05 de Maio de 2005

Matinais

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

Certa manhã, logo depois das matinais, um monge recebeu uma incumbência que o obrigava a atravessar um pequeno pomar a alguma distância do Monastério. Avançando rápido pelo caminho orlado de flores, tendo o espírito ainda exaltado com as leituras e salmos que havia acabado de recitar com seus companheiros, o monge orou ao Senhor pedindo que ele lhe concedesse a graça de experimentar uma migalha que fosse dos prazeres do paraíso.

Nesse ponto, já na orla do pomar, um pássaro cantou, e o seu canto era tão lírico e pungente e belo que lágrimas brotaram imediatamente nos olhos do monge. Ele parou para escutar, e enquanto o passáro cantava foi como se o tempo parasse. Esse momento durou trezentos anos.

Quando o canto do pássaro cessou o monge percebeu que tudo havia mudado à sua volta. O pomar era agora um pátio entulhado com carcaças de animais ou de enormes ferramentas que ele desconhecia. O caminho orlado de flores era agora uma valeta fedorenta pela qual escorria um líquido viscoso e negro.

Apavorado, o monge partiu depressa, percorrendo como podia o caminho de volta ao Monastério, escalando muros, evitando multidões que o ignoravam, desviando-se de engenhos que nunca tinha visto antes. Para seu horror, na elevação em que antes erguia-se o complexo do Monastério espraiavam-se agora os tentáculos de algum edifício abominável que roncava como um leviatã e despejava no céu um torvelinho pavoroso de fumaça.

Quando tudo ficou explicado o monge viveu ainda trinta e um anos, tempo que passou tentando diligentemente convencer os que encontrava a não começar o dia sem pelo menos um Domine Deus. Ele morreu numa agonia de depressão, sem que houvesse quem soubesse prestar-lhe os últimos ritos.



Um comentário a respeito de "Matinais"

Bony

Lindo…
Parabéns.



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