O pensador Ivan Illich entende, e concordo em grande parte com ele, que somos todos de alguma forma vítimas do século XX.
O último século (para evitar dizer “século passado”, sendo que é ainda o meu) começou de forma promissora em muitos sentidos. As promessas da produção em massa, da educação, da medicina, da revolução nos transportes e na comunicação – tudo prometia um mundo novo que de fato ergueu-se das cinzas das duas guerras. As três ou quatro primeiras décadas do século XX representaram o que Illich chama de um primeiro grande “divisor de águas” para praticamente todas as áreas de interesse e de conhecimento da humanidade.
O homem comum viu-se de repente (e de modo geral) mais saudável, mais rico, mais informado, mais bem alimentado – talvez até mesmo mais feliz.
Quando o transporte passou pelo segundo divisor de águas os veículos haviam criado mais distâncias do que haviam ajudado a cobrir.
Então, em determinada altura, algo aconteceu. Como num episódio barato de Além da Imaginação, as promessas começaram a voltar-se contra si mesmas. Imperceptivelmente, defende Illich, as soluções começaram a criar pelo menos tantos problemas quanto haviam reparado. O problema é que estávamos já tão habituados às soluções que tornamo-nos cegos ao fato de que havíamos sido aprisionados por elas.
Este momento foi o do segundo grande divisor de águas para todas as áreas de conhecimento. Illich acredita que o problema afetou (e afeta) absolutamente tudo que nos rodeia. Tudo atingiu o seu nível de incompetência. A medicina, a educação, a produção em massa – todos esses acabaram gerando os exatos problemas que haviam se proposto a solucionar.
A teoria de Illich fica mais fácil de entender quando pensamos no problema (e na pretensa solução) do transporte urbano. Ele diz:
No caso do transporte, foi necessário quase um século para passarmos de uma era servida por veículos motorizados para uma era em que a sociedade viu-se virtualmente reduzida à escravidão ao automóvel. Durante a Guerra Civil americana os veículos movidos a vapor tornaram-se efetivos. A nova economia do transporte possibilitou a muita gente viajar por trilhos à velocidade de uma carruagem real, e fazê-lo com um conforto com o qual reis não ousariam sonhar. Gradualmente a locomoção desejável passou a ser associada e finalmente identificada com veículos de alta velocidade. Mas quando o transporte passou pelo segundo divisor de águas os veículos haviam criado mais distâncias do que haviam ajudado a cobrir; mais tempo era usado pela sociedade como um todo no tráfego do que tempo era realmente “economizado”.
(Illich, Ferramentas de Convivência).


