MUITO JÁ FOI ESCRITO e dito sobre o _déjà vu_, a estranha sensação de já se ter experimentado previamente determinada coisa - quando tudo parece indicar que a estamos experimentando pela primeira vez.
O _déjà vu_ já me atacou mais de uma vez, e desde que eu era muito jovem, mas há outra sensação que na minha experiência é ainda mais rara e pungente e desconcertante. Eu estava no apartamento do Moisés e da Lúcia Cantos neste fim de semana, cercado pelo Hélio, seus cinco irmãos e suas respectivas famílias, quando fui acometido, por uns dez segundos, pela coisa.
Eu saía pela porta de correr que dá do escritório do Moisés para a varanda do quinto andar, ouvindo o barulho dos meus amigos conversando na sala e na cozinha, quando fui emocionalmente golpeado, derrubado e esmagado por essa comoção de identidade, _a embriagadora e vertiginosa sensação de ser eu mesmo e não outra pessoa._
Assim, expressa em palavras, minha lembrança daquele momento parece se esgotar e perder a força - mas quando a experimentei trazia o desarmante poder de se esbarrar numa das arestas da _Matrix_. O fato de eu ser eu mesmo consistentemente e o tempo todo me pareceu improvável, singular e absolutamente fantástico - no sentido inacreditável da coisa. Como a cena final de _O Sexto Sentido_, a revelação - a consciência da consistência da minha identidade - encheu-me da sensação de que _isso explicava tudo_. E por um instante deve ter mesmo explicado.
A identidade é um dos dois grandes mistérios do universo. De certa forma, todas as histórias e todos os livros sagrados procuram devassar e destrinchar esse mistério: você é você, o outro é o outro. Ou, pelo menos, assim parece.
Às vezes acredito que tudo na civilização, todos os livros e carros e bobinas e ferramentas e roupas e celulares e cadeiras e chapéus e violinos e _croissants_ são manobras de distração - artifícios cuidadosamente desenhados para nos distrair do fato de que somos apenas nós mesmos e estamos sozinhos.




Farah
Somos apenas nós mesmos, estamos sózinhos e da pele pr’a dentro…
De nós só sabemos nós.
(Freud, Jung, Reich, Lacan e Melanie Klein desconfiam)
Alice
Já tive essa sensação muitas vezes. Muitas vezes vivo o que (parece) já vivi. Muitas vezes penso que já tinha sonhado com aquilo. Exatamente com aquilo. Primeiro o sonho e depois a realidade. É bem confuso. Bem intrigante!
Paulo Brabo
Talvez seja de fato o contrário. Pode ser que as manobras de distração sirvam na verdade para sustentar a ilusão de que somos apenas nós mesmos e de que estamos sozinhos.
Acho essa última solução mais provável.
Bony
O texto ficou um pouco complicado. Mas, a idéia é bem clara: “eu já te vi”.
Aconteceu muitas vezes a sensação de já ter sonhado a mesma coisa em uma noite distante, e também a sensação de já ter ouvido uma pessoa falar (com trejeitos e tudo mais) determinado assunto em outro tempo ou lugar.
Mas, quanto ao Matrix… Ah! O mito da caverna é bem mais interessante: estamos numa realidade falsa. Necessitamos romper os grilhões, escalar o muro e, após acostumar os olhos com a claridade, ver o que é real em essência.
No fime MATRIX, vê-se a cena que Neo acorda pela primeira vez e reclama da dor em seus olhos… “Meus olhos estão ardendo”. A resposta foi dada por Morpheus “você nunca os usou antes, é a primeira vez que vê a luz”.
A trilha sonora do momento é CHILDREN SAY executada pelo grupo dos anos 80 LEVEL 42.
Paulo Brabo
“Estamos sozinhos…”
Farah, acho que somos mesmo só nós dois, já que nem minha irmã nem o Bony sacaram que eu não estava falando do déjà vu mas de “uma outra sensação que na minha experiência é ainda mais rara e pungente e desconcertante” – essa que tentei descrever e obviamente não consegui.
Mas não dá nada. Estou tão acostumado a não ser compreendido que o fato nem me dá mais qualquer déjà vu.
Ivan Volcov
[Comentário retirado a pedido do autor, que quer tempo para reescrevê-lo mas está hoje ocupado fazendo vestibular]
Editado em 11.12.2005
Farah
O inferno são os outros!
Essa frase do Sartre de certa forma se contrapõe a frase, “Na verdade mesmo todo mundo queria ser outra pessoa” do Woody Allen.
Eu gosto muito dos dois apesar do Sartre não estar mais na moda.
Mas acho que quero mesmo declarar que tenho isto resolvido, eu gosto mesmo de ser eu.
Apesar da solidão da individualidade, da pressão do inferno dos outros o tempo todo querendo e nos invadindo, do assombro de saber que a vida aqui é muito, muito curta para que se possa cultivar o saber, da dúvida se esta consciência continua depois, se soma a outra ou se volta para o todo…
Paulo Brabo
Farah, também gosto de ser você – opa – eu.
Entendo, como o Ivan parece ter dito no comentário [apagado] dele, que o único modo de se manter um relacionamento não doentio com o Outro é não dependendo em absolutamente nada dos recursos dele – isto é, sendo completa e autosuficientemente Eu. Amar os outros como a si mesmo, aquela história: não há como ser Outrocêntrico sem ser inteiramente Eucêntrico. Autônomo, ou para sempre sozinho.
Nada há de mais egoísta, e já discutimos isso, do que usar relacionamentos com os outros como manobra de distração – para nos mantermos afastados do problema de descobrir/resolver o que realmente somos. É a ilusão do grupo: acabamos nos privando de nós mesmos e – pelo menos tão ruim – privando os outros de realmente se relacionarem conosco – nosco nosco.
Mas há indícios de que a própria identidade possa ser, no cair das cortinas, ela mesmo uma ilusão. Como brinca Borges em seu conto Os Teólogos, Deus talvez conte como uma pessoa só quem enxergamos como duas. O final de A Conferência dos Pássaros, de Farid Ud-din Attar, propõe uma solução semelhante para a questão da busca espiritual. E o próprio Jesus parece sugerir que a identidade – a dos outros, que dirá da nossa – pode se revelar questão menos resolvida do que queremos crer. “Quando o fizestes a qualquer um desses meus pequeninos” – diz ele – “a mim o fizestes”.
Você sabe com quem está falando?
Ivan Volcov
Reflexões
Vocês, todos, estão sós.
O Eu sou só.
Vocês sentem a ausência, juntos.
Eu vivo a completude de ser eu mesmo, e só.
Vocês buscam a compreensão, dos outros.
Vocês buscam a aceitação, dos outros.
Vocês choram a solidão, dos outros.
Afogando a si mesmos na ilusão do plural.
Eu mergulho em mim mesmo, mergulho em meu eu, para emergir no mundo real.
O Eu pode dizer de si a si e ao Outro.
O Eu conhece a sua identidade e reconhece a do Outro.
Os outros não podem ouvir, nem de si.
Quem não é Eu é só, desamparado de si e dos outros.
Nota Explicativa
Meu comentário é um texto difícil de entender e que eu tive que corrigir, cortar pedaços e mudar a estrutura várias vezes, antes que a ansiedade por postá-lo fosse conciliada com a minha vontade de dar a ele a qualidade de maior clareza para o outro. Antes de minhas últimas correções prevalecia o sentimento de eu não ter conseguido evitar por completo a interpretação de que eu tivesse entrado em contradição em meu texto. Faltava diferenciar só/sozinho/desamparado-no-coletivo de só/completo/pleno/o-que-se-basta. Erro meu. Este é um problema que eu proponho solucionar através da diferenciação entre o uso do singular “só” e do plural “sós” no texto; esclarecendo que o Plural é uma fuga, e que o Só/Introspecto é a opção necessária para a aceitação do Eu, para a conseqüente imersão no mundo Real do auto-conhecimento, e para a simultânea e conseqüente emersão no mundo Real dos relacionamentos pessoais.
Posso completar agora dizendo o que talvez não tenha dito: o relacionamento é sempre de Um com o Outro, e nunca de Um ou de Outro com o Plural. Como eu já costumava dizer, o Plural é a fuga que impossibilita todos os relacionamentos. Agora posso dizer também: o Plural é a fuga do auto-conhecimento. O Plural também é a escolha mais comum entre as pessoas. Aquela escolha que apequena o Eu no coletivo, tornando-o só/incompleto. Assumir quem se é, “ser Eu”, antes de qualquer outra coisa, antes de tudo, é a minha solução para a solidão. Não o mergulho do ser no coletivo dos relacionamentos superficiais; virtuais, familiares, grupais, religiosos e/ou institucionais. Resta completar dizendo que o mergulho de introspecção do Eu tem de ser também o mergulho da flexibilização do Ser, da aceitação da mudança do Ser. Mudança aparente que nos leva de fato ao resgate, redenção, do que se havia perdido do verdadeiro Ser.
Paulo Brabo
Ivan, para os completistas que um dia irão querer publicar a sua obra toda, acho que devo deixar registrada a primeira versão das suas reflexões. Preciso também dizer que gosto mais desta.
Quem não é Eu é Só.
Vocês, todos, estão sozinhos.
O Eu sou só.
Vocês sentem a ausência, juntos.
Eu vivo a completude de ser eu mesmo, só.
Vocês buscam a compreensão, dos outros.
Vocês buscam a aceitação, dos outros.
Vocês choram a solidão, dos outros.
Afogando a si mesmos na ilusão do plural.
Eu mergulho em mim mesmo, mergulho em meu eu, para emergir no mundo real.
O Eu pode dizer de si a si e ao Outro.
Os outros não podem ouvir, nem de si.
Quem não é Eu é só, só de si e dos outros.
Quem não é Eu é Só.