09 de Novembro de 2005

Vertente

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

O pedido havia chegado há três dias, mas a chuva não parava. Gastei a tarde dobrando cuecas e descascando laranjas para fazer doce.

A chegada do velho Ismael tirou-me da cama às oito da noite. Dizia que as coisas haviam piorado, que as pedras vinham de todas as direções e de nenhuma. Que eu devia vir assim mesmo apesar da chuva, que o rio não parava de engrossar e logo engoliria todas as pontes. O velho Ismael estava tão apavorado que tive de deixar que ele dormisse acocorado na poltrona, no meu próprio quarto, que ele se recusava a ficar sozinho. Durante a noite seu pé descalço virou no chão a xícara de chá.

Partimos na manhã seguinte, debaixo de chuva grossa. Adiante da Dobradeira resolvemos tomar a ponte dos Stokel, que Ismael havia usado na noite anterior e que talvez fosse a única que restava. O entulho da corrente raspava como garras o fundo da ponte nova de madeira verde, mas as vigas e colunas pareceram muito firmes. Quando deixamos o Cabeçudas para trás, na subida da tafona, a estrada virou uma rampa vermelha de lama. Demoramos a manhã inteira para vencer a vertente e chegar ao topo da serra.

Era três da tarde quando comemos toucinho e pão preto de banha na varanda do Mano Loé. Quando dissemos que íamos à missão da Alva a Jussara contou que tinha visto uma visagem no seu quarto na noite anterior. O Mano estava lá fora fechando uma brecha no cercado dos cabritos quando um homem muito gordo, quase redondo e com as roupas amarelas de lama seca entrou flutuando silenciosamente pela janela, os olhos muito abertos olhando como que através dela. A Jussara correu para fora e quando os dois entraram de volta o homem tinha desaparecido. Perguntei se a janela estava aberta com a chuva e ela disse que não, mas o homem tinha entrado flutuando pela janela assim mesmo.

O Mano me disse quando íamos embora que a Jussara estava com bucho e não vinha dizendo coisa com coisa.

Atravessamos a porteira da Alva depois das cinco. A chuva tinha parado, mas as nuvens escuras corriam empanturradas no céu com a barriga roçando a copa preta da mata.

Não vimos ninguém na entrada. A escola estava vazia, quase todas as janelas quebradas, o chão e as mesas cobertos de pedras pequenas e cacos de vidro. Fomos bater na casa do zelador, o Norde, que estava recolhido com a família com janelas e venezianas fechadas. Contou-nos que não havia luz e por isso a lâmpada de querosene e que o professor havia fugido naquela manhã e fazia uma semana que não havia aula.

Contou que tinha começado na tarde em que ele e o professor viram, de dentro da escola, um homem de chapéu olhando diretamente para eles na borda da mata. O homem desapareceu logo e as pedras começaram a vir daquela direção. Quando o professor José Renato pegou uma pedra para revidar foi atingido no pescoço por uma pedra que vinha de outra direção. As pedras vinham de todo lugar e às vezes pareciam mudar de rumo. O Norde contou ter sido atingido por uma pedra que havia entrado pela porta aberta e desviado para o canto em que ele estava atendendo o fogão. Caíam o dia inteiro, mas paravam à noite pouco depois que as luzes se apagavam.

Ficou decidido que eu dormiria sozinho na escola e Ismael numa rede na varanda de Norde. Nenhuma pedra caiu naquela noite, e nada ouvi de mais fúnebre que o lamento de um ouriço ou outro quando a chuva parava para recuperar o fôlego.

O dia clareou sem qualquer convicção para uma chuva fina, e enquanto a manhã avançava no serviço de limpeza da escola foi ficando evidente que as pedras não voltariam a cair. Resolveu-se que eu partiria depois do almoço para procurar o professor José Renato na casa dos seus pais em Orleans, e tentar convencê-lo a voltar. Norde dizia que ele não vinha.

Deixei Ismael, Norde, Rosa e as crianças na Alva, desviei o sítio do Mano e desci a serra capotando enxurrada abaixo. Parei na tafona abandonada para comer a tapioca que Rosa havia embrulhado. Lá embaixo a água amarela do rio cobria ponte, mas consegui atravessar e cheguei em casa perto das seis horas.

A chuva caía como uma parede. Não ventava porque a água era tanta que não sobrava espaço para o vento. Tomei banho e quando terminei de fazer o doce de casca de laranja eram duas da manhã.

Era o intervalo entre uma chuva e outra e ouvi um barulho no telhado; achei que fosse o gambá que vinha sumindo com as galinhas. Larguei as compotas de lado e assim que abri a porta vi o homem flutuando na direção dos pinheiros junto da porteira, redondo como uma uva e achei que voava de costas, olhando na direção da casa.

Quando voltei com a lanterna e com o velho revólver o homem havia subido mais e estava desaparecendo por trás das copas das árvores da curva da Dobradeira. Relampejava de vez em quando e vi com clareza que ele olhava fixamente para mim antes de desaparecer.

Assim que cruzei a porteira o céu desabou novamente. Contornei a Dobradeira na direção do pasto dos Stokel; segui olhando para a cima, para ver se entrevia o homem nas nuvens ou na copa das árvores. Achei que devia alertar o Alberto Gordo ou pelo menos sondar se ele tinha visto alguma coisa, mas fui seguindo na direção do rio.

Foi eu colocar o pé na ponte e a chuva parou de imediato, sem qualquer aviso ou transição, como se as represas do céu tivessem se esgotado por completo naquele instante. Dei um ou dois passos sobre a ponte e só se ouvia as minhas botas na madeira e as árvores pingando alternadamente.

Aquilo me gelou o estômago, porque eu devia estar ouvindo o barulho do rio e o silêncio era completo. Não havia ruído nenhum de água corrente. Desviei o facho da lanterna para onde deveria estar a corrente do rio, e tudo que a lanterna mostrou foi um leito uniforme de lama vermelha. Nada.

Apertei as mãos no parapeito, varrendo a lanterna em todas as direções. O silêncio me matou mais do que a dúvida. O coração corcoveava e minha boca encheu-se de ácido. Desejei que a chuva voltasse logo para mandar embora o silêncio e a sensação de estar sendo observado, e pensei que se desse um tiro ou outro para o alto talvez me sentisse melhor.

Foi então que ouvi o barulho na mata, o crescendo de pequenos estalos surdos avançando na minha direção, e dei graças porque achei que fosse chuva. A primeira pedra, estranhamente, caiu bem na palma da minha mão e lembro de tê-la fitado por um instante ou dois na luz da lanterna antes de entender. Então vieram as outras.

Caí de costas, e lembro de ter visto as estrelas entre as nuvens que se abriam.



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