25 de Fevereiro de 2005

O direito de permanecer calado

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em 1984

Há dez anos atrás o que você dizia podia não importar muito, mas o curioso da era da internet é que muito mais coisa está sendo colocada e deixada por escrito, na forma de mensagens de e-mail, conversações de chat (algumas delas gravadas automaticamente), comentários e blogs.

Tudo que você disser poderá ser usado contra você. E eventualmente vai.

Em abril passado a jornalista Rachel Mosteller escreveu, sob um pseudônimo, a seguinte entrada no seu blog pessoal:

Odeio o meu local de trabalho. Sério mesmo. Tudo bem, primeiro. Eles tem esses premiozinhos estúpidos que espera-se aumentem a motivação do pessoal. Você vai e faz alguma coisa “espetacular” (com toda a probabilidade você está fazendo é o seu TRABALHO) e daí alguém diz “Caramba, isso foi espetacular”, então escrevem seu nome num papel, trazem chocolate e balões de gás.

Duas pessoas na redação ganharam isso. POR FAZEREM O TRABALHO DELAS.

Note que:
( 1 ) o nome verdadeiro da jornalista não aparecia no blog;
( 2 ) o nome da empresa onde ela trabalhava não aparecia no blog;
( 3 ) o nome do chefe da jornalista não aparecia no blog;
( 4 ) o nome dos dois empregados premiados com chocolate e balões de gás não aparece no blog;
( 5 ) a cidade ou o estado do odiado “local de trabalho” não apareciam no blog

Mas alguém estava lendo. No dia seguinte a dona foi despedida.

A matéria do Washington Post em que li essa notícia menciona uma série de outros casos de gente que foi mandada para a rua por desfiar opiniões – digamos – pouco lisonjeiras sobre seus locais de trabalho em seus blogs pessoais.

E agora, José? Onde começa a vida pessoal e termina a vida corporativa?

Antes que eu caia em maus lençóis, cabe dizer que tudo aqui na Bacia das Almas é ficção; que qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas, etc, etc, etc; e que se o que eu disser puder ser interpretado de mais de uma forma, interprete por favor da forma mais amena, mais inócua e menos inteligente.

Vai ser melhor pra todo mundo.



8 Comentários a respeito de "O direito de permanecer calado"

Bony Chiarelli

É Brabo… devemos interpretar da forma menos inteligente possível.

Abraços,



Enio Souza

Ei, Paulo
Será preciso criar uma versão virtual para expressão “As paredes têm ouvidos”?
:lol:
Alguma sugestão?



Paulo [brabo!]

As paredes sempre tiveram ouvidos; o problema é que na internet elas têm também boca – e a língua, você sabe, é ferramenta difícil de manejar.



Farah

Aí ó pessoal eu também fui inventado, sou completamente virtual, e nada do que eu digo deve ser levado a sério.

Por falar em levar a sério, alguém ai já leu Noam Chomski, eu recomendo muito um pequeno grande livro, “A Minoria Próspera e a Multidão Inquieta”



Paulo [brabo!]

>>>>>> INÍCIO DA RESPOSTA VIRTUAL AUTOMÁTICA >>>>>>
Sim, Farah, já li muito Chomski, um dos poucos caras que ousa refletir e não permanecer calado. Mas não, não li ainda o livro que você sugere. Se acabar lendo não sei se devo comentar nada a respeito. As paredes, você sabe.
>>>>>> FIM DA RESPOSTA VIRTUAL AUTOMÁTICA >>>>>>



Ivan Volcov

Dizer a verdade é prerrogativa apenas daqueles que não têm nada a perder. Aquele que considera que exista algo que lhe pertença, faz bem a si mesmo em ficar calado. Não é verdade?



hahaha

:bug: Isso tem acontecido muito.



hernan

Quando eu era menino e pensava nas coisas de menino sempre que ouvia essa frase (“você tem o direito de permanecer calado”) nos filmes, no momento em que o cara era preso, eu pensava que significava algo como “você não tem direito de falar nada, pois se disser alguma coisa será pior pra você”.

Quando vim a ser homem foi que entendi o sentido jurídico da coisa. Mas vejo que o primeiro sentido faz mais sentido.



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