Saber acordar outra pessoa é tão importante que deveria haver seminários, cursos, premiações e menções honrosas. Uma coisa é ser acordado por um despertador, outra é quando alguém vem e acorda você – o curioso é que a segunda coisa nem sempre é menos violenta do que a primeira.
Se é preciso todo cuidado para se acordar um sonâmbulo, que está para todos os efeitos tão desperto e funcional quanto você, imagine o zelo que não se deve ter em palavras e atos ao nos aproximarmos do terreno santo que é o sono profundo de outra pessoa – ainda mais com o objetivo maligno de arrancar dele a pessoa em questão. Não vale aqui a injunção de Jesus a Judas, o que tens a fazer faze-o depressa.
Faça devagar. A pessoa está mergulhada no sono, e a sua função é trazê-la para a praia em segurança, sem traumatismos nem traumas. A precisão tem de ser neurocirurgião, o carinho de Madre Teresa, a sabedoria de Salomão, a paciência de Jó. Um passo em falso seu pode arrasar o dia do despertado.
De todas as pessoas neste vasto mundo que já tiveram acesso ao meu quarto (e não foram, naturalmente, muitas), a única que sabe como me acordar devidamente é minha irmã Isa. Lembro com saudade do tempo em que morávamos juntos no sobrado da Affonso Camargo. A Isa entrava mansamente, sem ser sentida, começava a fazer um cafuné gentil na nuca e só alguns segundos depois começava a convidar docemente: “Paulinho, está na hora de acordar”. Paulinho, veja bem. Com tanta gentileza, a hora de acordar não parecia uma perspectiva infeliz.
Quando a Isa casou e o Marcelo usurpou de mim os cafunés dela, fiquei à mercê de dois métodos ultra-violentos: o da minha mãe, que batia com toda a força na porta (mesmo quando ela estava aberta), e o de meu pai, que ficava dizendo austeramente “Paulo, LEVANTE!” sem se dar ao trabalho de sair do quarto dele, como se eu fosse um Lázaro que ele tinha de ressuscitar de uma distância segura. Quando ele entrava no meu quarto era para dar sugestões edificantes como “não precisa levantar, é só empurrar o travesseiro para baixo com as duas mãos. Com força”.
No ano em que eu e o Ivan dividimos um apartamento quem nos acordava era um despertador de pilha, cujo tic-tac era já um impiedoso TEC-TEC e cujo alarme parecia o ganir indecente de um cachorro epilético. Absolutamente traumático. Com o tempo aprendi a acordar antes do despertador apenas para desligar o alarme antes que ele tocasse. Aquele relógio me condicionou a crer que acordar cedo era de fato uma virtude.
Depois disso, quando morei sozinho no sobrado e agora no Monastério, sem irmã, irmão ou cônjuge para me despertar – permaneci treinado para acordar sozinho todos os dias, entre as 06h30 e as 07h00. Sou meu próprio relógio, e se não faço meu próprio cafuné pelo menos não bato na minha porta e não grito com ninguém antes do meio-dia.
COMO ACORDAR OUTRA PESSOA
- Acorde antes dela.
- Em geral é melhor despertar a pessoa mais cedo e dar a ela algum tempo para adaptar-se à brutal realidade do que deixá-la dormir uns minutinhos a mais e recorrer depois a métodos mais violentos e desesperados.
- Não grite, não fale alto, não bata na porta. Só puxe a coberta muito devagar, e quando não for causar constrangimento a nenhum dos envolvidos.
- Não cutuque, não telefone, não sacuda com violência. Absolutamente nunca jogue água.
- Não use o nome da pessoa como palavrão ou como ameaça, mas como convite. Seja amável ao ponto de que a perspectiva da sua companhia pareça para a pessoa mais desejável do que continuar dormindo.
- Acorde a pessoa como você gostaria de ser acordado ou, melhor ainda, como ela gostaria de ser acordada.
- Se depois de algum tempo não funcionar, não insista. Empurre a pessoa para o lado e durma junto.





