o professor Gerba, “sua cozinha é muito mais suja do que o seu banheiro. É por isso que o seu cachorro gosta de beber água da privada”.

19 de Janeiro de 2006

O corvo

Ilustração

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18 de Janeiro de 2006

O descortês mestre de cerimônias Kotsuké no Suké

Traduzindo Borges

O INFAME DESTE CAPÍTULO é o descortês mestre de cerimônias Kotsuké no Suké, sinistro funcionário que motivou a degradação e a morte do senhor da Torre de Ako e não quis se eliminar como um cavalheiro quando a apropriada vingança o apertou. É homem que merece a gratidão de todos os homens, porque despertou preciosas lealdades e foi a negra e necessária ocasião de uma empresa imortal. Uma centena de novelas, de monografias, de teses doutorais e de óperas comemoraram o feito – para não falar das efusões em porcelana, em lápis-lázuli gravado e em laca. Até mesmo o versátil celulóide o serve, já que a História Doutrinal dos Quarenta e Sete Capitães – é este o seu nome – é a mais repetida inspiração do cinema japonês. A minuciosa glória que essas ardentes atenções afirmam é algo mais do que justificável: é imediatamente justo para qualquer um.

Sigo o registro de A. B. Mitford, que omite as contínuas distrações que obra a cor local e prefere atender ao movimento do glorioso episódio. Essa boa ausência de “orientalismo” deixa suspeitar que se trata de uma versão direta do japonês.

O LAÇO DESATADO

Na desvanecida primavera de 1702 o ilustre senhor da Torre de Ako teve de receber e agasalhar um enviado imperial. Dois mil e trezentos anos de cortesia (alguns mitológicos) haviam complicado angustiosamente o cerimonial da recepção. O enviado representava o imperador, porém à maneira de alusão ou símbolo: matiz que não era menos improcedente reforçar do que atenuar. De modo a impedir erros facilmente fatais, um funcionário da corte de Yedo o precedia na qualidade de mestre de cerimônias. Longe da comodidade cortesã e condenado a um feriado montês, que deve ter-lhe parecido um desterro, Kira Kotsuké no Suké conferia, sem boa vontade, as instruções. Às vezes dilatava até a insolência o tom magistral. Seu discípulo, o senhor da Torre, buscava ignorar essas provocações. Não sabia replicar, e a disciplina o vedava a qualquer violência. Certa manhã, no entanto, o laço do sapato do mestre se desatou e este pediu-lhe que o atasse. O cavalheiro o fez com humildade, mas com indignação interior. O mestre de cerimônias disse que ele era de fato incorrigível, e que só um campônes seria capaz de forjar um nó tão torpe. O senhor da Torre puxou a espada e abriu-lhe um corte. O outro fugiu, apenas rubricada a testa por um fio tênue de sangue… Dias depois o tribunal militar emitia sentença contra o injuriador e condenava-o ao suicídio. No pátio central da Torre de Ako ergueram um dossel de feltro vermelho e nele apresentou-se o condenado e entregaram-lhe um punhal de ouro e pedras e confessou publicamente a sua culpa e foi se despindo até a cintura, e abriu o próprio ventre, com as feridas rituais, e morreu como um samurai, e os espectadores mais distantes não viram sangue porque o feltro era vermelho. Um homem encanecido e cuidadoso o decapitou com a espada: o conselheiro Kuranosuké, seu padrinho.

O SIMULADOR DA INFÂMIA

A Torre de Takumi no Kami foi confiscada; seus capitães debandados, sua família arruinada e obscurecida, seu nome vinculado à execração. Um rumor sustenta que na precisa noite em que se matou quarenta e sete de seus capitães deliberaram no cume de uma montanha e planejaram, com toda precisão, o que se produziu um ano mais tarde. O certo é que tiveram de proceder entre justificadas demoras e que algum de seus concílios teve lugar não no cume de uma montanha mas numa capela num bosque, medíocre pavilhão de madeira branca, sem outro adorno que a caixa retangular que contém um espelho. Apeteciam a vingança, e a vingança deve ter lhes parecido inalcançável.

Kira Kotsuké no Suké, o odiado mestre de cerimônias, havia fortificado sua casa e uma nuvem de arqueiros e esgrimistas guardava seu palanquin. Contava com espiões incorruptíveis, pontuais e secretos. A ninguém rastreavam e vigiavam mais do que o presumido capitão dos vingadores: Kuranosuké, o conselheiro. Este percebeu-o por acaso, e fundou seu projeto vingatório sobre esse dado.

Mudou-se para Kioto, cidade insuperada em todo o império pela cor de seus outonos. Deixou-se arrebatar pelos prostíbulos, pelas casas de jogo e pelas tabernas. Apesar de seus cabelos brancos, ombreou com rameiras e com poetas, e até com gente pior. Certa vez expulsaram-no de uma taberna e amanheceu adormecido no umbral, a cabeça revolvida num vômito.

Um homem de Satsuma o reconheceu, e disse com tristeza e com ira:

– Não é este, por acaso, aquele conselheiro de Asano Takumi no Kami, que ajudou-o a morrer e que ao invés de vingar ao seu senhor entrega-se aos deleites e à vergonha? Ah, tu, indigno do nome de Sarumai!

Pisou o rosto adormecido e cuspiu nele. Quando os espiões denunciaram essa passividade, Kotsuké no Suké sentiu grande alívio.

Os feitos não pararam aí. O conselheiro mandou embora sua mulher e o mais novo de seus filhos, e adquiriu uma querida num lupanar, famosa infâmia que alegrou o coração e relaxou a temerosa prudência do inimigo. Este acabou por dispensar metade de seus guardas.

Numa das noites atrozes do inverno de 1703 os quarenta e sete capitães reuniram-se num desmantelado jardim dos arredores de Yedo, perto de uma ponte e de uma fábrica de baralhos. Iam com as bandeiras do seu senhor. Antes de empreender o assalto, advertiram os vizinhos que não se tratava de um tumulto, mas de uma operação militar de estrita justiça.

A CICATRIZ

Dois grupos atacaram o palácio de Kira Kotsuké no Suké. O conselheiro comandou o primeiro, que atacou a porta da frente; o segundo, seu filho mais velho, que estava para completar dezesseis anos e que morreu nesta noite. A história conhece os diversos momentos desse pesadelo tão lúcido: a descida arriscada e pendular pelas escadas de corda, o tambor do ataque, a precipitação dos defensores, os arqueiros postados no terraço, o destino direto das flechas até os orgãos vitais do homem, as porcelanas infamadas de sangue, a morte ardente que depois é glacial; os impudores e desordens da morte. Nove capitães morreram; os defensores não eram menos valentes e não quiseram se render. Pouco depois da meia-noite toda resistência cessou.

Kira Kotsuké no Suké, razão ignominiosa dessas lealdades, não aparecia. Procuraram-no em todos os cantos desse agitado palácio, e já desesperavam de encontrá-lo quando o conselheiro notou que os lençóis de sua cama estavam ainda mornos. Voltaram a procurar e descobriram uma estreita janela, dissimulada por um espelho de bronze. Lá de baixo, num patiozinho sombrio, olhava para eles um homem de branco. Um espada tremia na sua mão direita. Quando desceram, o homem entregou-se sem lutar. Cortava-lhe a fronte uma cicatriz: velho desenho do aço de Takumi no Kami.

Então os sangrentos capitães se arrojaram aos pés do odiado e disseram-lhe que eram os oficiais do senhor da Torre, de cuja perdição e de cujo fim ele era culpado, e rogaram que se suicidasse, como deve fazer um samurai.

Em vão propuseram esse decoro a sua alma servil. Era o homem inacessível à honra; de madrugada tiveram que degolá-lo.

O TESTEMUNHO

Já satisfeita a sua vingança (porém sem ira, e sem agitação, e sem lástima), os capitães tomaram o rumo do templo que guarda as relíquias de seu senhor.

Num caldeirão levam a incrível cabeça de Kira Kotsuké no Suké e fazem turnos para guardá-la. Atravessam os campos e as províncias, sob a luz sincera do dia. Os homens os abençoam e choram. O príncipe de Sendai oferece-se para hospedá-los, mas respondem que faz quase dois anos que os aguarda o seu senhor. Chegam ao obscuro sepulcro e oferecem a cabeça do inimigo.

A Suprema Corte emite seu veredito. É o que esperam: outorga-se a eles o direito de se suicidarem. Todos o cumprem, alguns com ardente serenidade, e repousam ao lado do seu senhor. Homens e crianças vem rezar no sepulcro desses homens tão fiéis.

O HOMEM DE SATSUMA

Entre os peregrinos que chegam, há um rapaz empoeirado e cansado que deve ter vindo de longe. Prostra-se diante do monumento de Oishi Kuranosuké, o conselheiro, e diz em voz alta:

– Eu te vi virado à porta de um lupanar de Kioto e não pensei que estavas meditando a vingança do teu senhor, e te cri um soldado sem fé e te cuspi no rosto. Vim oferecer-te satisfação.

Disse isso e cometeu harakiri.

O prior condoeu-se da sua valentia e deu-lhe lugar onde repousam os capitães.

Este é o final da história dos quarenta e sete homens leais – salvo que não tem final, porque os outros homens, que não somos talvez leais, mas que nunca perderemos de todo a esperança de sê-lo, seguiremos honrando-os com palavras.

Jorge Luis Borges, História Universal da Infâmia