26 de Novembro de 2005

Os requintados prazeres do filme de monstro

Entregue em consignação por   Paulo Brabo

 

Estocado em Filmes, Nostalgia

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Há no paraíso uma ala inteira em que é sempre de madrugada e em todas as televisões está passando incessantemente filmes de monstro. Um após o outro.

Desde que me conheço por gente, e nisso não mudei nada, poucas coisas me dão maior prazer do que filme de monstro – especialmente se for preto e branco, da década de 50. Se o monstro for gigante (formiga, aranha, gafanhoto) melhor ainda. Se for gigante e pré-histórico e invadir alguma cidade – alcançou a perfeição.

Recentemente extraí da internet (por aqueles meios que não se menciona), um irretocável filme de monstro que nunca havia assistido, mesmo tendo sido submetido à lavagem cerebral de duas mil e uma sessões da tarde. Trata-se de The Giant Behemoth, de 1959 – dirigido pelo russo Eugène Lourié, que também dirigiu em 1953 The Beast from 20000 Fathoms (este você com certeza assistiu: o monstro invade Nova Iorque e é destruído na cena final num incêndio numa montanha russa).

O monstro de The Beast, animado em stop-motion pelo classudo Ray Harryhausen, é muito superior a esse de Behemoth. Mas o enredo do segundo filme [até o monstro aparecer] é mais ágil, e as locações britânicas muito pitorescas. No todo, The Giant Behemoth traz inúmeras pequenas recompensas para os iniciados nos requintados prazeres do filme de monstro.

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O sensato cientista – que embora seja tio, é o mocinho – adverte contra o perigo dos resíduos nucleares depositados no oceano.

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Regra número 1: nunca more perto do mar, de onde os monstros podem surgir a qualquer momento para te pegar. Também, se você espera vê-lo de novo, nunca vá para casa fazer o jantar deixando seu pai sozinho na praia. Nunca.

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O pai da mocinha é fritado pelos raios radiativos emitidos pelo monstro.

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Quando for ao pub mais próximo procurar um sujeito para ajudar a encontrar o seu pai desaparecido, ele é o mais jovem (embora não seja exatamente mocinho), tem o queixo quadrado e uma covinha.

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Sim, é ele. E se você for a mocinha, não esqueça de ser loira.

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Na teologia dos filmes de monstro, nenhuma morte é inútil. Elas ajudam a avançar o roteiro.

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“Que tal darmos um passeio na praia na cena seguinte, agora que já enterramos o seu pai? Ei, de onde vem todos esses peixes? E aí, fico bem ou não de preto?

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Talvez esse peixe radioativo traga algumas respostas.

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Regra número 2: se a pegada for pequena demais…

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…você pode sempre usar uma lupa.

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Quando os carros de polícia eram classudos.

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O momento que estavam todos esperando: o monstro finalmente aparece, mas é grande demais para caber na telinha. Embora o resultado não apareça aqui, a regra número 3 é: nunca fique dentro do carro.

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Perfeito: gente correndo. Morra de inveja, Independence Day.

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Se correr o bicho pega. Meus olhos não sabem o que acompanhar: se o monstro ou a vizinhança nostálgica que ele está para destruir.

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A família reunida ouve pela BBC que um monstro pré-histórico invadiu Londres. Mas na hora do chá? Vovó, eu falei que valia votar contra o desarmamento.

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Se ao menos as autoridades fizessem alguma coisa para acabar com essa violência.

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Se tudo der certo o torpedo com a ogiva nuclear vai cair bem na boca do monstro.

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Tudo deu certo.

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Sobe a orquestra, que agora está tudo bem… por enquanto. A vantagem é que podemos usar essas mesmas bolhinhas no próximo filme.


THE END



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