17 de Fevereiro de 2005

Observação

Entregue em consignação por   Paulo Brabo

 

Estocado em Família

O velho Arthur mostrou desde muito cedo a improvável qualidade de interessar-se pelo que os outros estão fazendo. Ele tinha pouco mais de um ano quando efetivamente ajudou o Hélio a lavar o meu Corsa pela primeira vez, e não muito antes ou depois já procurava na caixa de ferramentas uma chave de fenda para ajudar os tios dele a desparafusar uma placa de carro.

Ele também demonstra que acha tremendamente importante fazer as coisas sozinho – isto é, sem a ajuda de ninguém. “Deixa que o Arthur faz”, “não, não ajuda o Arthur” e “fica aí paradinho (isto é, longe o bastante para que eu possa tentar sozinho)” são frases que o Hélio e a Karline ouvem desde impossivelmente cedo.

Acho que fico particularmente admirado com essas ousadias porque quando eu tinha a idade dele (e até muito, muito mais tarde) faltava-me qualquer iniciativa. Qualquer.

Mas onde eu queria chegar.

Ah, sim. Outro dia, contou-me a Dona Hulda (vó do Arthur), ele ofereceu-se a ajudá-la a fazer o almoço. É ele quem traz as vasilhas de plástico, leva os legumes para a pia, esse tipo de coisa.

Pois enquanto a Dona Hulda colocava o avental para começar a trabalhar ele parou a fim de observar, muito compenetrado.

– A vovó usa babador que nem o Arthur – ele observou.



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Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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