28 de Agosto de 2005

Meros consumidores

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Goiabas Roubadas, Sociedade

Creio que a presente crise tem as suas raízes num grande experimento duplo que fracassou, e afirmo que a resolução da crise começa com o reconhecimento do fracasso. Por cem anos temos tentado fazer com que as máquinas trabalhem para o homem, e tentado ensinar os homens a uma vida a serviço delas. Acontece que as máquinas não “trabalham”, e as pessoas não podem ser ensinadas a uma vida a serviço das máquinas. A hipótese na qual a experiência foi baseada deve agora ser descartada. A hipótese era que as máquinas podem substituir os escravos. A evidência mostra que, usadas com esse propósito, as máquinas escravizam os homens.

[...]

Nos países ricos, os prisioneiros tem com freqüência acesso a mais coisas e serviços do que os membros de suas famílias, mas não tem direito a opinar sobre como as coisas são feitas e não podem decidir o que fazer com elas. Sua punição consiste em serem privados do que chamo de “convivência”. São reduzidos ao status de meros consumidores.

Escolho o termo convivência para designar o oposto da produtividade industrial. Quero designar com o termo uma relação autônoma e criativa entre pessoas, e a relação de pessoas com seu meio-ambiente; e isso em contraste com a resposta condicionada de pessoas às exigências feitas sobre elas por outros, e por um meio-ambiente criado pelo homem. Considero a convivência como sendo a liberdade individual colocada em efeito na interdependência pessoal e, como tal, um valor ético intrínseco. Creio que, em qualquer sociedade, quando a convivência é reduzida abaixo de determinado nível, não há acréscimo de produtividade industrial que possa efetivamente satisfazer as necessidades que gera entre os membros da sociedade.

Ivan Illich, em Ferramentas de Convivência

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I believe that this crisis is rooted in a major twofold experiment which has failed, and I claim that the resolution of the crisis begins with a recognition of the failure. For a hundred years we have tried to make machines work for men and to school men for life in their service. Now it turns out that machines do not “work” and that people cannot be schooled for a life at the service of machines. The hypothesis on which the experiment was built must now be discarded. The hypothesis was that machines can replace slaves. The evidence shows that, used for this purpose, machines enslave men.

[...] Prisoners in rich countries often have access to more things and services than members of their families, but they have no say in how things are to be made and cannot decide what to do with them. Their punishment consists in being deprived of what I shall call “conviviality.” They are degraded to the status of mere consumers.

I choose the term “conviviality” to designate the opposite of industrial productivity. I intend it to mean autonomous and creative intercourse among persons, and the intercourse of persons with their environment; and this in contrast with the conditioned response of persons to the demands made upon them by others, and by a man-made environment. I consider conviviality to be individual freedom realized in personal interdependence and, as such, an intrinsic ethical value. I believe that, in any society, as conviviality is reduced below a certain level, no amount of industrial productivity can effectively satisfy the needs it creates among society’s members.

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