Ninguém tem como dizer ao certo, mas pelo menos mil anos anos (provavelmente muito mais) transcorreram entre o esboçar do primeiro e a conclusão do último livro da Bíblia. Contando os dois testamentos e dependendo da versão que você puxar da prateleira, são cerca de 70 livros escritos por um número talvez tão grande quanto esse de autores – levando-se em conta que alguns livros parecem ter sido escritos por mais de um autor e que alguns deles talvez sejam o fruto do trabalho de comunidades inteiras.
Trata-se de gente muito diversa entre si, cada um trazendo na sua contribuição as marcas definidas da sua época, lugar de origem, cultura e personalidade; gente que escreveu na esmagadora maioria das vezes sem nem de longe imaginar – muito menos planejar – que seu texto seria um dia visto como parte de um todo mais ou menos indivisível.
Ser cristão é ser insensato em muitos sentidos; parte não pouco fundamental dessa insensatez está nessa singular imodéstia de se dizer capaz de ler uma vasta biblioteca como se fosse um livro só. O cristianismo, bem como o judaísmo seu irmão, é a história das conseqüências desse estranho experimento: o investimento nessa fé, a singular fé necessária para conceber que esse seja um livro só e uma só Mão por trás das mãos dos autores.
Os antropólogos explicam, com inatacável sensatez, que para se ler a Bíblia como uma coisa só, para transformá-la de biblioteca diversa em obra única, coerente e uniforme, é preciso decidir não entendê-la em primeiro lugar. A fé no Autor, esclarecem eles, é uma evidente afronta aos autores: é esforço inteiramente artificial e sem qualquer dúvida muito posterior à composição da(s) obra(s) em si1.
Recaiu aos mestres tardios do judaísmo e do cristianismo, uma vez que ficou estabelecido o conceito de um corpo unificado e autorizado de documentos religiosos, tentar forjar um consenso amplo dos ensinos da escritura que pudesse de alguma forma abranger em si a divergência de perspectiva que era o resultado inevitável de centenas de anos de fatores religiosos, culturais, sociológicos, históricos e econômicos muito diversos afetando as vidas e os escritos dos numerosos diferentes indivíduos e comunidades que produziram esses vários documentos.
Ou seja: como a idéia de fechar a Bíblia num pacote único – um cânone – é coisa muito recente e muito posterior à confecção dos livros que o compõem, foi só muito tarde que os intérpretes se entregaram ao esforço (muito antinatural, portanto) de tentar ler o pacote todo como se fosse uma coisa só, um todo uniforme e sem qualquer contradição.
Esse argumento muito bem colocado apenas comprova que parte essencial do problema do judaísmo e do cristianismo é a sua relação com a história. Como conciliar a retórica acadêmica de Paulo com a sensualidade de Cantares? A aridez de Números com a honestidade tocante de Marcos? A dureza de Judas com a vulnerabilidade de Oséias? A primeira com a segunda parte de Isaías? O espectro de personalidades, estilos e gêneros, espalhados por recessos tão distantes do tempo, é simplesmente grande demais para ser ignorado.
Não têm esse problema, naturalmente, religiões mais sensatas que adotaram como livros sagrados obras escritas ou ditadas por um único autor dentro de um período muito definido e limitado de tempo: gente que por exemplo abraçou a circunspecta uniformidade do Corão, do Evangelho Segundo Alan Kardec ou do Livro de Mórmon.
Como acreditar que tantos livros, escritos por tanta gente distante no tempo, transmitam uma mensagem só? Quais seriam as impensáveis conseqüências de se acreditar que A Metamorfose, Em Busca do Tempo Perdido, Do Espírito das Leis, Henrique V, Reinações de Narizinho, Clube da Luta, Madame Bovary, Vathek, O Protocolo dos Sábios de Sião, o Guia do Usuário do Windows 3.1 e O Senhor dos Anéis foram todos escritos magicamente por uma única pessoa?
Márcion estava de olho no problema da diversidade quando sugeriu que o Deus do Novo Testamento simplesmente não podia ser o mesmo do Antigo. Ele foi, é claro, condenado duramente por heresia, porque parte fundamental do cristianismo está – novamente – em acreditar na consistência de Deus através da história.
Lutero era outro que desejava que a Bíblia fosse menos desigual, e tinha altos problemas para engolir a carta de Tiago, que parecia contradizer a estanque estrutura teológica que ele via nas cartas de Paulo.
E eu? Leio a Bíblia como se fosse uma coisa só?
Naturalmente. Estranho para mim seria fazer diferente. Como brincava Borges, e eu acredito, não é exagero dizer que haja tantas Bíblias quanto leitores da Bíblia, partindo-se do princípio que o autor da Bíblia é também autor de cada um dos leitores. E devo ainda a ele a esclarecedora noção (de certo modo confirmada por Paulo em Romanos 1:19,20 e 2:14,15) de que livros sagrados são “livros que ensinam o que ensina o universo inteiro ou a consciência de cada homem”. Algo semelhante é defendido no prefácio de A Cor Púrpura, em que a autora Alice Walker agradece ao Espírito, “sem o qual nem eu nem este livro teríamos sido escritos”.
Na verdade, nossa obsessão contemporânea com autoria não faria sentido para as pessoas durante a maior parte da história da humanidade. Até recentemente, como me explicou o Willian Brito do Crato naquele restaurante de Juazeiro do Norte, preocupar-se em estabelecer a autoria dos folhetos de cordel era considerada coisa de segunda importância, vexatória até. Muitos dos folhetos clássicos mais antigos não se sabe ao certo quem escreveu – porque as pessoas simplesmente não se importavam com isso.
Os tempos que produziram os livros da Bíblia também foram assim, tempos em que o conteúdo era visto como inconcebivelmente mais importante do que a autoria. Não era prática incomum copiar/alterar o texto de outro e colocar o seu nome, ou atribuir um texto de sua autoria a uma outra pessoa. Ninguém via nada de errado em uma coisa nem em outra, porque a autoria era vista como coisa secundária. Sede era tudo, imagem era nada.
Supondo que haja um Deus, sua visão não poderia ser menos ambiciosa.
Resta, finalmente, a questão da Palavra.
Lembro da indignação de um amigo norte-americano contra os fundamentalistas que exigiam que o criacionismo fosse ensinado ao lado da teoria da evolução nas escolas americanas. “É muita arrogância e estupidez da parte deles”, argumentava ele, falando da Bíblia, “acreditar que um único livro possa representar toda a Verdade”.
Sendo bom cristão como sou, fui obrigado a corrigi-lo. Acreditar que um único livro contenha toda a verdade é privilégio de religiões sensatas como o judaísmo e o Islam. Os cristãos acreditam, singularmente, que a Verdade é uma Pessoa – o que é ao mesmo tempo mais exigente, mais incrível e mais provável.
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Mais histórias sobre o que as pessoas acreditam
NOTAS- Alan J. Hauser e Duane F. Watson, em A History of Biblical Interpretation. [↩]




