Manuscritos estocados em Janeiro do Anno 2006 de Nosso Senhor
31 de Janeiro de 2006

Eu leio dirigindo

Manuscritos

Meu comparsa Luiz Fernando Farah pilota no orkut uma comunidade chamada Eu leio em pé. Ali já confessei que sou culpado de impenitências maiores: não leio apenas em pé, mas também caminhando, exatamente como a Belle de A Bela e a Fera (onde encontro uma mulher dessas?). Garante o Farah que também lê andando, o que já lhe causou constrangimento público pelo menos uma vez.

Eu era conhecido como leitor ambulante já no tempo em que morava em Curitiba e caminhava no Jardim Botânico; hoje, segundo o Hélio, por via do Euler, os peões da Cabaña Perón já canonizaram a lenda do louco que perambula de mochila nas costas e rosto enfiado no livro.

Hoje porém é dia de confessar que não leio apenas em pé e andando, mas também atrás do volante. Algumas vezes até mesmo quando o carro não está parado.

Na reta entre o trevo do Tarumã e a primeira lombada eletrônica, por exemplo, dá para se conferir tranqüilamente uma linha ou duas: não de um livro, por certo – mas de uma carta, um contrato, um aviso de vencimento, uma multa.

Mais comum é trazer um livro aberto no banco do passageiro para passar o tempo quando o sinal fecha – e sendo Curitiba tão pródiga em semáforos e tão pobre em viadutos, trevos e trincheiras, tenho muita oportunidade de puxar o livro para cima do volante e dar aquela sonhada. É de fato miraculoso o quão rapidamente o sinal abre quando você coloca na frente um livro para ler; questão de dois ou três segundos ou menos (o que é explicado porque, como se sabe, a leitura ocasiona uma dobra involuntária e inteiramente chucra no tecido espaço-tempo). Recomendo que você faça pelo menos a experiência para que possamos comparar os resultados.

Garantem-me bibliófilos de São Paulo, capital, que o livro de porta-luvas é artigo mais essencial e bem utilizado do que o livro de cabeceira. O que mais alguém poderia desejar fazer num congestionamento da marginal com exceção de ler (e talvez salvar-se e ao seu carro de afogamento)? O mesmo já vale e há muito tempo entre nós, em logradouros agourentos como a Visconde de Guarapuava e a Mariano Torres. Na companhia de um bom livro© a perspectiva de um congestionamento chega a ser quase desejável.

Essa é também a única razão de ser da minha mochila, na qual vive o volume rotativo (atualmente The Club Dumas, de Arturo Pérez-Reverie, cujo tema é, curiosamente, bibliófilos hardcore) para ser lido durante as caminhadas, nos congestionamentos, nas salas de espera, na luz remelenta da sala de cinema antes do começo da sessão e na fila do banco.

Bula de remédio e rótulo de desinfetante em banheiro alheio, Borges no porta-luvas, uma pilha de volumes sortida na cabeceira, livro de caminhada na mochila. A vida é bela.

Esse ainda não li.

30 de Janeiro de 2006

Manhã no monastério

Fotografia

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Depois das matinais e do banho, antes do batente.

29 de Janeiro de 2006

Os ritos circulares

Fé e Crença

Uma religião pode escolher definir-se, basicamente, pelo seu respeito aos ciclos ou pela sua obsessão com a história.

As religiões que optam pelos ciclos (vamos chamá-las, apenas por conveniência, de circulares) celebram incessantemente o [eterno] retorno dos ciclos naturais: as estações do ano, as épocas de plantio e colheita, o ciclo reprodutivo de homens e animais – e portanto o sexo. Seus rituais são construídos para cultivar aqui e agora, no presente, a beleza e o mistério do que sempre aconteceu e voltará invariavelmente a acontecer. Uma religião circular opinará que são inteiramente irreais os limites entre uma época e outra, entre uma geração e outra, entre uma manifestação da natureza e outra: e que, portanto, são ilusórias as distinções que fazemos usualmente entre homens e animais até mesmo entre uma pessoa e outra. Tudo é tudo, todos serão todos e todos já foram todos e misteriosamente o são. Não sobra, oficialmente, espaço para noções como a individualidade ou a singularidade da espécie humana.

As religiões que optam pela história (vamos chamá-las de lineares) enxergam a existência não como um círculo, mas como uma flecha com uma direção e um propósito, uma ousada aventura norteada por uma inteligência oculta e empreendedora cujo plano vai se executando e revelando progressivamente. Como não contam com os ciclos para manter a sua sanidade, as religiões lineares dependem incessantemente de revelações e de registros de revelações: definem-se pelos seus profetas, especialmente pela expectativa dos profetas e pelas histórias de profetas. Tendem por isso a ignorar o presente a a concentrar-se no futuro – e, com pelo menos a mesma paixão, no passado. Ao mesmo tempo, enfatizam a responsabilidade individual e a absoluta singularidade de tudo: do momento histórico, da criação, da espécie, da nação, do indivíduo, de Deus.

Os circulares andam em círculos, os lineares andam para frente e para trás (mas nunca olham para os lados ou para o espelho). Os lineares almejam ousadamente estar onde nenhum homem jamais esteve; os circulares têm por certo que estão onde todos já estiveram e sempre estarão.

O judaísmo, o islamismo e [originalmente] o cristianismo são os exemplos mais espetacularmente bem-sucedidos de religiões lineares. As religiões circulares são – bem – praticamente todas as outras. Depois de mais ou menos escanteados no Ocidente por milênios, os ritos circulares estão experimentando atualmente diferentes graus de ressurreição. Num golpe de justiça poética, estão desfrutando dos prazeres do eterno retorno que preconizam: como que para provar o seu argumento, as religiões circulares sempre voltam.

Seria injusto, você pode estar pensando, decidir que apenas uma dessas duas visões de mundo é a correta. Afinal de contas, nossa experiência individual é moldada tanto pelos ciclos (não é incomum dizermos “primaveras” querendo dizer “anos de idade”) quanto pelo avanço implacável do relógio história adentro. Qual será a realidade última: “tudo é como sempre foi” ou “tudo avança para um inevitável fim”? Entre a doutrina linear e a dos ciclos, haverá apenas uma que seja fundamentalmente correta? Não há uma religião que abrace as duas?

Quando entrou em cena, há quatro mil anos, o judaísmo era uma das poucas vozes a reivindicar uma visão de mundo linear – a noção de que “Deus tem um plano em cada criatura”. Em todo lugar, ao redor, pululavam como moscas as religiões politeístas e circulares.

O judaísmo chegou defendendo, além do monoteísmo, uma série de outros conceitos impopulares e improváveis: o progresso não é uma ilusão, mas a realidade última; o indivíduo e a sua participação no mundo são absolutamente singulares e essenciais; nenhum momento se repete e o pecado consiste basicamente em momentos perdidos.

”[...] a religião dos patriarcas estava infundida de um senso histórico que é caracteristicamente semita ou hebraico. Ao contrário dos povos estabelecidos em Canaã, que estavam mais preocupados em ajustar os ciclos da natureza e preservar o equilíbrio social, os hebreus errantes tendiam a expressar a sua fé na linguagem dinâmica da história. Eram peregrinos e aventureiros que, em reposta a um chamado divino, haviam deixado a sua terra de origem e partido para o desconhecido e para o incerto – rumo a uma terra que Deus lhes mostraria no devido tempo. Viviam por um empreendimento de fé, confiando que o seu futuro estava nas mãos do seu Deus”. 1

Como se verá, a fé dos judeus não ignorava os ciclos da natureza nem o seu temível poder e influência; ela pressupunha porém que havia Outro singular que estava acima até mesmo da onipresença e potência das forças naturais. Os ciclos eram poderosos, mas eram também cegos e arbitrários; este Alguém pensava, planejava, enxergava longe – e, especialmente, intervinha. Ele não estava apenas acima das forças da natureza, mas elas mesmas eram fruto de sua iniciativa e estavam inteiramente sob o seu controle.

Este Outro convidava o homem a erguer a cabeça para cima do redemoinho dos ciclos e enxergar a singularidade do momento, do Criador e dele mesmo. Convidava-o a navegar com ele por cima das ondas circulares rumo a um destino e um propósito e um fim.

Na época essa idéia era uma tremenda novidade. E alguns, curiosamente, acreditaram.

Blaise Pascal observou certa vez que o Deus da Bíblia é o “Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó”, não o Deus dos filósofos e dos sábios. “Isso é verdade no sentido de que a fé bíblica é, para perplexidade e escândalo de muitos filósofos, de caráter fundamentalmente histórico. Suas doutrinas são realidades e eventos históricos, não valores abstratos ou idéias existindo num reino atemporal”. 1

Dois mil anos depois de Abraão, o judeu Jesus era completamente imbuído desse senso de singularidade histórica. Tudo que ele disse e fez pressupunha a responsabilidade individual, tanto a dele quanto dos outros; a mensagem do Reino trazia embutida em si um plano, uma iniciativa, um rumo, uma urgência e um destino. Por trás da cortina de fumaça dos ciclos, garantia Jesus, havia um Outro que correspondia a todos e cada um. E esse se importava.

(continua, talvez circularmente…)

1. Bernhard W. Anderson, Understanding the Old Testament

28 de Janeiro de 2006

Basta um dia

Goiabas Roubadas

Há uma cena de A Pequena Sereia, dos estúdios Disney, que me leva invariavalmente a chorar. A doce, doce, doce Ariel está sonhando com a [im]possibilidade de visitar um mundo que não é o seu. Sua vontade de experimentar esse universo que a intriga e apaixona e que lhe foi vedado é tamanha que ela ousa pronunciar a sentença que me faz tremer todas as vezes que a ouço: “eu pagaria por um só dia poder viver [com aquela gente]”.

A parte que me faz estremecer não é a profética “eu pagaria”, mas a porção mais ousada e louca do seu argumento: “por um só dia”. Que desejo absolutamente insano é este, que é tão grande e absoluto e autosuficiente que pode se satisfazer com um único dia. A idéia subjacente é clara: para quem nunca experimentou a felicidade com que sonha, um dia tem peso de vida inteira.

Para Ariel, um dia bastaria. Basta isso para me fazer chorar.

Eu quero estar onde o povo está
Eu quero ver um homem dançando
E passeando em seus…
Como é que eles chamam?
Ah! Pés
Com barbatanas não se vai longe
Tem que ter pernas pra ir andando
Ou pra passear lá na…
Como eles chamam?
Rua
Durante a noite
Durante o dia
Lá eles andam com alegria
Tudo eu faria
Eu só queria ser deste mundo
O que eu daria pela magia de ser humana?
Eu pagaria por um só dia poder viver
Com aquela gente conviver
E ficar fora dessas águas
Eu desejo, eu almejo este prazer
Eu quero saber o que eles sabem
Fazer perguntas e ouvir respostas
O que é o fogo?
O que é queimar?
Será que eu posso ver?
Quero saber, quero morar
Naquele mundo cheio de ar
Quero viver
Não quero ser
Mais deste mar


A cena toda e seu argumento apaixonado é tão efetiva que foi repetida quase na íntegra no de resto lamentável Corcunda de Notre Dame, dos mesmos estúdios.

De seu posto no alto da catedral, Quasímodo deixa claro o que a sereiazinha não disse: que um dia, um único dia entre aqueles que ignoram a dádiva que é “ser eles”, o deixaria inteiramente satisfeito para o resto da vida: “velho e encarquilhado, não importa: terei passado um dia inteiro lá fora”.

Toda minha vida eu os observo, escondido, sozinho aqui em cima
Sedento das histórias que eles me mostram
Toda minha vida eu memorizo os seus rostos
Passando a conhecê-los como eles nunca me conhecerão
Toda minha vida imagino como seria passar um dia
Não acima deles
Mas parte deles
E lá fora
Vivendo sob o sol
Dê-me um dia lá fora
Tudo que peço é apenas um
Para acalentar para sempre
Lá fora
Onde eles vivem sem se dar conta
O que eu daria
O que ousaria
Só pra viver um dia lá fora

Lá fora entre os moendeiros e tecelões e suas esposas
Pelos telhados e frontões eu posso vê-los
A cada dia eles gritam e bronqueiam e vão vivendo suas vidas
Sem se dar conta da dádiva que é ser eles
Fosse eu na pele deles
Acalentaria cada instante
Lá fora
Passeando junto ao Sena
Como a gente comum
Que anda livremente por ali
Um único dia
E juro que me satisfaço
Com meu destino
Não vou me ressentir
Não vou desesperar
Velho e encarquilhado
Não importa
Terei passado, ora
Um dia inteiro
Lá fora


Nenhuma dessas distrações é para se comparar, no entanto, com a maturidade e a pungência e a fustigante beleza de Basta um dia, canção que Chico Buarque escreveu em 1975 para a peça Gota d’água.

Chegando em Chico tenho de parar, porque não tenho mais para onde ir.

Pra mim
Basta um dia
Não mais que um dia
Um meio dia
Me dá
Só um dia
E eu faço desatar
A minha fantasia
Só um
Belo dia
Pois se jura, se esconjura
Se ama e se tortura
Se tritura, se atura e se cura
A dor
Na orgia
Da luz do dia
É só
O que eu pedia
Um dia pra aplacar
Minha agonia
Toda a sangria
Todo o veneno
De um pequeno dia

Só um
Santo dia
Pois se beija, se maltrata
Se come e se mata
Se arremata, se acata e se trata
A dor
Na orgia
Da luz do dia
É só
O que eu pedia, viu
Um dia pra aplacar
Minha agonia
Toda a sangria
Todo o veneno
De um pequeno dia

27 de Janeiro de 2006

O problema com a virtude

Sociedade

“Como personalidade de vendas,
o que eu gostaria de vender para vocês?”

Não há na verdade nenhum problema com a virtude.

O problema começa quando começamos a falar bem dela.

No conto O descortês mestre de cerimônias Kotsuké no Suké, de Jorge Luis Borges, algo notável acontece: um homem virtuoso finge ser um cafajeste a fim de realizar um feito virtuoso. Trata-se de acontecimento notável porque, naturalmente, o oposto é que é a norma: um homem perverso finge-se de virtuoso a fim de empreender alguma perversidade.

O primeiro problema em falar-se bem da virtude, portanto, é que não há nenhuma maneira de se determinar se estamos ouvindo alguma sinceridade – nem mesmo quando somos nós que estamos falando.

Recebi, como todo mundo, o discurso atribuído a José Galló, presidente das Lojas Renner, quando recebeu em novembro do ano passado o título de Personalidade de Vendas do Ano.

Não conheço o sujeito e não tenho nada contra ele. Tudo que sei sobre José Galló está no que li no seu discurso. Tudo que sei é que ele fala muito bem da virtude – e que portanto não tenho como confiar nele. No discurso.

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