A inveja literária, a vontade de ter escrito o que outro escreveu, é sensação conhecida dos andarilhos impenitentes que percorrem tantas páginas que passam a acreditar em algum mérito inerente na experiência literária. Levada ao passo seguinte, a tendência faz-nos crer que a experiência de leitor não basta. Em algum momento passamos a ver a literatura como um país que pode ser não apenas apreciado de longe, mas talvez invadido. O direito de ir e vir deve estender-se às letras, cremos, e a literatura pode ser também nosso território: queremos estabelecer as suas fronteiras, definir os melhores destinos e dar nome aos seus cumes. Apenas não estamos preparados para, depois do esforço, encontrarmos já no topo uma bandeira.
É ultrajante. Não apenas Borges, mas também Tolkien e uma infinidade de asseclas maiores e menores roubaram descaradamente idéias que deveriam ser minhas.
Há meses que planejo escrever para a Bacia um artigo chamado “O Último Pudor”. Roubei eu mesmo a idéia, como acontece com freqüência, de uma ou duas frases indignadas do Ivan. O conceito me parece na verdade tão fundamental que venho adiando a composição desse artigo para quando tiver mais tempo, certamente para depois da Expedição Cordel.
Pois, lendo esses dias o Discurso de Rousseau, que emprestei da Alice e do qual já roubei uma boa goiaba, fiquei surpreso (e inteiramente indignado) ao encontrar um parágrafo que poderia ter sido extraído diretamente do artigo que ainda quero escrever!
O trecho que Rousseau roubou de mim em 1750 é o seguinte:
Hoje, quando pesquisas mais sutis e um gosto mais refinado reduziram a princípios a arte de agradar, reina em nossos costumes uma vil e enganosa uniformidade, e todos os espíritos parecem ter sido lançados numa mesma fôrma: incessantemente seguem-se os hábitos tradicionais, jamais a própria índole. Já não se ousa parecer o que se é; e, nessa coerção perpétua, os homens, que formam esse rebanho a que se chama sociedade, postos nas mesmas circunstâncias, farão todos as mesmas coisas, se motivos mais fortes não os desviarem. Portanto, nunca se saberá com quem se está lidando: será preciso, pois, para conhecer o amigo, esperar as grandes ocasiões, ou seja, esperar que já não haja tempo para tanto, uma vez que é para essas mesmas ocasiões que seria essencial conhecê-lo.
Como se vê, Rousseau não apenas apropria-se dos temas e argumentos que me são mais caros, mas também do meu estilo. A baixeza!
O leitor mais distraído da Bacia poderá reconhecer imediatamente no trecho citado o meu próprio estilo, as minhas ênfases, o meu pontuado e semipedante sarcasmo. Perceba como ele rouba o advérbio “incessantemente”, que uso eu mesmo incessantemente, e que, pensando bem, posso talvez ter roubado como tantas coisas de Borges.
Agora não sei mais. Sou uma farsa e não tenho mais como dizer que goiaba não roubei.

FALTAM 7 DIAS PARA A EXPEDIÇÃO CORDEL




