23 de Outubro de 2005

O valente que domou a Mocidade

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

Em Canindé me contaram esta história, que repito com os ajustes que a memória solicitar.

No sertão os cantadores ainda cantam o romance de Amâncio Ferreira de Icó, o valente que domou a Mocidade. Amâncio era homem duro e calado, vaqueiro à moda mais clássica, gago, franzino de constituição, mas firme como carne de galo velho.

– Amâncio de Icó amarrava touro era pelo rabo – disseram-me. – Se peleava era de cachorro beber sangue.

Foi valente e famoso nas corridas de mourão do seu tempo, nome conhecido nas feiras da década de 1940, mas quebrou-se quando a esposa fugiu com um vendedor de colheres de pau, deixando para trás o marido, sete filhas e doze cabras.

Amâncio largou as filhas com a mãe em Juazeiro e foi se esconder num sítio entre Saboeiro e Poço Grande, na companhia das cabras e de um jegue velho chamado Muletão. Passaram-se vinte anos.

Foi de dois ou três matutos que vieram pedir água (quando um pau-de-arara quebrou no caminho de Iguatu), que Amâncio ouviu pela primeira vez a história do boi chamado Mocidade. O animal já era lenda quando o velho Amâncio ouviu falar dele. Mocidade era um touro taludo, danado e desaforado, preto como a noite e com uma mancha em forma de estrela espalhada no peito. Nasceu de uma vaca morta na fazenda Aroeira Grande em Trussu. Acharam o filhote vivo mas coberto de sangue e agarrado num mandacaru; quando sobreviveu deram-lhe o nome de Mocidade, dizendo que tinha de ser filho do cão ou do fazendeiro Genésio Fontes, distinção que na época não se fazia questão de fazer.

Virado desde o ventre, não havia quem pudesse com Mocidade. Agoniado e violento, o boi espalhava no ar qualquer um que se metesse no seu caminho, sem dar conta de experiência, valentia ou reputação. Os homens mais rijos na vaquejada em Trussu não puderam derrubá-lo, e quando treze peões resolveram picá-lo na véspera da chegada do valentão Josué Dias, Mocidade arrastou todos os treze pelas fogueiras do acampamento, atravessou os paus da cerca como quem anda pela chuva e sumiu na noite.

Conta meu compadre Zuca, de Canindé, que ouviu de um dos três matutos que ouviram do próprio Amâncio, que o vaqueiro nessa hora estalou a língua, enfiou na boca um capitão da paçoca de farinha de milho que estavam repartindo e confessou:

– A vida me secou os ossos, mas ainda sinto na boca os beijos da mocidade. Quero quebrar a maldita.

Foi assim que Amâncio de Icó se pôs à caça da Mocidade perdida, na figura do boi mais amolestado que se diz ter riscado o sertão do Ceará. Veio de vila em vila, perguntando nas feiras, parando cada destacamento, sondando os vaqueiros e ladeando as vaquejadas. Ouviu finalmente a notícia de um boi preto virado na peste que corria como assombração nos pés-de-serra do Araripe, e partiu para o Cariri, fazendo promessa de só entrar na cidade do Padre depois de derrubar o animal que tanto buscava.

Ouvindo que o touro vinha se derrubando de Nova Olinda na direção de Juazeiro, Amâncio acampou-se junto de um açude na entrada do Crato, na esperança de que o bicho fosse deste mundo e parasse para beber água. Numa espraida noite de lua crescente Amâncio ouviu o tropel desembestado do animal que se aproximava e mergulhou no açude, respirando por uma taquara.

Assim que o boi colocou o focinho na água o velho Amâncio perfurou-lhe as duas ventas com um gancho de ponta afiada, à moda de argola, usando também as pernas para escalar-lhe o pescoço. Possuído, o animal saiu em disparada, corcoveando e urrando com Amâncio pilotando-lhe os chifres. O gancho que o vaqueiro prendeu às fuças do boi estava preso a uma longa corrente; na corrida a corrente ia levantando um grande rastro de poeira, que na noite clara se via desde Juazeiro.

As mãos agarradas aos chifres do boi, Amâncio mostrou os dentes e sussurrou-lhe ao ouvido:

– Mocidade maldita, que me abandonou? Não te largo se tu não me devolver o vigor que tirou de mim. Estou velho mais sinto ainda os beijos que você me roubou. Devolve! Devolve tudo, féla de uma égua, se não te quebro!

Como o touro não dava qualquer sinal de cansaço, Amâncio Ferreira recolheu a corrente, girou-a no ar e arremessou-a na direção de um poste de luz pelo qual estavam passando. O vaqueiro pulou para longe e saiu rolando em segurança pelo chão, enquanto a corrente que ele havia atirado prendia-se no poste com três laçadas firmes.

Foi só quando a corrente esticou-se no máximo que o boi parou de correr. Não foi preciso dizer nada: o gancho abriu-lhe as ventas em duas, e o boi, desequilibrado, saiu capotando e quebrando todas as pernas pela noite velha do sertão. Quando parou foi com um baque surdo e pra não se mexer mais.

Morreu agarrado a um mandacaru, da mesma forma que nasceu.

Amâncio entrou em Juazeiro, de onde também não saiu mais. Casou-se com uma menina ainda muito moça, com quem teve três bacorinhos. Morreu velho, desdentado, rindo à toa e contando sempre a mesma história.



Um comentário a respeito de "O valente que domou a Mocidade"

carmelita gatto

Gostaria de obter os créditos do conto “O Valente que domou a Mocidade” como autoria, ano, local da publicação etc, para citar em uma pesquisa sobre a literatura do Cariri.

Obrigada



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