12 de Dezembro de 2006

A alma do homem

Por   Paulo Brabo

 

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ADÃO: A alma do homem

O cuidado com que Deus moldou cada detalhe do corpo do homem nada é em comparação com sua solicitude na criação da alma humana. A alma do homem foi criada no primeiro dia, pois é o espírito de Deus movendo-se sobre a face das águas. Assim, ao invés de ser o último, o homem é na verdade a primeira obra da criação.

O espírito, ou, para chamá-lo pelo seu nome usual, a alma do homem, possui cinco poderes diferentes. Através de um deles ela escapa do corpo todas as noites, sobe até o céu e ali busca nova vida para o homem.

A alma do homem foi criada no primeiro dia, pois é o espírito de Deus movendo-se sobre a face das águas.

Com a alma de Adão foram criadas as almas de todas gerações de homens. Estão elas armazenadas num prontuário no sétimo dos céus, de onde são retiradas à medida em que são necessárias para cada corpo humano.

A alma e o corpo do homem são unidas da seguinte forma: quando uma mulher concebe, o Anjo da Noite, Lailah, carrega o esperma até a presença de Deus, e Deus decreta que sorte de ser humano sairá dali – se será homem ou mulher, forte ou fraco, rico ou pobre, bonito ou feio, alto ou baixo, magro ou gordo, e quais serão todas as suas outras qualidades. Apenas a piedade e a impiedade são deixadas sob a determinação do próprio homem. Deus estão faz um sinal para o anjo responsável pelas almas e diz:

– Traga-me aquela alma assim-e-assim, que está escondida no Paraíso, cujo nome é assim-e-assim, e cuja forma é assim-e-assim.

O anjo traz a alma designada, que faz uma reverência quando entra na presença de Deus, e prostra-se diante dele. Naquele momento Deus dá a ordem:

– Entre nesse esperma.

A alma abre sua boca e implora:

– Ah, Senhor do mundo, estou muito satisfeita com o mundo em que tenho vivido desde o dia em que me chamaste à existência. Por que desejas agora que eu entre nesse esperma impuro, eu que sou santa e pura, e parte da tua glória?

Deus a consola:

– O mundo em que farei você entrar é melhor do que o mundo em que você tem vivido; quando criei você, foi apenas com esse propósito.

A alma é então forçada a entrar contra à vontade no esperma, e o anjo carrega-a de volta para o útero da mãe. Dois anjos são especificados para cuidarem que a alma não saia dele, nem caia fora dele, e uma luz é colocada acima dela, através da qual a alma pode ver de uma extremidade à outra do mundo.

De manhã um anjo a carrega ao Paraíso e mostra a ela os justos, ali assentados em sua glória, com coroas sobre suas cabeças. O anjo então diz à alma:

– Sabe quem são esses?

Ela responde que não, e o anjo prossegue:

– Esses que você contempla foram formados, como você, no útero da mãe deles. Quando entraram no mundo esses guardaram a Torá de Deus e seus mandamentos, e foram por isso tornados participantes da bem-aventurança de que você os vê agora desfrutar. Saiba que você irá também um dia deixar o mundo lá embaixo, e que se guardar a Torá de Deus será achada digna de sentar-se com esses piedosos. Se não, estará condenada ao outro lugar.

De noite o anjo leva a alma ao inferno, e mostra os pecadores a quem os Anjos da Destruição estão castigando com açoites de fogo. Os pecadores estão todos bradando: “Ai de nós! Ai de nós!”, mas nenhuma misericórdia é concedida a eles. O anjo pergunta como antes:

– Sabe quem são esses?

Como antes a resposta é negativa, e o anjo continua:

– Esses que são consumidos pelo fogo foram criados como você. Quando colocados no mundo eles não guardaram a Torá de Deus e seus mandamentos, e vieram por isso para esta desgraça que você os vê sofrer. Saiba que seu destino também é deixar o mundo. Seja justa, portanto, e não perversa, para que possa ganhar o mundo futuro.

Do mesmo modo que foi formada contra a vontade, você agora nascerá contra a vontade.

Entre a manhã e a noite o anjo carrega a alma de um lugar a outro, mostrando onde ela vai viver e onde vai morrer, o lugar em que será enterrada, e leva-a pelo mundo todo, apontando os justos e os pecadores e todas as coisas. De noite ele a recoloca no útero da mãe, onde ela permanece por nove meses.

Quando chega a hora de emergir do útero para o mundo, o mesmo anjo dirige-se à alma:

– Chegou a hora de você sair para o mundo.

A alma objeta:

– Por que você me quer fazer sair para o mundo?

O anjo responde:

– Saiba que, do mesmo modo que foi formada contra a vontade, você agora nascerá contra a vontade, e contra a vontade morrerá, e contra a vontade prestará contas diante do Rei dos reis, o Santo, bendito seja ele.

A alma está ainda relutante em deixar o seu lugar. O anjo faz um carinho com os dedos nos lábios do nenê, apaga a luz à sua cabeça e a traz para o mundo contra a vontade. Imediatamente a criança esquece tudo que sua alma viu e aprendeu, e vem ao mundo chorando, por ter perdido um lugar de refúgio e segurança e descanso.

Quando chega a hora do homem deixar este mundo o mesmo anjo aparece e pergunta:

– Você me reconhece?

O homem responde:

– Sim, mas por que você veio até mim hoje, e não outro dia?

O anjo diz:

– Para tirá-lo deste mundo, pois a hora da partida chegou.

O homem cai no choro, e sua voz alcança as extremidades do mundo, porém nenhuma criatura ouve a sua voz, com exceção do galo. O homem protesta:

– De dois mundos você me tirou, e para este mundo você me trouxe.

Mas o anjo lembra:

– Eu não lhe disse que você foi formado contra a vontade, nasceu contra a vontade e contra a vontade morreria? Agora, contra a vontade, você terá de prestar contas de si mesmo diante do Santo, bendito seja ele.

Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.



3 Comentários a respeito de "A alma do homem"

Lou Mello

Eu sempre desconfiei de ter uma ascendência judaica. Como eles podem me descrever sem nunca ter me conhecido?



hernan

Que heresia deliciosa!

Interessa-me saber quando foram originalmente escritas as lendas, se antes ou depois de Cristo etc.



Paulo Brabo

Ainda tenho de traduzir a introdução que o próprio Ginnzberg fez para a sua obra, mas posso adiantar que Lendas é essencialmente uma compilação parafraseada da Aggadah – a porção não legal do Talmude que contém ditados, folclore, homilias, narrativas e parábolas.

Ginzberg parece ter usado também material de outras fontes de literatura rabínica, incluindo textos apócrifos, pseudo-apócrifos e até mesmo literatura cristã primitiva. A maior parte das lendas foi compilada por escrito no Talmude em períodos posteriores a Cristo, mas uma boa porção dessas tradições deve precedê-lo.

Especialmente curioso, como ainda pretendo comentar, é que a maior parte dessas histórias não consiste estritamente falando de lendas, mas de midrash: interpretações muito livres – e com um método muito peculiar – de textos da Bíblia Hebraica. Lembre-me de falar sobre essa tradição e seu curioso método outro dia.



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