09 de Dezembro de 2005

O mistério da identidade

Depositado em juízo por   Paulo Brabo

 

Estocado em Pense comigo

MUITO JÁ FOI ESCRITO e dito sobre o déjà vu, a estranha sensação de já se ter experimentado previamente determinada coisa, quando tudo parece indicar que a estamos experimentando pela primeira vez.

O déjà vu já me atacou mais de uma vez, e desde que eu era muito jovem, mas há outra sensação que na minha experiência é ainda mais rara e pungente e desconcertante. Eu estava no apartamento do Moisés e da Lúcia Cantos neste fim de semana, cercado pelo Hélio, seus cinco irmãos e suas respectivas famílias, quando fui acometido, por uns dez segundos, pela coisa.

Eu saía pela porta de correr que dá do escritório do Moisés para a varanda do quinto andar, ouvindo o barulho dos meus amigos conversando na sala e na cozinha, quando fui emocionalmente golpeado, derrubado e esmagado por essa comoção de identidade, a embriagadora e vertiginosa sensação de ser eu mesmo e não outra pessoa.

Assim, expressa em palavras, minha lembrança daquele momento parece se esgotar e perder a força – mas quando a experimentei trazia o desarmante poder de se esbarrar numa das arestas da Matrix. O fato de eu ser eu mesmo consistentemente e o tempo todo me pareceu improvável, singular e absolutamente fantástico – no sentido inacreditável da coisa. Como a cena final de O Sexto Sentido, a revelação – a consciência da consistência da minha identidade – encheu-me da sensação de que isso explicava tudo. E por um instante deve ter mesmo explicado.

A identidade é um dos dois grandes mistérios do universo. De certa forma, todas as histórias e todos os livros sagrados procuram devassar e destrinchar esse mistério: você é você, o outro é o outro. Ou, pelo menos, assim parece.

Às vezes acredito que tudo na civilização, todos os livros e carros e bobinas e ferramentas e roupas e celulares e cadeiras e chapéus e violinos e croissants são manobras de distração – artifícios cuidadosamente desenhados para nos distrair do fato de que somos apenas nós mesmos e estamos sozinhos.



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Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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