11 de Fevereiro de 2005

Lembranças a Doré

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Nostalgia, The Net

Esbarramo-nos, eu e o inesgotável Luiz Fernando Farah, num pacato lugar da net que basicamente desonra discute a obra irretocável de Jorge Luis Borges. Ainda não estive pessoalmente diante das suas barbas aparadas, mas já sei sobre o Luiz o fundamental: que gosta de Borges, que esteve em Urubici e joga de vez em quando uma oferta na Bacia.

Nesse curto vai-e-vem virtual escavamos afinidades adicionais, celebramos Monteiro Lobato, ele me apresentou a Robert Heinlein, e o próprio Luiz lembrou que é feliz possuidor de uma das minhas mais caras memórias: a edição das fábulas de La Fontaine ilustrada por Gustave Doré que eu gostava de folhear quando criança na Biblioteca Pública de Londrina, e que aparece em Redimido pela amizade. Ele fez a gentileza de escanear e enviar-me algumas páginas para que eu exibisse aqui.

Como vivo dizendo, Doré é meu ilustrado favorito. Eu folheava as suas páginas totalmente assombrado com o poder intrínseco daqueles ricos traçados e ênfases, extasiado com a possibilidade de que fosse humanamente possível alguém desenhar daquele jeito.

Eu, naturalmente, estava errado: é humanamente impossível desenhar como Doré.

Um detalhe do retrato de La Fontaine:

Um elefante, dois aventureiros e um rio num cenário de pedras:

Um detalhe do elefante, e uma versão enorme da mesma ilustração.

Obrigado de novo, Luiz, pela generosidade de fábula.



Um comentário a respeito de "Lembranças a Doré"

Enio Souza

A obra do francês Gustavo Doré tem a capacidade não só de resistir ao tempo como de andar à frente dele.

Me lembro muito bem quando meu irmão, um então tecnólogo em processamento de dados, trouxe uma ilustração de um Cristo impresso em impressora matricial, utilizando todo o repertório de caracteres possíveis para a época. Era o computador tentando dar seus primeiros passos na reprodução de desenhos na sombra do incomparável Doré.

Isso foi há uns trinta anos. O computador, apesar de ter evoluido assombrosamente, nunca mais tentou nada parecido. Apenas desistiu.

Acho que Doré já pensava em bites quando se debruçava sobre as madeiras usadas na xilogravura para registrar, já definitivamente, suas obras.

Tem uma frase de Maistre que sugere uma forma de avaliar livros e homens: “basta saber por quem são amados e por quem são odiados.”

Analisando o resultado do trabalho de Doré à luz dessa feliz conclusão, fatalmente nos daríamos conta de que obras como a Divina Comédia de Dante e Dom Quixote de Cervantes são até hoje lembradas e amadas muito mais pela beleza das imagens do que pela própria grandeza da peça literária.

Os traços de Doré eram de fato, divinos!



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