02 de Março de 2005

O Bar do Pudim

Depositado por   Paulo Brabo

 

Estocado em Brasil, Sociedade

A discussão levantada nos comentários do tópico A Verve de Maeve, ocasião em que fiquei defendendo o uso da ironia na palavra escrita, trouxe-me à mente, inevitavelmente, o Bar do Pudim.

O Bar do Pudim, que fica numa esquina perto do Cemitério Municipal em Curitiba, além de servir um excelente e baratíssimo x-picanha e uma ardente carne de onça (só não experimente o pudim: é o mesmo há mais de dez anos) era quando conheci um lugar muito peculiar. O sujeito que nos atendia atrás do balcão (não estou certo se era o dono do lugar, o Hilário, que pelo que me dizem faleceu há alguns anos) era um sujeito tremendamente alto-astral e gente boa, mas garanto que há gente que nunca descobriu – e nunca voltou ao bar para descobrir.

Lembro de ter ficado admirado de que existisse um lugar assim, onde as pessoas entravam deliberadamente para serem tratadas mal.

O Pudim, na esquina de frente para a praça do Gaúcho, é ainda um botequim à moda antiga, daqueles com mesinha e garçom (o Miltinho). Naqueles dias em que atravessávamos o cemitério e recorríamos ao bar para o lanche da tarde, o espetáculo era garantido. Qualquer cliente que entrasse no bar esse sujeito, o Pudim (vamos chamá-lo assim, não lembro o nome dele), começava a provocar na mesma hora. Mas provocar mesmo, aquele tipo de provocação que normalmente só se reserva para os amigos mais chegados – e olhe lá. O Pudim fazia de conta que não queria atender, falava mal da roupa, colocava em dúvida a masculinidade, zombava do jeito de falar – do cliente, tudo em alto e bom som e com um sorriso ambíguo nos lábios. A provocação era tanta que às vezes demorava um tempo para o desavisado consumidor perceber que cara atrás do balcão estava zombando era dele.

As reações eram muito variadas. Gente da casa como eu só intensificava a provocação, simulava brigas, saía no tapa, ria em voz alta. Havia os que enfrentavam a provocação estoicamente e saíam indignados brandindo a sua coxinha. Outros davam risada e ficavam quietos, outros recorriam à negação (ele não pode estar falando comigo), outros ainda levavam a sério e pediam satisfações.

Quando as dava, o Pudim dizia:

– E o que é que você esperava? Você me entra num boteco, de esquina, do lado do cemitério e ainda exige atendimento classe A? Cê tá é maluco! Agora me dá aí esse dinheiro e paga de uma vez.

E não ficava claro se ele estava brincando.

“E o que é que você esperava?”

Eu amava o cara. Ele me convidou para comer churrasco na casa dele mais de uma vez e eu, vergonhosamente, nunca fui. Na hora de pagar ele me beijava no rosto para chocar a freguesia, dizia que fazia tempo que eu não ligava. Um tio de uns cinqüenta anos, cabelo muito curto, entre o loiro e o branco, mas energizado como o Jim Carrey nos seus melhores momentos.

Estou certo que havia gente que voltava ao bar só para ter o prazer de ser tão carinhosamente escurraçado pelo Pudim. Estou certo porque eu mesmo era um deles.

Lembro de ter ficado admirado de que existisse um lugar assim, um oásis no oceano de verniz da falsa polidez; um refúgio onde as pessoas entravam deliberadamente para serem tratadas mal – mas com todo o carinho, e sem qualquer acepção de pessoas.

Talvez tenha sido no bar do Pudim que aprendi que “cale a boca” pode ser dito com tremendos carinho e admiração. Que o insulto pode funcionar como velada declaração de amor e aceitação, infinitamente mais sincera do que o elogio untuoso e inevitável.



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